Fortaleza Archives - Página 2 de 5 - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

Fortaleza

A irreverência dos banheiros absurdos…

Por Wanfil em Fortaleza

12 de agosto de 2014

Uma história com três atores vivendo situações inusitadas relacionadas a banheiros concebidos de forma “surrealista e absurda”.

Eu sei, eu sei, essa conversa remete a um certo escândalo envolvendo banheiros e três ex-gestores de uma secretaria estadual. Mas calma que não é nada disso. É que estamos em tempo de eleição e levamos tudo para o lado da denúncia. O assunto é arte e essa é a sinopse da peça teatral “Banheiro Irreverente”, uma comédia encenada pela Companhia Boca d’Cena, com apoio da Prefeitura de Fortaleza, em cartaz a partir desta quarta-feira (13), no Teatro Antonieta Noronha (Rua Pereira Filgueiras, 4 – Centro).

Como é mesmo aquele dizer ao final de obras de ficção? “Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência”. É isso. A Prefeitura, por meio de sua Secretaria da Cultura, está de parabéns por não se policiar, como medo de associações (involuntárias ou não) entre arte e fatos reais que já começam a aparecer no debate eleitoral.

De resto, os banheiros da peça não existem no mundo real, afinal, são cenários para uma narrativa dramatúrgica. Ninguém é enganado, não é mesmo?

Mais informações no site da Prefeitura de Fortaleza.

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Prefeitura diz que responsabilidade sobre contrato suspeito é da gestão passada: não é bem assim…

Por Wanfil em Fortaleza

06 de dezembro de 2013

Sobre a denúncia de possíveis irregularidades envolvendo a contratação de uma empresa de aluguel de automóveis que utilizaria laranjas para ocultar os nomes de seus verdadeiros donos, a Prefeitura de Fortaleza comunicou ao Jornal Jangadeiro que a responsabilidade é da gestão passada, adiantando que a nova administração apenas manteve o contrato por meio de um aditivo para não interromper o serviço até que se faça uma nova licitação.

Que as autoridades competentes investiguem o suposto uso de laranjas pela Locadora Autos Brasil, que presta serviços para diversos órgãos da prefeitura, inclusive para o gabinete do prefeito Roberto Cláudio (Pros).

No entanto, alguns pontos precisam, desde já, ser melhor esclarecidos. Até porque se trata de um dos contratos mais caros geridos pela Prefeitura. Somente em 2013, o valor empenhado é de cerca de R$ 34 milhões, dinheiro que daria para comprar, por exemplo, pouco mais de 1100 carro populares (R$ 30 mil a unidade) em um único ano. Portanto, qualquer suspeição sobre um serviço que movimenta recursos desse montante, merece total atenção e prioridade.

Diário Oficial

Não é correto afirmar que a responsabilidade no caso é exclusiva da gestão Luizianne Lins (PT), cabendo ao governo Roberto Cláudio somente cumprir o que herdou. No Diário Oficial do Município é possível encontrar DOIS aditivos ao contrato feitos pela atual gestão, que vão além da mera continuação inercial, constituindo-se mesmo em alteração significativa de seu conteúdo.

No dia 08 de julho de 2013, foi publicado o “EXTRATO DO 1º TERMO ADITIVO AO CONTRATO DE SERVIÇO Nº 55/2012“, celebrado entre a Prefeitura de Fortaleza e a empresa Locadora Autos Brasil Ltda – ME, com o seguinte objeto:

 

Aditivo 1 - C

 

E no dia 21 de outubro de 2013, foi publicado o “EXTRATO DO 2° TERMO ADITIVO AO CONTRATO DE SERVIÇO N° 55/2012”, com o seguinte objeto:

 

Aditivo 2 - B

 

No 2ª aditivo o prazo de vigência do contrato é prorrogado foi “por mais 12 (doze) meses, contados a partir de 1° de outubro de 2013, ou até que seja finalizado o Processo Licitatório n° 2808141908823/2013”.

Quem é o dono?

Resumindo, não apenas o contrato é endossado pela atual gestão, como ampliado e reajustado. Não há, a princípio, ilegalidade. Mas resta evidente que, caso eventuais irregularidades sejam comprovadas, tanto as gestão passada como a atual são solidárias.

No mínimo, ficamos sabendo que a administração vigente aceita de olhos fechados qualquer contratação feita por seus antecessores, sem antes passar-lhe um pente fino. Depois não adianta dizer que não sabia, principalmente agora que a Secretaria de Planejamento centralizou o empenho e o pagamento pelo serviços.

A grande questão é saber agora quem é o dono da Locadora Autos Brasil Ltda – ME. Dessa informação é possível extrair se a prefeitura foi enganada ou se atuou deliberadamente para beneficiar terceiros. Certamente o prefeito fará questão de saber, uma vez que o interesse de passar essa história a limpo não deve se restringir apenas aos ex-aliados de ontem, mas também dos que agora governam a capital. Especialmente agora que a Prefeitura demonstra peculiar apetite por reforçar a arrecadação com o reajuste do IPTU e da taxa de iluminação pública. Antes de aumentar impostos, a Roberto Cláudio deve rever como e com quem gasta o dinheiro do contribuinte.

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IPTU maquiavélico em Fortaleza

Por Wanfil em Fortaleza

04 de dezembro de 2013

Maquiavel, autor de O Príncipe: "É preciso fazer todo o mal de uma só vez (...) e o bem pouco a pouco". Retrato em óleo pintado por Santi di Tito, em 1500.

Maquiavel, autor de O Príncipe: “É preciso fazer todo o mal de uma só vez (…) e o bem pouco a pouco”. Retrato em óleo pintado por Santi di Tito, em 1500.

A Prefeitura de Fortaleza enviou para a Câmara Municipal projeto que propõe um reajuste escalonado em três faixas para a cobrança do IPTU em 2014. Imóveis residenciais até RS 52.700 ficam isentos; entre esse valor e R$ 58.500, o aumento será de 17,5%; a partir daí até o valor de R$ 210,600, será de 22,5%; acima disso, o reajuste chega aos 35%.

Essa escala progressiva reflete a ideia de que é preciso cobrar mais dos mais ricos e menos dos mais pobres. Em tese, é justo. Mas ocorre que no mundo real, as coisas não são bem assim preto no branco. Vejamos o reajuste mais baixo, de 17,5%. É um índice pesadíssimo. Tanto é verdade, que na hora de negociar reajustes salariais para os servidores municipais, a hipótese de discutir dois dígitos para o cálculo da folha nem sequer é considerada. Imagine então 22,5% ou 35%. É um despropósito, um abuso.

Vale lembrar ainda que imóveis não residenciais terão todos reajuste de 35%, de modo linear. Pode ser o grande ou o pequeno estabelecimento comercial. É óbvio que custo será repassado para os consumidores, encarecendo produtos e serviços. No fim, até que é isento acabará pagando, de forma indireta, o aumento.

É preciso ter em conta o IPTU não deve servir de medir supostas evoluções na renda das pessoas. Ter um imóvel valorizado durante um ano não significa necessariamente, aumento salarial. Pelo contrário, com o mercado imobiliário aquecido, é comum que o preço dos imóveis suba em ritmo bem superior aos salários.

A busca de compensar alguma eventual desfasagem ou necessidade de caixa, nesse caso, é de tal forma exagerada que acaba por invalidar o benefício apregoado com a escala proposta, que não passa mesmo, no final das contas, de populismo fiscal, de uma camuflagem travestida de consciência social para disfarçar um agressão aos contribuintes.

Para aumentar impostos com esse apetite, é preciso antes ter a autoridade moral de quem primeiro se esforça para cortar os próprios gastos. Onde foi que a prefeitura reduziu custos? Não havia nada a fazer nesse sentido? O fato é que para arcar com a gastança do poder público, famílias serão obrigadas a fazer mais sacrifícios, sem o devido retorno em serviços de qualidade.

O prefeito Roberto Cláudio recentemente acenou com a possibilidade de regulamentar mais uma taxa, a chamada contribuição de melhoria. Dias depois propõe um aumento pesado no valor do IPTU. Por que não reajustar um pouco mais a cada ano, fortalecendo gradualmente a arrecadação, ao invés de querer tirar tudo o que pode de uma vez só?

A prefeitura cumpre, talvez sem saber disso, o conselho de Nicolau Maquiavel: “É preciso fazer todo o mal de uma só vez a fim de que, provado em menos tempo, pareça menos amargo, e o bem pouco a pouco, a fim de que seja mais bem saboreado”. Ou sejam, o público tende a esquecer a dor que passa e a se manter grato satisfeito com o agrado que dura no tempo.

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As sequelas da desocupação do Cocó

Por Wanfil em Fortaleza

04 de outubro de 2013

À esquerda, grupo que tenta impor sua vontade apesar de decisão judicial pela desocupação do Cocó. À direita, policiais democraticamente encarregados de restabelecer a ordem.

À esquerda, grupo que tenta impor sua vontade apesar de decisão judicial pela desocupação do Cocó. À direita, policiais democraticamente encarregados de restabelecer a ordem. Foto: Tribuna do Ceará

A desocupação do Parque do Cocó, nesta sexta-feira (4), encerra – ou tenta encerrar – o que pode ser considerado a primeira crise da atual gestão municipal de Fortaleza.

Durante 84 dias, um grupo de manifestantes acampou no parque contra a construção de dois viadutos nas imediações do local. A iniciativa, é preciso reconhecer, chamou a atenção para questões ambientais pertinentes ao empreendimento, até então ignoradas pelas autoridades municipais, que correram para regularizar as licenças necessárias para o projeto. Temas como mobilidade urbana, transporte público e a jurisdição do parque, também vieram à tona no rastro do caso.

Mas houve perdas para os envolvidos. A Justiça alimentou o clima de incertezas com sua velha e conhecida morosidade, num festival de idas e vindas. O Ministério Público se deixou contaminar pelo calor da emoção, deixando transparecer, por diversas vezes, que intrigas pessoais entre procuradores e gestores públicos motivavam suas ações.

A imagem da Prefeitura de Fortaleza, saiu desgastada, embora não de forma irreversível. De todo modo, a gestão só tomou providências que lhe cabiam porque foi pressionada, abrindo o precedente para futuros questionamentos a cada novo anúncio de projeto ou obra.

Ao contrário das tentativas anteriores de desocupação, que serviram para os manifestantes posarem de vítima, dessa vez dispersão foi rápida e precisa. Ficou claro que algumas lições foram aprendidas com os erros grosseiros cometidos recentemente. A operação não foi de madrugada ou em horário de trânsito intenso, e o uso da força, legitimado por decisão judicial, foi proporcional ao tamanho da resistência.

O próprio movimento, em boa medida usado por forças políticas com interesses eleitorais, cansou, perdeu a intensidade com o passar do tempo. No fundo, pelo radicalismo de seus defensores (inclusive dos que se consideram moderados, mas que não toleram a divergência), acabou se dissociando da simpatia que a causa ambiental tem na sociedade.

A boa notícia é que a ação de desocupação acabou sem grandes traumas. Os acampados, ao decidirem afrontar as determinações da Justiça para impor no grito suas bandeiras, correram riscos de forma irresponsável, além de colocar em risco, as vidas de terceiros.

Felizmente, no fim, prevaleceu o Estado de Direito, e a ordem, entre perdas e ganhos, aparentemente, foi restabelecida. Já estava mais do que na hora.

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Enquanto impasse no Cocó não é resolvido, manifestantes fazem a festa

Por Wanfil em Fortaleza

24 de setembro de 2013

Nem só de greve de fome vive uma causa ambiental. O vídeo abaixo tem circulado nas redes sociais e mostra manifestantes acampados no Parque do Cocó dançando numa “rave”, que é uma espécie de festa embalada por música eletrônica – o que na minha época de faculdade, Rosa da Fonseca (a senhora de camiseta branca e militante do anarquismo) chamaria de “lixo cultural imperialista”.

Nas imagens, impressiona a disposição do grupo em manter firme a sua fé. Além das barracas e das faixas, é possível ver mesas de plástico (produto feito a partir do petróleo e não biodegradável), caixas de isopor, um tabagista (supondo que seja tabaco) e um som que contrasta com as notas harmônicas do cantar do grilos e o coaxar dos sapos.

Portanto, não vai aqui nenhuma crítica quanto ao direito de festejar. Não falo nem mesmo em poluição sonora, que isso seria especular. Fico preocupado é com os animais daquele templo da natureza, de insetos a mamíferos, de peixes a crustáceos, expostos às batidas eletrônicas. Não quero nem pensar se algum acasalamento (dos animais nativos) não tiver se consumado por conta do evento.

Os manifestantes estão acampados no parque há mais de dois meses. Acredito que suas intenções sejam as melhores. Assim, pelo bem do debate construtivo e para estimular a democracia dançante, recomendo aos defensores do viaduto – que se identificam com a hastag “ViadutoSim” – promoverem também uma rave, talvez  no lado oposto do parque, para delimitar espaços. Certamente ninguém se incomodará, a não ser seus moradores naturais. Como dizia Kant, só pode ser ético o que é universal. O direito de fazer rave no Cocó agora está consolidado para todos (ou para todos e todas, como diriam os nossos ecologistas progressistas).

 

http://www.youtube.com/watch?v=o7IdhmjqB9U

 

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Parque do Cocó é terra sem lei

Por Wanfil em Fortaleza

22 de agosto de 2013

Manifestantes no Cocó comemoram decisão judicial que lhes favorece, após se recusarem a obedecer decisão judicial que lhes era contrária. Foto: Roberta Tavares / Tribuna do Ceará

Manifestantes no Cocó comemoram decisão judicial que lhes favorece, após se recusarem a obedecer decisão judicial que lhes era contrária.  Foto: Cristiano Pantanal / Tribuna do Ceará

O Parque do Cocó é, definitivamente, terra sem lei. Pode figurar, sem medo de engano, como símbolo de uma confusão geral sobre o papel do Estado, dos movimentos sociais e da própria ordem institucional que os rege.

Nada ali é certo. Não se sabe, ou melhor, nem as autoridades sabem, se o parque é municipal, estadual ou federal. No vácuo das formalizações, as incertezas prevalecem. Assim, prefeitura e manifestantes acampados no Cocó se igualam na ideia de que podem fazer o que bem entenderem, como e quando quiserem. E ai de quem não concordar.

Essa pretensão voluntariosa, autoritária mesmo, acaba ainda reforçada por decisões seguidas e contraditórias da Justiça, que ora manda desocupar o local, ora impede a sua desocupação, como aconteceu nesta quinta-feira.

Nesse chove e não molha, sobram acusações e faltam bom senso e respeito pelo cidadão. Os próprios manifestantes, que adoram aparecer no noticiário e nas redes sociais posando de vítimas da truculência policial, não perdem a oportunidade de serem hostis com profissionais da imprensa.

O caso do Cocó reflete a presente realidade do Ceará: uma imensa confusão institucional, jurídica e política, um deserto infértil onde a cidadania não brota, um profundo vazio de autoridade, com grupos e governos tentando fazer valer, a qualquer custo, na base do grito, as suas vontades.

O resto que se dane.

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Cid fala sobre ações da prefeitura e Roberto Cláudio defende governo estadual: senhores, cada um no seu quadrado!

Por Wanfil em Ceará, Fortaleza

21 de agosto de 2013

Em entrevista concedida à rádio Tribuna Bandnews, o prefeito de Fortaleza Roberto Cláudio falou sobre a polêmica dos viadutos do parque do Cocó.

Roberto Cláudio disse que o movimento contra a obra tem direcionamento político e ressaltou que aceita as divergências como parte da democracia, mas advertiu que a legalidade deve ser respeitada por todos. Enfim, mais do mesmo, nessa história que já ficou cansativa.

A novidade foi a defesa que o prefeito fez dos gastos milionários do governo estadual com a contratação de um buffet para eventos. Fugindo ao seu estilo, Roberto Cláudio classificou de maldade os questionamentos nesse episódio.

Digo novidade no sentido de ver o prefeito tratando sobre temas que dizem respeito à esfera estadual e fazendo ainda, juízo de valor sobre a ação de opositores na Assembleia Legislativa.

Nesse sentido, ele imita o governador Cid Gomes, que vez por outra interfere em temas exclusivamente municipais, inclusive no caso dos tais viadutos.

Entende-se que sejam aliados, mas é preciso delimitar o campo de atuação de cada um, para evitar confusão. Numa gestão, não há espaço para dois líderes, assim como numa aeronave não é possível dois comandantes. Sempre que as coisas se misturam, a duplicidade prevalece e as equipes perdem a referência. Cedo ou tarde, as contradições aparecem.

Sem contar que, quando se trata de uma parceria entre padrinho e apadrinhado, fica aquela impressão de um manda e o outro se esforça para agradar. Como diz aquela música horrível, “cada um no seu quadrado”.

Ademais, voltando à fala de Roberto Cláudio, não fica claro onde estaria a maldade no caso do contrato com o buffet de luxo. Que mal há em um parlamentar pedir detalhamento desses gastos?

Nesses casos, não existindo problemas e sendo tudo tão natural quanto diz o prefeito, o melhor a se fazer é colocar tudo em pratos limpos. Se não há o eu temer, o certo seria agradecer à oposição pela a oportunidade de mostrar o quão correto é o governo. Tanto barulho assim dá até pra desconfiar.

Esta foi meu comentário desta quarta-feira na Tribuna Bandnews

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Qual a diferença entre a polêmica do Parque do Cocó e uma novela?

Por Wanfil em Fortaleza, Ideologia

13 de agosto de 2013

A polêmica sobre a construção de viadutos nas imediações do Parque do Cocó possui duas vertentes de simbolismos politicamente trabalhados.

De um lado, os indefesos contra os truculentos, os fracos contra os fortes, os inocentes contra os opressores, a agenda do futuro contra a agenda do passado, a democracia participativa contra a ditadura das instituições governamentais. Do outro, os ocupados que constroem contra os desocupados sustentados por sabe-se lá quem, os práticos contra os tolos, a modernidade contra o atraso, o interesse coletivo contra o interesse de grupo, os formalistas construtivos contra os falsos revolucionários.

É mais ou menos assim que vêem uns aos outros os simpatizantes e os antipatizantes da obra, sempre na confortável condição de se verem, cada qual, no papel dos bons contra os maus.

Suspeito que a maioria dos fortalezenses não esteja nem aí para o caso. Que importa tanta celeuma para quem mora no Conjunto Ceará ou na Barra do Ceará? O debate é localizado, gera muito calor e pouca luz. Apesar disso, parece haver, pelo menos nos círculos sociais interessados no assunto, uma espécie de catarse típica das “causas” politicamente corretas exibidas em novelas. E aí as opiniões se misturam em meio a análises superficiais ou interessadas em distorcer a questão, com o agravante de que os envolvidos acreditam ser os legítimos representantes dos mais sublimes interesses da sociedade, ou de uma causa, ou de um sonho, de uma ideologia, ou ainda uma profecia.

Trata-se de uma mistura do arquétipo religioso do sacrifício que leva à salvação (perdão, Carl Jung), com a chamada cultura pop, onde a construção ou não de um viaduto ganha ares épicos de um Star Wars.

E tal como as novelas, todo o imbróglio do Cocó é irritantemente previsível. O uso da força na ação de retirada dos manifestantes acampados no local foi necessário ou abusivo? No fundo, a pergunta existe apenas para manter o caso em evidência. As partes contam com esse enredo, uns para posarem de vítima, outros pensando em resolver seus problemas de trânsito. Sem entrar no mérito da questão (numa contenda, cada parte se acha sempre com a razão), nessa novela não existe mocinho ou bandido, só figurantes usados para dramatizar o velho enredo das disputas políticas.

No final, os viadutos serão construídos e cada parte saberá tirar o devido proveito em forma de votos. É sempre assim.

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Os Gatos-Pingados

Por Wanfil em Fortaleza, História

02 de agosto de 2013

São várias as explicações para a expressão gatos-pingados, especialmente nesses tempos de Internet e Wikipédia. Eu fico com a do poeta e memorialista cearense Otacílio de Azevedo, nascido em Redenção em 1892 e autor de Fortaleza Descalça, livro de crônicas sobre a capital cearense no início do Século 20.

A propósito, lembrei-me da expressão ao ver a atuação dos manifestantes (palavra vazia, a meu ver) que tentam impedir o corte de árvores no Parque do Cocó, no trecho de sete metros onde parte de um viaduto será construído (porque o projeto não evitou isso, eu não sei). Volto ao tema mais adiante.

Otacílio conta que “um dos aspectos mais curiosos da Fortaleza antiga era, sem dúvida, aquele apresentado pelos chamados Gatos-Pingados. Eram contratados para levar o defunto ao cemitério. Trajavam longas casacas pretas espartilhadas, calças com listras vermelhas, cartolas altas, de abas enroladas” (pág. 149).

De acordo com o historiador Sebastião Rogério, meu professor na Universidade Federal do Ceará, a expressão era associada aos detalhes nas roupas desses carregadores, com faixas amarelas nos braços, além das listras vermelhas já mencionadas, que originaram, com o humor típico do cearense, o adjetivo pingado.

E foi desses cortejos fúnebres surgiu ainda a derivação depreciativa “quatro gatos-pingados” (ou a variante numérica “meia-dúzia de gatos pingados”). Para o público que morava nas proximidades do cemitério São João Batista e que gostava de assistir aos enterros, um sinal de que o defunto não gozava de prestígio ou era pessoa detestada era justamente a quantidade de acompanhantes junto ao caixão. Quanto pior, menos gente, até o limite dos “quatro gatos-pingados”.

Crítica radical? Não, prefiro a crítica sarcástica…

E dessa forma, poética e mordaz, a expressão passou a definir causas ou grupos que não conseguem contagiar, que carecem de adesão. O cartunista Henfil criou o personagem Gato Pingado para representar a torcida do América do Rio, mas essa é outra história. Ao ver os tais manifestantes no Cocó, lembrei-me de Otacílio de Azevedo. Em seguida, por uma sequência de associações, pensei nas companheiras Rosa da Fonseca e Maria Luiza Fontenele, neoecologistas que comandam o cortejo fúnebre do anticapitalismo anarquista com os quatro gatos-pingados do movimento Critica Radical.

Depois, ainda no embalo dessas associações livres, passei a imaginar quem (oh, santo Marx!) financia o grupo, cujos integrantes, vez por outra, participam de eventos no exterior e que consegue sustentar seus abnegados militantes que, sem trabalhar, não arredam o pé do acampamento no Parque do Cocó. Mas, no fundo, quem se importa?

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Ambientalismo de fachada

Por Wanfil em Ceará, Fortaleza, Ideologia

29 de julho de 2013

Pouca gente para muito barulho: Em nome da ecologia, manifestantes empunham bandeiras contra o Estado, o mercado e a burguesia. A ecologia como fachada para o anticapitalismo. Foto: Lucas Moreira/Tribuna do Ceará.

Pouca gente para muito barulho: Em defesa da natureza, manifestantes protestam  contra o Estado, o mercado e a burguesia. A ecologia como fachada para o anticapitalismo. Foto: Lucas Moreira/Tribuna do Ceará.

Com o fracasso das ideologias e o descrédito dos partidos políticos no Brasil, restaram poucas bandeiras aos militantes órfãos de uma causa que reconforte suas almas ansiosas pela redenção da humanidade.

A maioria dessas causas, entretanto, se limitam a reivindicações específicas de grupos minoritários, uma espécie de ativismo de nicho, como no casos da promoção da igualdade racial ou do combate à discriminação sexual. Para frustração de seus promotores, essas são ações de alcance limitado, por mais que sejam justas.

Distorções

Na atualidade, somente um movimento possui um apelo universal, sem limites de classe, de gênero ou de nacionalidade, perfeito para servir de fachada aos anseios dos rebeldes sem causa dos nossos dias: é a causa ambiental, ou ecológica, distorcida de modo a atender, por um lado, aos delírios ideológicos mais reacionários, como o socialismo ou o anarquismo, e por outro, para criar factoides eleitoreiros. Pode ser ainda evidência de simples marketing pessoal cínico, como é o caso de Delúbio Soares, o famoso tesoureiro que, em seu Twitter, se define como professor, sindicalista e… ambientalista!

É o que vemos, por exemplo, no grupo de indivíduos acampados há dias no Parque do Cocó, em Fortaleza, vivendo sabe-se lá do quê, dispostos a impedir a construção de dois viadutos cujas obras deverão derrubar 94 árvores.

Não há ninguém que negue a importância da preservação desse ecossistema, tanto que para qualquer intervenção no local, é preciso autorização de diversos órgãos de fiscalização e, ainda assim, as autoridades correm para mostrar ao público ações de compensação, como o plantio de novas mudas de vegetação nativa no Parque do Cocó. Sem dúvida, a destruição simples e irresponsável acarretaria prejuízos para a imagem da gestão, seria suicídio político.

Pegadinha sem graça

Nada disso interessa para a militância irracional, muito menos o fato de que seus líderes, quando estiveram no poder, nunca fizeram muito pela causa que agora lhes serve de religião. Muito mais fizeram os seus adversários, por isso mesmo acusados, na clássica inversão da história que caracteriza os movimentos autoritários, de serem os inimigos da natureza. É o pessoal que condena o agronegócio e depois reclama da alta no preço do feijão, pela diminuição da produção em larga escala, ou que detesta as montadores de automóveis, mas não dispensa um bom ar-condicionado em seus carros.

Os problemas ambientais existem e devem ser denunciados, claro. Existe também uma rígida legislação ambiental para servir de suporte para esses questionamentos. Por exemplo, os esgotos clandestinos que infectam o mar na Praia do Futuro. E aí, onde estão os ambientalistas? Não sei. Talvez a visibilidade no Cocó seja maior…

O movimento ambiental nasceu, não por acaso, nas sociedades mais industrializadas e escolarizadas, para buscar racionalidade na relação entre o consumo humano e a exploração da natureza, sem desconsiderar a importância das atividades produtivas. Transformá-lo em bandeira anticapitalista não passa de uma pegadinha. No mínimo.

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Ambientalismo de fachada

Por Wanfil em Ceará, Fortaleza, Ideologia

29 de julho de 2013

Pouca gente para muito barulho: Em nome da ecologia, manifestantes empunham bandeiras contra o Estado, o mercado e a burguesia. A ecologia como fachada para o anticapitalismo. Foto: Lucas Moreira/Tribuna do Ceará.

Pouca gente para muito barulho: Em defesa da natureza, manifestantes protestam  contra o Estado, o mercado e a burguesia. A ecologia como fachada para o anticapitalismo. Foto: Lucas Moreira/Tribuna do Ceará.

Com o fracasso das ideologias e o descrédito dos partidos políticos no Brasil, restaram poucas bandeiras aos militantes órfãos de uma causa que reconforte suas almas ansiosas pela redenção da humanidade.

A maioria dessas causas, entretanto, se limitam a reivindicações específicas de grupos minoritários, uma espécie de ativismo de nicho, como no casos da promoção da igualdade racial ou do combate à discriminação sexual. Para frustração de seus promotores, essas são ações de alcance limitado, por mais que sejam justas.

Distorções

Na atualidade, somente um movimento possui um apelo universal, sem limites de classe, de gênero ou de nacionalidade, perfeito para servir de fachada aos anseios dos rebeldes sem causa dos nossos dias: é a causa ambiental, ou ecológica, distorcida de modo a atender, por um lado, aos delírios ideológicos mais reacionários, como o socialismo ou o anarquismo, e por outro, para criar factoides eleitoreiros. Pode ser ainda evidência de simples marketing pessoal cínico, como é o caso de Delúbio Soares, o famoso tesoureiro que, em seu Twitter, se define como professor, sindicalista e… ambientalista!

É o que vemos, por exemplo, no grupo de indivíduos acampados há dias no Parque do Cocó, em Fortaleza, vivendo sabe-se lá do quê, dispostos a impedir a construção de dois viadutos cujas obras deverão derrubar 94 árvores.

Não há ninguém que negue a importância da preservação desse ecossistema, tanto que para qualquer intervenção no local, é preciso autorização de diversos órgãos de fiscalização e, ainda assim, as autoridades correm para mostrar ao público ações de compensação, como o plantio de novas mudas de vegetação nativa no Parque do Cocó. Sem dúvida, a destruição simples e irresponsável acarretaria prejuízos para a imagem da gestão, seria suicídio político.

Pegadinha sem graça

Nada disso interessa para a militância irracional, muito menos o fato de que seus líderes, quando estiveram no poder, nunca fizeram muito pela causa que agora lhes serve de religião. Muito mais fizeram os seus adversários, por isso mesmo acusados, na clássica inversão da história que caracteriza os movimentos autoritários, de serem os inimigos da natureza. É o pessoal que condena o agronegócio e depois reclama da alta no preço do feijão, pela diminuição da produção em larga escala, ou que detesta as montadores de automóveis, mas não dispensa um bom ar-condicionado em seus carros.

Os problemas ambientais existem e devem ser denunciados, claro. Existe também uma rígida legislação ambiental para servir de suporte para esses questionamentos. Por exemplo, os esgotos clandestinos que infectam o mar na Praia do Futuro. E aí, onde estão os ambientalistas? Não sei. Talvez a visibilidade no Cocó seja maior…

O movimento ambiental nasceu, não por acaso, nas sociedades mais industrializadas e escolarizadas, para buscar racionalidade na relação entre o consumo humano e a exploração da natureza, sem desconsiderar a importância das atividades produtivas. Transformá-lo em bandeira anticapitalista não passa de uma pegadinha. No mínimo.