Contra a histeria dos extremos, uma dose de ceticismo 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

Contra a histeria dos extremos, uma dose de ceticismo

Por Wanfil em Crônica

14 de agosto de 2019

O Grito, de Munch (1893). Emoções que suplantam a razão e distorcem o horizonte

Parte do mundo – Brasil incluso – vive um período de “histeria dos extremos”. É o que afirma o cientista político e jornalista português João Pereira Coutinho, conservador moderado, articulista da Folha de São Paulo (e o neoconservador que já saca um “comunista enrustido” para rotular o jornal adversário), em entrevista à revista eletrônica Crusoé (nesse caso, o leitor progressista não resiste e manda ver um “fascista” para desqualificar inimigos).

Claro que o que importa é o conteúdo, embora isso, nesses tempos de leitores de manchetes, não seja mais algo tão óbvio. Coutinho, como sempre, ajuda a pensar. Os extremismos, segundo o jornalista, são habilmente explorados por populismos de esquerda e de direita. Bem, não é por outra razão que é possível ver a qualquer hora, nas redes sociais, legiões de indivíduos adultos se acusando uns aos outros de “bolsominions” ou de “petralhas”: o sucesso de termos rasos e toscos são sintomas de um ambiente contaminado por ressentimentos, onde a razão cede espaço à emoção.

Contra esses impulsos, vale destacar uma passagem da entrevista:

“O que importa, do ponto de vista conservador, é atuar no mundo de forma cética e prudente, porque o conhecimento humano é falível e os seres humanos são imperfeitos por definição”.

Pois é, isso deveria valer para qualquer espectro ideológico. É claro que radicais instrumentalizam o inconformismo das pessoas pregando rupturas milagrosas e utópicas, desvalorizando a experiência acumulada em outras aventuras e a cautela para preservar os avanços conquistados ao longo do tempo.

Faço aqui uma rápida digressão, para considerar o reverso dessa forma de voluntarismo, que é a apatia, fenômeno que atinge a política local no Ceará, onde o adesismo explícito sufoca a pluralidade de ideias e as diferenças de visão de mundo. Mas essa é outra história.

Sobre a importância da prudência diante de incertezas e mudanças, lembro um texto que escrevi sobre o filósofo grego Pirro de Élida, fundador da escola Cética. Reproduzo um trecho: “O cético, uma vez convencido de algo, por exemplo, a validade de uma política pública de longo prazo, escolheria o candidato que se comprometesse com ela, sem nutrir, contudo, qualquer ilusão de infalibilidade ou messianismo. Nada de idolatrar ninguém. Se desse errado ou se desse certo, o cético voltaria da mesma forma, naturalmente, ao estado original de observação e crítica”.

É isso aí. Ser crítico, inclusive, ou sobretudo, consigo mesmo. Sem histeria ou apatia.

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Contra a histeria dos extremos, uma dose de ceticismo

Por Wanfil em Crônica

14 de agosto de 2019

O Grito, de Munch (1893). Emoções que suplantam a razão e distorcem o horizonte

Parte do mundo – Brasil incluso – vive um período de “histeria dos extremos”. É o que afirma o cientista político e jornalista português João Pereira Coutinho, conservador moderado, articulista da Folha de São Paulo (e o neoconservador que já saca um “comunista enrustido” para rotular o jornal adversário), em entrevista à revista eletrônica Crusoé (nesse caso, o leitor progressista não resiste e manda ver um “fascista” para desqualificar inimigos).

Claro que o que importa é o conteúdo, embora isso, nesses tempos de leitores de manchetes, não seja mais algo tão óbvio. Coutinho, como sempre, ajuda a pensar. Os extremismos, segundo o jornalista, são habilmente explorados por populismos de esquerda e de direita. Bem, não é por outra razão que é possível ver a qualquer hora, nas redes sociais, legiões de indivíduos adultos se acusando uns aos outros de “bolsominions” ou de “petralhas”: o sucesso de termos rasos e toscos são sintomas de um ambiente contaminado por ressentimentos, onde a razão cede espaço à emoção.

Contra esses impulsos, vale destacar uma passagem da entrevista:

“O que importa, do ponto de vista conservador, é atuar no mundo de forma cética e prudente, porque o conhecimento humano é falível e os seres humanos são imperfeitos por definição”.

Pois é, isso deveria valer para qualquer espectro ideológico. É claro que radicais instrumentalizam o inconformismo das pessoas pregando rupturas milagrosas e utópicas, desvalorizando a experiência acumulada em outras aventuras e a cautela para preservar os avanços conquistados ao longo do tempo.

Faço aqui uma rápida digressão, para considerar o reverso dessa forma de voluntarismo, que é a apatia, fenômeno que atinge a política local no Ceará, onde o adesismo explícito sufoca a pluralidade de ideias e as diferenças de visão de mundo. Mas essa é outra história.

Sobre a importância da prudência diante de incertezas e mudanças, lembro um texto que escrevi sobre o filósofo grego Pirro de Élida, fundador da escola Cética. Reproduzo um trecho: “O cético, uma vez convencido de algo, por exemplo, a validade de uma política pública de longo prazo, escolheria o candidato que se comprometesse com ela, sem nutrir, contudo, qualquer ilusão de infalibilidade ou messianismo. Nada de idolatrar ninguém. Se desse errado ou se desse certo, o cético voltaria da mesma forma, naturalmente, ao estado original de observação e crítica”.

É isso aí. Ser crítico, inclusive, ou sobretudo, consigo mesmo. Sem histeria ou apatia.