Cultura Archives - Página 2 de 2 - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

Cultura

Consciência não tem cor

Por Wanfil em Brasil, Cultura, Livros

20 de novembro de 2012

A maior qualidade da democracia brasileira não está na separação de seus cidadãos pelo critério da cor, mas justamente na miscigenação, como evidenciam Freyre, em Casa Grande e Senzala; e Kamel, em Não Somos Racistas.

Hoje é o dia da consciência negra. Pela lógica, o fato de seres humanos  possuírem cores diferentes basta para invalidar qualquer tipo de discriminação, uma vez que todos possuem a mesma constituição física. No entanto, como sabemos, o racismo existe em variadas formas, a depender do período histórico e da sociedade analisados.

O problema de haver um dia para comemorar a “consciência negra” reside no fato de que se está promovendo uma distinção que separa as pessoas pelo critério da cor. Por esse princípio, seria natural haver o dia da “consciência branca”, ou da “consciência cabocla”, ou “quase-negra”, ou “amarela” etc, etc. A consciência, enquanto faculdade de discernimento sobre os próprios atos, é atributo individual e intransferível, independente do sexo ou da cor. Do ponto de vista coletivo, podemos ter o patriotismo, que é o sentimento de pertencimento e de unidade experimentado por pessoas que dividem uma formação histórica. É, portanto, uma soma. Não pode haver, nesse grupo, uma categoria especial, pois todos se igualam na condição de brasileiros.

Dessa forma, grosso modo, a primeira medida para corrigir discriminações de natureza racial é o estabelecimento da igualdade jurídica entre os cidadãos. Qualquer exceção ao estabelecimento dessa noção igualitária, ainda que supostamente criada com as melhores intenções, resulta em… racismo!

Não estou afirmando que inexiste discriminação racial no Brasil. Digo apenas que o racismo brasileiro é um fenômeno cultural de difícil identificação, que na maioria das vezes se manifesta em forma tácita. Não existem, pelo menos não existiam até a criação das cotas raciais nas universidades federais, leis de discriminação. Não há impedimentos legal para que um negro ou um amarelo tenham acesso a qualquer bem ou direito, ou que privilegiem um branco, garantindo-lhe regalias. Portanto, em nossa sociedade, a melhor forma de combater o preconceito de cor é a promoção da boa educação para o exercício da democracia. Não se trata definitivamente, de um problema de legislação.

Dica de leitura sobre o tema

Casa-grande e Senzala, escrito pelo sociólogo Gilberto Freyre, em 1933. Trata-se de um imenso painel que, entre outras coisas, traz o registro detalhado do processo de miscigenação que fez do Brasil um país multi-racial. Para Freyre, essa mistura seria a maior qualidade do nosso povo, a matriz da identidade nacional.

Não Somos Racistas, do jornalista e sociólogo Ali Kamel, de 2007. É um alerta para o perigo de perdermos a noção positiva da miscigenação, devido ao pensamento bicolor que busca dividir o Brasil apenas entre brancos opressores e negros oprimidos. “Num país em que no pós-Abolição jamais existiram barreiras institucionais contra a ascensão social do negro, num país em que os acessos a empregos públicos e a vagas em instituições de ensino público são assegurados apenas pelo mérito, num país em que 19 milhões de brancos são pobres e enfrentam as mesmas agruras dos negros pobres, instituir políticas de preferência racial, em vez de garantir educação de qualidade para todos os pobres e dar a eles a oportunidade para que superem a pobreza de acordo com os seus méritos, é se arriscar a pôr o Brasil na rota de um pesadelo: a eclosão entre nós do ódio racial, coisa que, até aqui, não conhecíamos”, afirma Kamel.

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Avenida Brasil e os finais previsíveis

Por Wanfil em Crônica, Cultura

20 de outubro de 2012

Imagem que fez sucesso na internet por causa da novela Avenida Brasil: O segredo em certos tipos de arte é a previsibilidade.

Dizer que o país parou por causa de uma novela é um exagero. Money never sleeps, já dizia Gordon Grekko. É inegável, porém, que o o folhetim Avenida Brasil monopolizou redes sociais e gerou imensa expectativa na maioria dos brasileiros por ocasião da exibição do seu último capítulo.

Não tenho nada contra novelas. Particularmente, considero-as enfadonhas, mas não as tomo por anestésicos da consciência coletiva como muitos afirmam por aí. Novelas, assim como o futebol, são futilidades que fazem parte da vida porque são necessárias. Mesmo nas sociedades mais avançadas há um bom espaço para o lazer sem compromisso intelectual. E isso, em si, não é ruim, pelo contrário.

Apenas acho que novelas, do ponto de vista formal e estético, são repetitivas ao extremo. O que muda de uma novela para outra são as locações e os atores, mas a liga que amarra a estrutura narrativa de todas elas é sempre a mesma: um grande amor que enfrenta preconceitos e inveja, mocinhos que sempre vencem, pobres cheios de consciência social, um louco, empregados domésticos engraçados e empresários inescrupulosos. No capítulo final, não podem faltar jamais uma festa de casamento, a revelação de um segredo. Pronto. Com esses ingredientes, temos uma novela. Mais recentemente, ao que me consta, briga de mulheres – a heroína contra a vilã – é bom para a audiência.

O poder que essa estrutura quase fixa tem de encantar milhões de pessoas é o que mais considero interessante. Minhas filhas, ainda na primeira infância, costumam a assistir o mesmo filme repetidas vezes e não raro se mostram resistentes em aceitar novidades. Pesquisei um pouco e descobri que, psicologicamente, esse comportamento decorre de algo básico para a criança: necessidade de segurança. No fundo, elas querem o previsível, a história repetida cujo final elas já conhecem, porque isso lhes é confortável. Até os sete anos, se bem me lembro, a criança se vê integralmente nos personagens.

Por isso a arte que incomoda, que provoca o exame mais aprofundado da consciência e das relações sociais, que aborda contradições e foge do senso comum, que demole verdades absolutas ou consensos politicamente corretos, é coisa adulto. Acho que isso explica, em parte, o sucesso de novelas que se esmeram no conceito “vale a pena ver de novo”.

PS. Vou dar um mote: Que tal uma novela sobre um grupo de idealistas que tinham sonhavam com a revolução e que anos depois, uma vez no poder, se transformam naquilo contra o que diziam lutar no passado? Não… Podem pensar isso ou aquilo, vai que alguém se ofende… Melhor fazer uma novela em que um grande amor terá que enfrentar grandes desafios para conseguir vencer.

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Você é uma pessoa bacana, bem resolvida e sem culpas? Então leia Mencken

Por Wanfil em Cultura

28 de julho de 2012

H. L. Mencken – Sem medo das unanimidades ou das “verdades” estabelecidas.

Algumas pessoas possuem um poder de síntese de tal forma aguçado que seus aforismas acabam superando seus textos mais longos. No Brasil, Millôr Fernandes, Otto Lara Resende e Aparício Torelly (Barão de Itararé), são alguns dos representantes mais conhecidos desse tipo de intelectual.

Nos Estados Unidos, a arte de expressar em poucas palavras aspectos sensíveis da natureza humana e das relações sociais tem como um de seus expoentes o jornalista  H. L. Mencken (1880 – 1956). É dele a frase:

A consciência é uma voz interior que nos adverte de que alguém pode estar olhando.

Em tempos de unanimidade politicamente correta, em que a dita boa consciência pode ser adquirida com a simples adesão aos pensamentos influentes do dia, o sarcasmo de Mencken alerta para algo intrínseco ao gênero humano: a culpa. Se antes o pecado, e consequentemente a danação, era o terror a ser evitado, hoje é papel de vilão cabe à culpa. Por isso a maioria finge ser completamente realizada, bastando para isso se declarar ambientalista, saudável, holístico, tolerante, moderno, relativista, socialista, feminista pró-aborto, igualitário e outras rotulações bem aceitas na comunidade das pessoas lindas e maravilhosas.

No entanto, a culpa que nos espreita em silêncio, de soslaio, como bem revela Mencken, é o reconhecimento de que somos feitos não apenas de certezas edificantes, mas essencialmente de conflitos e contradições. E isso não é ruim como pode parecer. As dúvidas – e a busca pela verdade –  são o combustível que movem o pensamento humano. Indo mais além, Mencken nos faz lembrar que a consciência é atributo individual, demonstrando a primazia do sujeito sobre o grupo. Não existem culpas coletivas: isso é política. Existe o indivíduo.

Experimente dizer que você reprova alguns aspectos do Islamismo, ou que as democracias ocidentais são formas de organização social superiores às tribos indígenas. Diga que as cotas raciais constituem a legalização próprio racismo. Ouse afirmar que a igualdade plena é uma ideia injusta pois o talento é privilégio de poucos. O risco de você virar alvo da patrulha do pensamento, apontado nos círculos mais influentes como alguém a ser evitado, é grande. Mas se você quiser ser uma pessoa superior dentro do arquétipo da correção política, fale mal de Israel, dos americanos, da Igreja Católica, ou diga que os brancos estão em dívida com os negros e que isso tem que ser compensado pelo estado. Nunca fale que hip-hop é apologia da ignorância, que pichação não é arte ou que acha maracatu um saco. Pode fumar maconha e pedir sua descriminação, mas o tabagismo está proibido. Pronto. Você já pode ser aceito no clube da felicidade onde não existe culpa (a culpa é dos americanos e da direita, lembra?).

Quando as coisas ficam simples demais, quando as contradições são suprimidas do debate por opressão das unanimidades, é hora de ler gente como H. L. Mencken.

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Você é uma pessoa bacana, bem resolvida e sem culpas? Então leia Mencken

Por Wanfil em Cultura

28 de julho de 2012

H. L. Mencken – Sem medo das unanimidades ou das “verdades” estabelecidas.

Algumas pessoas possuem um poder de síntese de tal forma aguçado que seus aforismas acabam superando seus textos mais longos. No Brasil, Millôr Fernandes, Otto Lara Resende e Aparício Torelly (Barão de Itararé), são alguns dos representantes mais conhecidos desse tipo de intelectual.

Nos Estados Unidos, a arte de expressar em poucas palavras aspectos sensíveis da natureza humana e das relações sociais tem como um de seus expoentes o jornalista  H. L. Mencken (1880 – 1956). É dele a frase:

A consciência é uma voz interior que nos adverte de que alguém pode estar olhando.

Em tempos de unanimidade politicamente correta, em que a dita boa consciência pode ser adquirida com a simples adesão aos pensamentos influentes do dia, o sarcasmo de Mencken alerta para algo intrínseco ao gênero humano: a culpa. Se antes o pecado, e consequentemente a danação, era o terror a ser evitado, hoje é papel de vilão cabe à culpa. Por isso a maioria finge ser completamente realizada, bastando para isso se declarar ambientalista, saudável, holístico, tolerante, moderno, relativista, socialista, feminista pró-aborto, igualitário e outras rotulações bem aceitas na comunidade das pessoas lindas e maravilhosas.

No entanto, a culpa que nos espreita em silêncio, de soslaio, como bem revela Mencken, é o reconhecimento de que somos feitos não apenas de certezas edificantes, mas essencialmente de conflitos e contradições. E isso não é ruim como pode parecer. As dúvidas – e a busca pela verdade –  são o combustível que movem o pensamento humano. Indo mais além, Mencken nos faz lembrar que a consciência é atributo individual, demonstrando a primazia do sujeito sobre o grupo. Não existem culpas coletivas: isso é política. Existe o indivíduo.

Experimente dizer que você reprova alguns aspectos do Islamismo, ou que as democracias ocidentais são formas de organização social superiores às tribos indígenas. Diga que as cotas raciais constituem a legalização próprio racismo. Ouse afirmar que a igualdade plena é uma ideia injusta pois o talento é privilégio de poucos. O risco de você virar alvo da patrulha do pensamento, apontado nos círculos mais influentes como alguém a ser evitado, é grande. Mas se você quiser ser uma pessoa superior dentro do arquétipo da correção política, fale mal de Israel, dos americanos, da Igreja Católica, ou diga que os brancos estão em dívida com os negros e que isso tem que ser compensado pelo estado. Nunca fale que hip-hop é apologia da ignorância, que pichação não é arte ou que acha maracatu um saco. Pode fumar maconha e pedir sua descriminação, mas o tabagismo está proibido. Pronto. Você já pode ser aceito no clube da felicidade onde não existe culpa (a culpa é dos americanos e da direita, lembra?).

Quando as coisas ficam simples demais, quando as contradições são suprimidas do debate por opressão das unanimidades, é hora de ler gente como H. L. Mencken.