Fortaleza Archives - Página 4 de 5 - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

Fortaleza

O secretariado de Roberto Cláudio: cadê a renovação?

Por Wanfil em Fortaleza

21 de dezembro de 2012

Alguns critérios de escolha para o novo secretariado não combinam com a mensagem de renovação defendida por Roberto Cláudio durante a campanha. Imagem: TV Jangadeiro / reprodução.

O prefeito eleito de Fortaleza Roberto Cláudio assumirá o comando do município a partir do dia 1º de janeiro de 2013. Entretanto, com a divulgação dos nomes do futuro secretariado, podemos dizer que ele fez sua estreia no Executivo, afinal, cada escolha pressupõe um método, uma visão de administrativa, política e moral dos fatos. É um cartão de visitas. E aí, infelizmente, a nova gestão começa mal.

Durante a campanha, a renovação do modo de fazer o governo deu o tom da comunicação   Acontece que, apesar da conversa de que o perfil da equipe é técnico, a lógica que sustenta as novas indicações não destoa daquela utilizada no governo Luizianne Lins: loteamento de espaços para aliados (por critérios exclusivamente políticos) e inchaço da máquina. Mudaram os nomes, mas a renovação em sentindo profundo parece que ainda não veio. Trata-se de mais do mesmo, com a esperança de que seja bem executado desta vez.

Para começo de conversa, Roberto Cláudio nomeou para a uma das pastas mais poderosas o próprio irmão, repetindo o governador Cid Gomes, seu padrinho político. Segundo o STF, a contratação de parente para “exercício de cargo eminentemente político” não configura nepotismo. Fica a dica para os demais prefeitos nomearem familiares: é só criar cargos eminentemente políticos. Não faço crítica ao irmão do prefeito. Pode até ser bom gestor, veremos, mas a questão é que a mensagem de austeridade fica comprometida. Empregar parentes é prática do Brasil atrasado, patrimonialista. A título de prevenção, convém ao gestor tornar sua administração algo impessoal. Renovar práticas políticas contratando parente é um retrocesso.

Depois, o anúncio de SETE novas secretarias. É impossível cortar despesas desnecessárias e reduzir gastos com contratações de terceirizados aumentando a máquina. Além disso, fica evidente que algumas pastas foram criadas apenas para abrigar companheiros políticos, como a indicação de Karlo Kardozo para a Secretaria de Cidadania e Direitos Humanos. Onde está o perfil técnico? Trata-se de um jurista? Não. Sua credencial é ser chefe do PSB local. Não se renova usando cargos públicos como prêmio a companheiros de partido.

Na Secretaria Extraordinária da Copa, o escolhido foi o deputado federal Domingos Neto, que tem no currículo o fato de ser filho do vice-governador Domingos Filho. É a renovação da cota do PMDB. Moeda de troca.

E o PCdoB? Usufruiu o quanto pode de cargos na gestão de Luizianne, rompeu na última hora para aderir à candidatura de Roberto Cláudio. Pelo feito, a sigla foi recompensada com a Habitafor para Eliana Gomes e a liderança na Câmara, com o neófito Evaldo Lima (que foi secretário de Esporte na gestão que termina). Renovar com políticos que aderem a qualquer governo é ilusão. 

Existem nomes sérios, claro, com bons currículos. Além disso, em muitas áreas, será difícil piorar a situação: a tendência é que o mínimo de trabalho apresente resultados. No entanto, a atual gestão também tinha nomes bons em algumas pastas e isso não bastou. Vamos torcer para dar certo, mas sem perder a capacidade de avaliar o que está no caminho certo e o que está no caminho errado. E dizer isso o quanto antes, não após quatro anos.

O novo governo busca abrigar o maior número de partidos e forças políticas, pois o prefeito é um conciliador por natureza. Mas até esse perfil precisa de limites, e o primeiro deveria ser não nomear parentes e apadrinhados, nem aceitar indicações políticas sem lastro técnico. Como demitir um secretário ruim se ele foi indicado pelo governador, é da família ou militante profissionais de partidos aliados? Mostrando desde o primeiro dia que assim será. Não seria fácil, mas certamente seria renovador.

Governar, em boa medida, é saber dizer não a aliados.

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Réveillon com dinheiro público é festa de desperdício e politicagem

Por Wanfil em Fortaleza

20 de dezembro de 2012

Festa é bom. Festa de graça, para muitos, é melhor ainda. Para um grupo seleto, festa paga com dinheiro público é supimpa. Já tive oportunidade de conversar, reservadamente, com procuradores, jornalistas e conselheiros dos tribunais de contas do estado e do município. Sempre que toquei nesse assunto, a conclusão foi a mesma: festa é escândalo. Festa de governo, via de regra, é politicagem barata.

Por conta do povo

Por que gostam tanto de festas? Porque é a modalidade preferida de superfaturamento nos dias atuais. Os festeiros profissionais da grana pública alegam que cachês de artistas não podem ser comparados uns com os outros, o que impossibilita contratação pelo expediente do menor preço. Como no Brasil dinheiro público é tratado como recurso infinito e sem dono, todos ficam felizes, enquanto uns poucos se locupletam.

E ainda assim, quando é tudo feito com rigor, é difícil aceitar certos gastos. Lembram do show de Plácido Domingo na inauguração do novo Centro de Convenções? Pois é. Não tivesse sido realizado, seriam 500 mil reais a mais para cuidar de problemas sérios.

No final, todo gestor quando indagado sobre a lisura ou a qualidade desses gastos, tem sempre a mesma resposta na ponta da língua: “A festa é da cidade e o povo merece”. Pronto. Quem pode ser contra a cidade e o povo? Só um reacionário elitista, diria a prefeita.

Sem festa, é mais economia ou menos dívidas

Por isso, comemorei quando soube que a prefeitura não realizará o réveillon de Fortaleza. É mais dinheiro no caixa para a próxima gestão. Ou menos dívida.

Ao cancelar a comemoração, Luizianne Lins desmonta seu principal argumento sacado para defender o evento. A suposta convicção de que sua realização seria uma forma de investimento no turismo. E ainda deixa no ar a impressão de ressentimento com o eleitorado, que assim seria punido. Mas Wanfil, e a festa da cidade? Ora, quem precisa de prefeitura para comemorar o réveillon? Ainda mais correndo o risco de ser vítima de arrastões? Se o trade turístico quer a festa, se lucra com ela, se precisa dela, que a faça. Que eu saiba, não há lei proibindo.

Novo modelo

Mas para a minha frustração, o governador Cid Gomes resolveu garantir a festa. Pelo menos, segundo o anunciado, algumas empresas irão patrocinar parte do evento. É uma forma menos danosa para os cofres públicos (as micaretas podem servir de modelo para o futuro). Assim, enquanto Luizianne Lins, que durante anos defendeu o réveillon pago pelo contribuinte, a peso de ouro, se despede melancolicamente da gestão, Cid marca pontos perante a população, sempre sequiosa de festejos. De qualquer forma, só com fogos serão 700 mil reais.

Essa presteza seria bem mais útil, a bem da verdade, na cobrança de resultados efetivos na área de segurança pública. Mas, nessa época do ano, quem liga?

PS. Quem for ao réveillon de Fortaleza, cuidado. Não leve muito dinheiro, nem use objetos valiosos. Aprendi isso assistindo a entrevistas de autoridades policiais. Sabem como é: para a bandidagem, dia de festa é uma ótima oportunidade de faturar algum…

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Se eu quisesse ser popular, seria populista, mas não consigo. Ou: Resposta aos críticos do reajuste das passagens de ônibus

Por Wanfil em Fortaleza

13 de dezembro de 2012

No Brasil, ser populista é ser amado.Todos estendem as mãos à espera de um benefício qualquer, sem se dar conta que pagam por eles.

Recebi algumas críticas sobre o texto em que afirmo que as passagens de ônibus em Fortaleza têm os preços manipulados artificialmente para garantir um discurso político à gestão que termina este ano. Em outras palavras, como os valores cobrados aos usuários não cobrem os custos do serviço, a diferença é coberta com dinheiro público, principalmente com a isenção fiscal do ICMS que incide sobre o diesel. Volto a abordar o tema, buscando compreender esse apego a tudo o que parece concessão, mas que muitas vezes é esperteza.

Populismo é pop

Os governos no Brasil têm essa mania de fazer caridade com o dinheiro alheio. No caso em questão, ficam felizes os passageiros, que pagam menos, e as empresas, que ganham antes de vender. O nome disso é populismo. E todos adoram.

O populismo fiscal e monetário está no DNA de quase todas as políticas ditas sociais e de desenvolvimento em vigor no país. Vai de programas como o Bolsa Família até os empréstimos bilionários do BNDES para alguns escolhidos. O brasileiro é estado-dependente, como ouvi de um amigo recentemente, sem distinção de classe.

No fundo, todos acham que ganham quando o governo é obrigado a arcar com uma ou outra despesa. Como governo não produz riqueza, o resultado é que temos que sustentá-lo com uma carga tributária obscena  na casa de 35% do PIB. Brasileiro é esperto. Aceita que 50% do preço de um sabonete seja tributo, para ter a autoridade de cobrar isenção fiscal para empresas de ônibus, garantindo assim o preço baixo das tarifas.

Pão e circo nunca é de graça

Se eu tivesse dito que a ideia de ajustar preços aos custos é um absurdo, que dinheiro público serve para corrigir injustiças, essas coisas, seria aplaudido por minha sensibilidade. Se eu “denunciasse” ainda que empresas de transporte querem mesmo é lucrar, aí seria ovacionado em desfile apoteótico. Mas eu não consigo. Chato e ranzinza, lembro que toda conta tem que fechar. Sem lucro, evidentemente, ninguém trabalha (você trabalharia?). Como recursos de outros impostos são direcionados para suprir essa premissa, o que parece barato, no final das contas, é caro. A conta não fecha.

Pessoalmente, não ganho nada com isso. Não tenho procuração para falar em nome de empresas ou sindicatos. Escrevo sobre o assunto porque o considero, tal como é posto, uma tapeação. Políticos é que sabem pedir dinheiro junto à empresas de transporte para fazer campanhas eleitorais. Populistas, que prometem pão e circo sem custo, enquanto tiram com uma mão o que dão com a outra. Esses são amados. Eu, com minha desconfiança crônica, não. Se ao menos eu nada dissesse… Mas como gosto da crítica, seria um péssimo populista. Diria sem pestanejar: Sabe o dinheiro que falta para prestar melhores serviços? Está ali, no preço baixo daquela tarifa!

Encerro com um trecho do famoso Juízo anatômico dos achaques que padecia o corpo da República em todos os membros, do poeta Gregório de Mattos, escrito ainda no século 17:

Valha-nos Deus, o que custa
 O que El-Rei nos dá de graça.

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PT apresenta denúncia contra PSB em Fortaleza: Só isso?

Por Wanfil em Fortaleza

23 de novembro de 2012

Elmano de Freitas, candidato derrotado, protocola denúncia contra Roberto Cláudio no TRE. Acusação tardia, frágil e superficial. Urgente mesmo é a transição que não anda… Foto: Omar Jacob / Jangadeiro

Se há algo que o PT de Fortaleza e a gestão de Luizianne Lins deveriam ter aprendido com a derrota nestas eleições é a importância do senso de urgência. Antes tarde do que nunca, não é verdade? Mas  não, parece que para ambos, partido e governo, tudo sempre pode esperar um pouco mais.

Vejam o caso das alardeadas denúncias de irregularidades feitas contra o candidato eleito Roberto Cláudio (PSB), anunciadas logo após a divulgação do resultado da disputa. Foram necessários 25 dias para que o PT apresentasse um primeiro questionamento na Justiça. O candidato petista Elmano de Freitas protocolou junto ao TRE pedido de investigação sobre uma suposta paralisação de várias unidades da equipe RAIO, grupo de elite do Pelotão de Motos da Polícia Militar do Estado do Ceará. Comprovado, imaginam os denunciantes, o fato provaria uso da máquina em favor de Roberto Cláudio.

Esse comportamento de quem imagina ter todo o tempo do mundo me faz lembrar do romance Oblómov, do russo Ivan Gontcharóv (1812-1891). De tanto viver com o rosto tomado pela “luz neutra da indiferença”, o personagem-título virou adjetivo: “oblomovismo”, sinônimo de inércia. Mais tarde volto a ele.

Só isso?

O clima de indignação dos derrotados, somados aos boatos de sempre e ao reconhecimento de que eleições no Brasil tem suas peculiaridades, criou alguma expectativa de que algo coisa mais sério poderia acontecer. O tempo passou e expectativa começou a se transformar em desconfiança. A primeira denúncia apenas reforça a sensação de que tudo não passa de choro de quem não sabe perder.

Qual seria a relação entre uma paralisação de veículo de um grupo cujo foco é o “combate ao porte ilegal de armas, o consumo e o tráfico de drogas em pontos de vendas nos bairros de Fortaleza”? A não ser que o número de eleitores traficantes e usuários que estivessem comercializando drogas no dia da eleição seja grande o bastante para mudar o resultado do pleito, o pedido não faz sentido.

Não satisfeitos com a demora em apresentar essa, vá lá, “denúncia”, a coligação comandada pelos petistas ainda avisa que está reunindo provas de outras irregularidades praticadas pelos apoiadores de Roberto Cláudio..

Os meios qualificam a oposição

A inércia do governo municipal custou-lhe o poder em Fortaleza e a aliança com o PSB. No livro que citei, a apatia de Oblómov contrasta com o estilo do seu adversário na trama, o empreendedor Stolz. Essa é a lição! Que a inércia de uns não atrapalhe a iniciativa de quem pode trabalhar.

Não faço aqui defesa de candidato algum, não é meu papel, e nem isento ninguém de nada. Apenas me atenho aos fatos. Se o PT tem algo de concreto, que o apresente já. Por que esperar? Ou tem ou não tem as provas alegadas. Se as tiver, a imprensa fará certamente o seu trabalho na apresentação delas ao público. Se não as tiver, que respeitem a decisão dos eleitores.

Nesse momento, quando Fortaleza carece de tantas ações e o Ceará vive uma seca de grandes proporções, é hora de fazer o melhor trabalho possível na transição para o novo governo. Problemas não faltarão para debater no futuro. No entanto, esse clima de denúncias forçadas e de ameaças sem efeito apenas conturba o processo político e administrativo. Na verdade, a impressão que fica é exatamente essa: o objetivo das acusações, até o momento frágeis e superficiais, é justamente o de atrapalhar. E isso não qualifica positivamente a oposição.

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PSB festeja vitória de Roberto Cláudio interditando via pública: Aos vencedores, as batatas

Por Wanfil em Fortaleza

06 de novembro de 2012

Festa da vitória no dia da vitória, como na foto acima, é compreensível. Depois disso, parece recado ou exagero… Sem contar o evento, privado, foi realizado em via pública interditada.

Uma grande festa na Avenida Sebastião de Abreu, bairro Cocó, em Fortaleza, foi realizada para comemorar a vitória do prefeito eleito Roberto Cláudio, do Partido Socialista Brasileiro. No local funcionou um dos comitês do candidato. No dia 28 de outubro, quando houve a eleição, uma festa da vitória já havia sido realizada no local. Algo, digamos, mais espontâneo.

A nova comemoração teve data marcada, com direito a intervenção da via desde o período da tarde e a mobilização de policiais. O evento reuniu diversas atrações musicais e humorísticas.

Ao vencedores, as batatas

Seria um despropósito criticar o ímpeto festivo de quem viveu uma disputa acirrada. No entanto, como em política, via de regra, os momentos que se seguem às vitórias servem para distensionar o ambiente, não seria inapropriado um pouco mais de comedimento para evitar uma possível impressão de provocação. Aliás, o problema é justamente esse, as mensagens implícitas nessa comemoração e sua natureza, digamos, dúbia. Uma vez no poder, tudo tem que ser calculado.

Antes de continuar, faço uma breve digressão que ao final se casa perfeitamente com a celebração dos socialistas. No romance Quincas Borbas, do grande Machado de Assis, o filósofo que dá nome à obra explica ao discípulo Rubião:

Uma das tribos extermina a outra e recolhe os despojos. Daí a alegria da vitória, os hinos, aclamações, recompensas públicas e todos os demais feitos das ações bélicas. Se a guerra não fosse isso, tais demonstrações não chegariam a dar-se, pelo motivo real de que o homem só comemora e ama o que lhe é aprazível ou vantajoso, e pelo motivo racional de que nenhuma pessoa canoniza uma ação que virtualmente a destrói. Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas.

Machado ironiza algumas correntes de pensamento, como a filosofia positivista e o darwnismo, com uma paródia: o humanitismo, doutrina fictícia que, apesar das belas palavras, professa a lei do mais forte. Trata-se, de fato, de uma denúncia também: para os homens, ou para a maioria, a vitória justifica tudo.

Festa privada em via pública

Encerrando essa divagação, fica a pergunta: O que isso tem a ver com a festa de Roberto Cláudio? Ora, muito, quiçá tudo. A candidatura da “renovação”, vitoriosa em sua batalha, celebra o feito ocupando uma movimentada via pública, em dia útil, a despeito dos que a usam diariamente e dos que não desejavam participar do evento que, ao fim, foi particular. Onde está o interesse público aí?

Com efeito, a festa, assim realizada, acaba por projetar sobre os vencedores a sombra de um velho vício que não combina com a mensagem de mudança da campanha eleitoral: o patrimonialismo, a tradicional confusão entre público e privado. Por que não alugaram um clube ou algo semelhante? Ou por que não escolheram um lugar aberto, como o Aterro ou o parque do Cocó? A resposta, infelizmente, é simples. Para os vencedores que ali festejavam, nada há de errado em usar o que agora, em seu entendimento torto, lhes pertence.

Cuidado, prefeito

Encerro com outra passagem de Quincas Borbas, defendendo o ideário pelo qual aos triunfantes tudo é permitido.

– Desaparece o fenômeno; a substância é a mesma. Nunca viste ferver água? Hás de lembrar-te que as bolhas fazem-se e desfazem-se de contínuo, e tudo fica na mesma água. Os indivíduos são essas bolhas transitórias.

As bolhas são os fortalezenses. O episódio deve servir de alerta ao prefeito eleito, reconhecido por ser pessoa sensata. Cuidado prefeito com a euforia dos que lhes cercam. O tempo de promessas passou. Agora, cada ato, cada gesto e cada palavra, tudo lhe será cobrado.

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Quem disse que a maioria escolheu o novo prefeito de Fortaleza?

Por Wanfil em Eleições 2012, Fortaleza

29 de outubro de 2012

Votos nulos, brancos e abstenções são desconsideradas pela justiça eleitoral. É que só assim, em muitos casos, o vencedor consegue “maioria”. É o jeitinho brasileiro no exercício da democracia.

Quando acaba a apuração de uma eleição, agora no curto espaço de algumas poucas horas, uma questão interessante termina sendo pouco debatida: a natureza dos percentuais anunciados. É que os números divulgados pela justiça eleitoral levam em consideração somente os votos válidos, ou seja, desconsideram, para efeito de resultado final, as abstenções, os votos brancos e os nulos. E porque isso é interessante? Com efeito, não muda nada a definição de vencedores e perdedores que disputaram o pleito em Fortaleza, mas ajuda a dimensionar de forma mais precisa o tamanho da vitória do PSB e da derrota do PT.

Essa regra dos votos válidos tem por objetivo atender a uma exigência legal. Será considerado vencedor no segundo turno o candidato que obtiver 50% dos votos mais um. Se, hipoteticamente, cada candidato conseguisse apenas 40% dos votos, ninguém poderia ser declarado eleito. Daí a regra dos votos válidos, para poder conferir, de todo o jeito, maioria ao vencedor, mesmo que ela não exista na prática.

Por isso, cuidado ao ouvir algum candidato se gabando de ter sido eleito pela vontade da maioria, como fazia o ex-presidente Collor de Mello. Nem sempre é assim.

 Números reais da eleição em Fortaleza

Em Fortaleza, 268.138 pessoas se abstiveram de votar, o que corresponde a 16,6% de um total de 1.612.155 de eleitores, conforme dados do Tribunal Superior Eleitoral. Levando em consideração que 33.782 votaram em branco e 83.193 anularam o sufrágio, a soma de pessoas que não optaram por nenhum dos candidatos foi de 385.113, ou 23,9% dos eleitores. Esse grupo é desconsiderado para a promulgação do resultado. No entanto, se fossem computados, os percentuais seriam outros.

Assim, para ser fiel aos fatos, a escolha do prefeito de Fortaleza se restringiu a 76,1% do eleitorado, apesar da obrigatoriedade do voto no Brasil.

Pelo Tribunal Superior Eleitoral, Roberto Cláudio (PSB) venceu com 53,02% dos votos válidos. No entanto, comparando seus 650.607 votos com o universo total de eleitores habilitados – válidos e não válidos -, seu índice na verdade foi de 40,35%.

Pela mesma lógica, Elmano de Freitas (PT), que teve 46,98% dos votos válidos, conseguiu 35,75% do total, perfazendo 576.435 eleitores.

Quadro final considerando todos os eleitores aptos a votar

Roberto Cláudio – 40,35%

Elmano de Freitas – 35,75%

Nenhum – 23,9%

Legitimidade assegurada

Naturalmente, isso não desqualifica o processo eleitoral ou a vitória do candidato Roberto Cláudio, nem absolve os derrotados. São as regras do jogo, previamente definidas e válidas para todos. É apenas uma constatação empírica, sem recados embutidos nas entrelinhas, a não ser a evidência de que um quarto do eleitorado não votou em ninguém, trazendo à tona a discussão sobre a necessidade ou não do voto obrigatório.

De resto, é fato que não houve maioria formada em Fortaleza, mas isso não significa rejeição absoluta ao vencedor. Os dados podem indicar, por exemplo, desaprovação aos padrinhos políticos ou aos partidos dos candidatos. Ou desânimo do eleitor com o quadro geral do momento. É verdade que vitórias retumbantes fortalecem os eleitos, dando-lhes melhores condições para negociar a composição do futuro governo, mas cada caso é um caso. Dilma Rousseff, por exemplo, terminou o primeiro ano de governo com mais popularidade do que quando foi eleita, o que lhe conferiu mais autoridade para promover algumas mudanças em ministérios.

Doravante, para Roberto Cláudio, tudo dependerá do desempenho da gestão e da eficiência na comunicação.

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Cid e Luizianne sobem o tom e roubam a cena na reta final da campanha

Por Wanfil em Eleições 2012, Fortaleza

22 de outubro de 2012

Foto da campanha de 2008: Unidos por interesses circunstanciais, Cid e Luizianne dividiam o mesmo palanque. De repente, na eleição seguinte, do riso fez-se o pranto…

A aliança entre o governador Cid Gomes se desfez formalmente às vésperas das eleições municipais. Na prática, foi de altos e baixos, mas sempre reafirmada em períodos eleitorais. Da união instável mas vitoriosa na urnas, restou, ironicamente, duas candidaturas adversárias: Roberto Cláudio a representá-lo e Elmano de Freitas a representá-la.

No primeiro momento, uma gélida distância sugeria que os dois não interfeririam demasiadamente no processo. No entanto, o calor da disputa no 2º turno em Fortaleza fez emergir no noticiário ressentimentos guardados e um indisfarçável desejo de vencer o antigo parceiro.

Em entrevista coletiva concedida nesta segunda-feira em que anunciou pedido de licença do cargo para entrar de vez na campanha, Cid afirmou que Luizianne é personalista, vaidosa, arrogante e emendou dizendo que a prefeita não gosta de trabalhar. No mesmo dia ela respondeu em outra entrevista acusando-o de desrespeitar os cearenses que sofrem com a estiagem, de ser preconceituoso, de estar desesperado por causa das eleições e de confundir Fortaleza com Sobral.

Quem haverá de dizer que eles estão errados? Afinal, dado o histórico, os dois se conhecem intimamente enquanto líderes políticos e administradores públicos. Foram sócios para o bem e para o mal. E por último, em que tais declarações ajudariam seus respectivos candidatos? A meu ver, essas demonstrações mais atrapalham.

Revelações

A decisão de Cid e as alfinetadas recíprocas entre os ex-aliados acabam por revelar alguns pontos interessantes que etavam adormecidos, guardados numa camada mais interna da política, encoberta pela camada superficial das propagandas eleitorais. Ressalto dois:

1) O que todos já sabiam ganhou contorno público: esta eleição é uma disputa entre Luizianne e Cid, cabendo aos candidatos Elmano de Freitas e Roberto Cláudio o papel de prepostos sem luz própria, cabendo-lhes apenas refletir a liderança projetada por seus padrinho e madrinha;

2) A aliança entre PSB e PT se desfez em função de sua única e verdadeira razão de existir: as conveniências eleitorais do momento. Se alguém votou em algum candidato majoritário dessas siglas apostando no discurso de convergência de projetos, resta provado ter sido enganado.

Incoerências

Outro ponto intrigante da ruptura entre os ex-aliados de outrora é a falta de um mea culpa. Os dois querem passar a impressão de que estavam certos no passado quando trocavam juras de apoio um ao outro e também agora quando a renegam.

Como Cid pode pedir voto para um candidato dizendo que ele é a melhor opção ao mesmo tempo em que diz que a última candidata para quem pediu votos não presta mais?

Como pode Luizianne, por sua vez, dizer que Cid não apoia bons candidatos se ela fez questão de apresentá-lo como um de seus fiadores em sua campanha a reeleição?

Metáfora

Diante desse caminho que vai da exaltação ao rompimento e depois à intriga, lembrei-me do famoso Soneto de Separação, de Vinícius de Moraes. São versos de amor, claro, mas a correlação que faço nasce da natureza fugaz de certos relacionamentos. Descontados os exageros, serve como metáfora para um processo que nasceu fadado ao fracasso.

SONETO DA SEPARAÇÃO

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

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O pragmatismo político e a moral individual

Por Wanfil em Fortaleza, Ideologia

17 de outubro de 2012

Qual o melhor caminho a seguir? – Imagem: internet

O ex-secretário do Esporte e Lazer da Prefeitura Municipal de Fortaleza, Evaldo Lima, confirmou que seguirá determinação do Partido Comunista do Brasil e apoiará a candidatura de Roberto Cláudio (PSB) para prefeito. Tudo normal, não fosse o fato de que o professor de História obteve êxito em sua canidatura a vereador nessas eleições, em grande medida, por ter ocupado cargo de confiança na atual gestão.

E o que isso tem a ver? Ora, tudo. Maluf e Lula se aliaram em São Paulo. Até pouco tempo atrás cada um garantia que o outro não prestava. É o que se convencionou chamar de pragmatismo político. A depender da vantagem, as posições no jogo eleitoral variam de eleição para eleição. Essa “profissionalização” da política também pode ser vista como insrumento de governabilidade. É só ver o que aconteceu no mensalão. José Dirceu não precisava ser companheiro de Roberto Jéfferson, bastava-lhe comprar os votos do PTB. Deu no que deu.

Dilemas e sensibilidade

O caso de Evaldo não chega a limites extremos, e por isso é perfeito como amostra das contradições que a dinâmica política pode impôr aos seus atores. O que escolher nessa hora? Ser leal ao partido ou ao governo a qual serviu? Ser grato à prefeita que o ajudou após a derrota na eleição anterior ou aos líderes da sigla que o trabalharam sua indicação ao posto que o projetou? Seria ainda possível agradar os dois lados simultaneamente, aderindo à determinação do partido e guardando discrição em respeito aos antigos aliados? Difícil responder.

São situações especialmente intensas, sobretudo para os que não estão acostumados a ter que tomar decisões urgentes pressionados pelo choque de inúmeros interesses. Para o político profissional, entretanto, isso é rotina. Assim como cadáveres não assustam legistas e coveiros, ou o lixo não causa repugnância aos lixeiros, políticos acabam perdendo, uns mais ou outros menos, a sensibilidade para perceber as nuances entre o certo e o errado. Por isso mesmo a coerência é produto raro e valiosíssimo nesse mundo.

Não é possível afirmar se Evaldo e tantos outros agiram guiados pelo instinto de sobrevivência política celebrado por Nicolau Maquiavel ou por profundas crenças de base moral. Isso é com a consciência de cada um, atributo individual e instransferível. De qualquer forma, asistimos, especialmente no segundo turno, essas adesões e alianças que deixam a impressão de que há mais mistérios nos bastidores das eleições do que supõe nossa vã filosofia.

Renovar, mas nem tanto

Além do dilema ético-moral, o episódio guarda ainda uma questão de lógica elementar. Como a campanha do PSB sustenta que é preciso renovar para que a administração possa melhorar, impondo como condição para isso a derrota do PT, Evaldo e o seu PCdoB mudam de lado após oito anos para… atenção… renovar! Fica evidente que se trata de uma renovação de comando com a manutenção de comandados, com os agrados de sempre.

Não deixa de ser, digamos assim, uma forma de convicção formada ao sabor das circunstâncias.

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Fortaleza aparece entre as capitais menos endividadas do país: rigor fiscal ou falta de projetos?

Por Wanfil em Fortaleza, Noticiário

01 de setembro de 2012

Quem me acompanha sabe que os meus artigos sempre estiveram entre os mais críticos em relação a gestão da prefeita de Fortaleza, Luizianne Lins. No entanto, quando alguma realização merece reconhecimento, anoto por questão de justiça, sem receio de patrulhamento contra ou a favor. Análises devem se abster das questões pessoais. A crítica não deve ser confundida com campanha sistática contra alguém, assim como o elogio eventual não significa adesão incondicional a algo. De toda ação entendida como positiva ou negativa, podemos fazer reflexões construtivas. Dito isso, vamos ao que interessa.

Matéria da Folha de São Paulo deste sábado sobre o endividamento da capitais brasileiras mostra que Fortaleza tem um dos melhores quadros nessa área. Enquanto São Paulo possui uma dívida que chega a 200% de sua receita anual, Fortaleza aparece com uma dívida que corresponde a apenas 0,5% do que sua prefeitura arrecada. Menos do que Salvador, com 51,2%; Belo Horizonte, que chega a 33%; e Curitiba, com 3,3%.

Antes de comemorar, porém, é preciso avaliar algumas considerações. Primeiro, do ponto de vista político na forma de montar a equipe de uma administração; segundo, das causas para esse baixo endividamento.

Indicações técnicas X indicações politiqueiras

A Secretaria das Finanças está sob o comando do economista Alexandre Cialdini, técnico com experiência em gestão pública e que não é candidato a nada, o que reduz as chances de uso político da máquina . Políticos de carreira, aspirantes ou técnicos indicados por políticos, costumam a trabalhar para seus padrinhos e seus partidos, cedendo a pressões indevidas, alimentando relações de apoio eleitoral e financeiro, e por fim deixando a população em segundo plano. Acabam transformando os órgãos onde atuam em meros trampolins para postulações de aspirantes a prefeito ou vereador.

Que fique a lição para o próximo prefeito. Entre perder um amigo ou um aliado circunstancial e fazer uma indicação correta, fique com a segunda opção, a única que gera resultados para a cidade.

Rigor fiscal ou falta de crédito?

Ao saber da notícia, um leitor amigo fez a indagação fundamental pelo Twitter: “Isso é bom ou ruim?” Para em seguida responder: “Nesse caso o baixo endividamento é ruim, mostra a inabilidade gerar projetos credíveis, no sentido político e financeiro.” O alerta é pertinente. Nem todo endividamento significa inadimplência ou crise, pelo contrário. Ter crédito e usá-lo de forma responsável é condição indispensável para realizar obras. Leia mais

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Fortaleza no Spaece-Alfa: o bê a bá de um fracasso na educação

Por Wanfil em Fortaleza

22 de Maio de 2012

O resultado do exame Space-Alfa contrasta com a propaganda oficial da Prefeitura de Fortaleza: ilusão não gera resultado. Imagens: Youtube

Fortaleza ficou em penúltimo lugar no exame Spaece-Alfa, o ranking da educação no Ceará, elaborado pela secretaria estadual de Educação e divulgado na segunda-feira (21). Alunos da rede pública de 183 municípios conseguiram melhores resultados nas provas de proficiência que os alunos da capital.

Nos próximos dias, certamente, técnicos e especialistas em educação irão debater os números do levantamento. No campo político, a prefeita Luizianne Lins e o secretário de Educação, Elmano de Freitas, reagiram no mesmo dia da divulgação da pesquisa.

Justificativas

Luizianne sugeriu que a metodologia aplicada no exame seria inadequada para comparar redes de ensino grandes com outras pequenas. A queixa pode ter a sua razão de ser, mas é preciso que a prefeitura prove isso, que mostre em que ponto exato uma possível distorção poderia ter acontecido. Sem isso, o argumento vira bravata.

Já Elmano – pré-candidato do PT para as eleições de outubro em Fortaleza – afirmou que o Spaece, na verdade, comprova que as coisas estão melhorando “significativamente”. O secretário afirma que a capital saltou de 14 escolas com nível desejado em 2003 para 55 em 2011, perfazendo um ritmo nada impressionante de cinco escolas melhorando por ano.

Realidades comparadas

O mérito do Spaece está justamente na comparação entre municípios. O argumento da prefeita não leva em consideração que os recursos das grandes cidades são maiores e o de Elmano peca ao não reconhecer que o problema não está em 2003, mas no presente em que todas as demais cidades do Ceará conseguiram melhorar mais suas notas do que Fortaleza.

De pouco adianta comparar uma realidade somente com ela mesma. É preciso confrontá-la com outras realidades. Uma empresa pode até aumentar suas vendas em relação ao ano anterior, mas se as concorrentes principais tiverem crescido muito mais, avançando sobre o mercado, o sucesso desta empresa será ilusório. Se não quiser ver isso, ela fatalmente quebrará em pouco tempo.

Autismo

Esse autismo analítico é uma praga generalizada na administração pública nacional. No Ceará comemoramos crescimento atrás de crescimento, ignorando alegremente que, por algum motivo, o vizinho Pernambuco cresce muito mais. No Brasil é a mesma coisa. Temos a impressão de experimentar um salto na educação, mas ficamos no 57º lugar entre os 65 participantes do último PISA, o exame de qualidade educacional mais respeitado do mundo. Triste desempenho.

A educação é ponto fraco na atual gestão de Fortaleza, segundo indica o Spaece. E vem piorando. No último ano de mandado, quaisquer que sejam as causas do problema, não há mais tempo para saná-lo. A próxima gestão deverá avaliar criteriosamente essa realidade. Quais regionais têm pior desempenho? Caso existem, quais metas não foram batidas? Como replicar os casos de sucesso? Qual o impacto do crescimento populacional no repasse de recursos a longo prazo? Quem são os melhores gestores para liderar um processo de recuperação?

De tudo isso, fica uma lição: dar uniforme de graça pode até alegrar os pais eleitores, mas não ensina o bê a bá para as crianças. Um desastre que será sentido adiante, quando necessitarmos de mão de obra qualificada para atrair investimentos.

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Fortaleza no Spaece-Alfa: o bê a bá de um fracasso na educação

Por Wanfil em Fortaleza

22 de Maio de 2012

O resultado do exame Space-Alfa contrasta com a propaganda oficial da Prefeitura de Fortaleza: ilusão não gera resultado. Imagens: Youtube

Fortaleza ficou em penúltimo lugar no exame Spaece-Alfa, o ranking da educação no Ceará, elaborado pela secretaria estadual de Educação e divulgado na segunda-feira (21). Alunos da rede pública de 183 municípios conseguiram melhores resultados nas provas de proficiência que os alunos da capital.

Nos próximos dias, certamente, técnicos e especialistas em educação irão debater os números do levantamento. No campo político, a prefeita Luizianne Lins e o secretário de Educação, Elmano de Freitas, reagiram no mesmo dia da divulgação da pesquisa.

Justificativas

Luizianne sugeriu que a metodologia aplicada no exame seria inadequada para comparar redes de ensino grandes com outras pequenas. A queixa pode ter a sua razão de ser, mas é preciso que a prefeitura prove isso, que mostre em que ponto exato uma possível distorção poderia ter acontecido. Sem isso, o argumento vira bravata.

Já Elmano – pré-candidato do PT para as eleições de outubro em Fortaleza – afirmou que o Spaece, na verdade, comprova que as coisas estão melhorando “significativamente”. O secretário afirma que a capital saltou de 14 escolas com nível desejado em 2003 para 55 em 2011, perfazendo um ritmo nada impressionante de cinco escolas melhorando por ano.

Realidades comparadas

O mérito do Spaece está justamente na comparação entre municípios. O argumento da prefeita não leva em consideração que os recursos das grandes cidades são maiores e o de Elmano peca ao não reconhecer que o problema não está em 2003, mas no presente em que todas as demais cidades do Ceará conseguiram melhorar mais suas notas do que Fortaleza.

De pouco adianta comparar uma realidade somente com ela mesma. É preciso confrontá-la com outras realidades. Uma empresa pode até aumentar suas vendas em relação ao ano anterior, mas se as concorrentes principais tiverem crescido muito mais, avançando sobre o mercado, o sucesso desta empresa será ilusório. Se não quiser ver isso, ela fatalmente quebrará em pouco tempo.

Autismo

Esse autismo analítico é uma praga generalizada na administração pública nacional. No Ceará comemoramos crescimento atrás de crescimento, ignorando alegremente que, por algum motivo, o vizinho Pernambuco cresce muito mais. No Brasil é a mesma coisa. Temos a impressão de experimentar um salto na educação, mas ficamos no 57º lugar entre os 65 participantes do último PISA, o exame de qualidade educacional mais respeitado do mundo. Triste desempenho.

A educação é ponto fraco na atual gestão de Fortaleza, segundo indica o Spaece. E vem piorando. No último ano de mandado, quaisquer que sejam as causas do problema, não há mais tempo para saná-lo. A próxima gestão deverá avaliar criteriosamente essa realidade. Quais regionais têm pior desempenho? Caso existem, quais metas não foram batidas? Como replicar os casos de sucesso? Qual o impacto do crescimento populacional no repasse de recursos a longo prazo? Quem são os melhores gestores para liderar um processo de recuperação?

De tudo isso, fica uma lição: dar uniforme de graça pode até alegrar os pais eleitores, mas não ensina o bê a bá para as crianças. Um desastre que será sentido adiante, quando necessitarmos de mão de obra qualificada para atrair investimentos.