A traição como doutrina política e as eleições em Fortaleza 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

A traição como doutrina política e as eleições em Fortaleza

Por Wanfil em Crônica, Eleições 2012

12 de agosto de 2012

Cena de A Rainha Margot: Fazendo-se amiga de Henrique de Navarra, Catarina de Médici busca transformar a traição em virtude. Qualquer semelhança com as eleições…

Num dos diálogos mais cínicos do cinema, no filme A Rainha Margot (1994), Catarina de Médici diz ao genro e futuro rei da França, Henrique de Navarra: “Que é a traição? A habilidade de se adaptar aos acontecimentos”. O ardil tinha por intenção transformar o erro em virtude para justificar a falta de princípios no ambiente sórdido da corte francesa no ano de 1572, quando as disputas sem limites pelo poder e a desmesurada ambição da nobreza fizeram dessa trama, baseada em fatos reais, símbolo perfeito do vale tudo para se dar bem.

Deixando o século XVI e voltando ao XXI, viajando da França monarquista para a República brasileira, e mais precisamente para as eleições municipais em Fortaleza, capital do Ceará, recordo também de Karl Marx: “A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”. Apesar da distância e guardadas devidas as proporções históricas, os candidatos em evidência na atual disputa eleitoral preservam esse elemento clássico das relações de poder: o signo da traição na política.

Conveniências da hora

Não vou citar nomes, pois esta reflexão diz respeito a uma forma generalizada, embora a cada época, possua seus protagonistas de sucesso. Pense um pouco, amigo leitor, quantos candidatos que agora posam de críticos convictos dos descaminhos da gestão de Luizianne não estavam, até poucos dias atrás, com seus partidos controlando secretarias e órgãos municipais, administrando verbas públicas e principalmente, caladinhos, sem nada verem de errado na administração da qual eram sócios menores. Quantos não foram fiadores do governo que agora repudiam, colocando a própria credibilidade a serviço da reeleição da petista, garantindo aos eleitores que era esse o melhor caminho, apesar das fragilidades que já se faziam sentir naquele momento.

A gestão atual, evidentemente, não é vítima passiva. No jogo do toma lá, dá cá, distribuiu cargos justamente na intenção de angariar apoio fisiológico. O que fazem todos estes senhores e senhoras? Nada mais do que aquilo que Catarina de Médici aconselhava a Henrique de Navarra: adaptação segundo as conveniências da hora. Cabe lembrar que os motivos eram os mais elevados: manter a paz entre católicos e protestantes (o que não aconteceu, terminando na fatídica Noite de São Bartolomeu).

Exceções

Sim, há algo de perene e universal no deslumbre causado pelo desejo de comandar  as forças do Estado, na capacidade de converter supostos compromissos em meros joguetes de palavras. A regra, em geral,  nunca foi outra que não a de “se adaptar aos acontecimentos”. Às favas com as convicções e tudo de acordo com as circunstâncias, essa é a lei para tais criaturas.

No entanto, apesar de longeva, essa regra da desfaçatez não é universal. Não foram os poucos os que romperam com essa, digamos assim, tradição. E sempre há um preço a se pagar por desagradar aos demais. O próprio Henrique de Navarra não deu ouvidos ao canto insinuante da rainha. Foi alvo de atentados e depois obrigado a fugir da França, para depois voltar e refazer a história, sem abrir mão das próprias convicções. Não era santo, mas era firme.

Moral

É isso, caros leitores. Toda batalha pelo poder tem as Catarinas do momento.

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A traição como doutrina política e as eleições em Fortaleza

Por Wanfil em Crônica, Eleições 2012

12 de agosto de 2012

Cena de A Rainha Margot: Fazendo-se amiga de Henrique de Navarra, Catarina de Médici busca transformar a traição em virtude. Qualquer semelhança com as eleições…

Num dos diálogos mais cínicos do cinema, no filme A Rainha Margot (1994), Catarina de Médici diz ao genro e futuro rei da França, Henrique de Navarra: “Que é a traição? A habilidade de se adaptar aos acontecimentos”. O ardil tinha por intenção transformar o erro em virtude para justificar a falta de princípios no ambiente sórdido da corte francesa no ano de 1572, quando as disputas sem limites pelo poder e a desmesurada ambição da nobreza fizeram dessa trama, baseada em fatos reais, símbolo perfeito do vale tudo para se dar bem.

Deixando o século XVI e voltando ao XXI, viajando da França monarquista para a República brasileira, e mais precisamente para as eleições municipais em Fortaleza, capital do Ceará, recordo também de Karl Marx: “A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”. Apesar da distância e guardadas devidas as proporções históricas, os candidatos em evidência na atual disputa eleitoral preservam esse elemento clássico das relações de poder: o signo da traição na política.

Conveniências da hora

Não vou citar nomes, pois esta reflexão diz respeito a uma forma generalizada, embora a cada época, possua seus protagonistas de sucesso. Pense um pouco, amigo leitor, quantos candidatos que agora posam de críticos convictos dos descaminhos da gestão de Luizianne não estavam, até poucos dias atrás, com seus partidos controlando secretarias e órgãos municipais, administrando verbas públicas e principalmente, caladinhos, sem nada verem de errado na administração da qual eram sócios menores. Quantos não foram fiadores do governo que agora repudiam, colocando a própria credibilidade a serviço da reeleição da petista, garantindo aos eleitores que era esse o melhor caminho, apesar das fragilidades que já se faziam sentir naquele momento.

A gestão atual, evidentemente, não é vítima passiva. No jogo do toma lá, dá cá, distribuiu cargos justamente na intenção de angariar apoio fisiológico. O que fazem todos estes senhores e senhoras? Nada mais do que aquilo que Catarina de Médici aconselhava a Henrique de Navarra: adaptação segundo as conveniências da hora. Cabe lembrar que os motivos eram os mais elevados: manter a paz entre católicos e protestantes (o que não aconteceu, terminando na fatídica Noite de São Bartolomeu).

Exceções

Sim, há algo de perene e universal no deslumbre causado pelo desejo de comandar  as forças do Estado, na capacidade de converter supostos compromissos em meros joguetes de palavras. A regra, em geral,  nunca foi outra que não a de “se adaptar aos acontecimentos”. Às favas com as convicções e tudo de acordo com as circunstâncias, essa é a lei para tais criaturas.

No entanto, apesar de longeva, essa regra da desfaçatez não é universal. Não foram os poucos os que romperam com essa, digamos assim, tradição. E sempre há um preço a se pagar por desagradar aos demais. O próprio Henrique de Navarra não deu ouvidos ao canto insinuante da rainha. Foi alvo de atentados e depois obrigado a fugir da França, para depois voltar e refazer a história, sem abrir mão das próprias convicções. Não era santo, mas era firme.

Moral

É isso, caros leitores. Toda batalha pelo poder tem as Catarinas do momento.