É hora de resgatar o espírito inovador de Fortaleza - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

É hora de resgatar o espírito inovador de Fortaleza

Por Wanfil em História

13 de Abril de 2012

Fortaleza em 1935 (Rua Floriano Peixoto): Arquitetura imponente, vias limpas e bem desenhadas, bondes e fios. A cidade exalava modernidade e organização, fruto de um espírito inovador.

Em visita a Fortaleza durante uma expedição científica pelo Brasil, o casal Louis e Elizabeth Agassiz relatou da seguinte forma a cidade: “Sente-se aqui movimento, vida e prosperidade”. Isso foi em 1866, conforme registro da Revista do Instituto Histórico do Ceará.

O olhar estrangeiro reconheceu na capital cearense um ambiente criativo e salutar justamente no momento em que Fortaleza se transforma num dos principais centros urbanos do país, com o crescimento das exportações de algodão. Nesses 286 anos de vida, podemos dizer que a década de 60 do século XIX foi o ponto de afirmação de um estado de espírito que marcou Fortaleza e o Ceará: uma inquietude alegre, o anseio de ser moderno, não apenas fisicamente, mas um centro de efervescência política e intelectual.

Nesse período, figuras proeminentes se destacavam nacionalmente em diversas áreas. Na política, o Partido Liberal foi conduzido por nomes como Martiniano de Alencar, Thomaz Pompeu (o futuro senador Pompeu), Nogueira Accioly e Vicente Alves de Paula Pessoa. Já o Partido Conservador contava com líderes como Antônio Rodrigues Ferreira (o boticário que deu nome à Praça do Ferreira), o senador Fernandes Vieira e os barões de Ibiapaba e Aquiraz.

A cidade também era retratada, com críticas e elogios, em artigos e obras literárias de Oliveira Paiva, José de Alencar, Adolfo Caminha e Antônio Sales, que abordavam temas como urbanização, modernidade, filosofia, moda e comportamento. A pujança criativa culminou na criação da Padaria Espiritual em 1892, movimento literário que antecipou diversos pontos da Semana de Arte Moderna, de 1922.

A imprensa igualmente fazia refletir essa multiplicidade de posições, com publicações de linha editorial conflitantes. Circulavam na época seis jornais em Fortaleza, como os diários Pedro II e Constituição (conservadores), opostos do Cearense e do Jornal de Fortaleza (liberais), além do jornal maçom Fraternidade, de 1873.

Não quero aqui afirmar que a moral política ou o tônus intelectual fossem mais elevados no passado e que tenham se deteriorado com o tempo. Não. Digo apenas que em Fortaleza as discussões de interesse coletivo ensejavam o envolvimento de cidadãos e personalidades marcantes, desde estudante de origem humilde a líderes de segmentos diversos. A cidade cresceu sob o signo dessas disputas que, nos dias de hoje, arrefeceram, causando certa anemia política e paralisia administrativa.

Os grupos políticos da atualidade não divergem nem convergem claramente sobre assuntos pertinentes, são tímidos na apresentação de soluções e caminhos, mas agressivos na exploração de velhos vícios. Tudo ficou pasteurizado pelos ditames das propagandas políticas, pelos chavões politicamente corretos, dos jeitinhos espertos, e o pior, por uma tendência bem brasileira, muito bem anotada pelo historiador Paulo Mercadante, de deixar as diferenças de lado para dividir o poder entre amigos.

Essa tradição ainda podia ser notada na década de 90 do século XX, quando Fortaleza era palco de uma disputa entre o PMDB de Juraci Magalhães e o PSDB de Tasso e (na época) Ciro. Foi um período de grandes obras, ações de pavimentação e remodelação do transporte público, que serviu de base para um debate sobre o tipo de desenvolvimento que a capital cearense precisava.

Nos dias de hoje, as discussões se resumem às disputas de aliados políticos em busca de verbas e cargos, a Câmara Municipal é composta, em sua maioria, de desconhecidos sem trabalhos significativos para a cidade, a Prefeitura, submissa aos caprichos de partidos políticos e às outras esferas de poder, onde tudo é decidido por um clube de parceiros que se protegem mutuamente de críticas públicas. Líderes políticos debatem se obras simples devem ter prazo de entrega, se festas com artistas famosos constituem prioridade na agenda da cidade, ou se a chuva no semi-árido, em vez de benção, é uma desgraça que impede a concretização de promessas.

Nesse aniversário de 286 anos, meu desejo é que a vida e o movimento relatado pelo casal Agassiz ainda no século XIX, qualidades que emanam dos fortalezenses e moldam a cidade, sejam resgatadas, que o desejo de prosperidade, que a vontade de participar e de apontar caminhos, que a capacidade de inovar e que o orgulho de viver em uma cidade moderna, de futuro, seja recuperado, para Fortaleza brilhar como referência nacional de prosperidade, harmonia e organização.

(Fonte: CORDEIROCeleste. O Ceará na Segunda metade do século XIX. Fortaleza: Edições Demócrito Rocha, 2000).

Artigo que fiz para o especial Jangadeiro Online por ocasião do aniversário de Fortaleza.

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É hora de resgatar o espírito inovador de Fortaleza

Por Wanfil em História

13 de Abril de 2012

Fortaleza em 1935 (Rua Floriano Peixoto): Arquitetura imponente, vias limpas e bem desenhadas, bondes e fios. A cidade exalava modernidade e organização, fruto de um espírito inovador.

Em visita a Fortaleza durante uma expedição científica pelo Brasil, o casal Louis e Elizabeth Agassiz relatou da seguinte forma a cidade: “Sente-se aqui movimento, vida e prosperidade”. Isso foi em 1866, conforme registro da Revista do Instituto Histórico do Ceará.

O olhar estrangeiro reconheceu na capital cearense um ambiente criativo e salutar justamente no momento em que Fortaleza se transforma num dos principais centros urbanos do país, com o crescimento das exportações de algodão. Nesses 286 anos de vida, podemos dizer que a década de 60 do século XIX foi o ponto de afirmação de um estado de espírito que marcou Fortaleza e o Ceará: uma inquietude alegre, o anseio de ser moderno, não apenas fisicamente, mas um centro de efervescência política e intelectual.

Nesse período, figuras proeminentes se destacavam nacionalmente em diversas áreas. Na política, o Partido Liberal foi conduzido por nomes como Martiniano de Alencar, Thomaz Pompeu (o futuro senador Pompeu), Nogueira Accioly e Vicente Alves de Paula Pessoa. Já o Partido Conservador contava com líderes como Antônio Rodrigues Ferreira (o boticário que deu nome à Praça do Ferreira), o senador Fernandes Vieira e os barões de Ibiapaba e Aquiraz.

A cidade também era retratada, com críticas e elogios, em artigos e obras literárias de Oliveira Paiva, José de Alencar, Adolfo Caminha e Antônio Sales, que abordavam temas como urbanização, modernidade, filosofia, moda e comportamento. A pujança criativa culminou na criação da Padaria Espiritual em 1892, movimento literário que antecipou diversos pontos da Semana de Arte Moderna, de 1922.

A imprensa igualmente fazia refletir essa multiplicidade de posições, com publicações de linha editorial conflitantes. Circulavam na época seis jornais em Fortaleza, como os diários Pedro II e Constituição (conservadores), opostos do Cearense e do Jornal de Fortaleza (liberais), além do jornal maçom Fraternidade, de 1873.

Não quero aqui afirmar que a moral política ou o tônus intelectual fossem mais elevados no passado e que tenham se deteriorado com o tempo. Não. Digo apenas que em Fortaleza as discussões de interesse coletivo ensejavam o envolvimento de cidadãos e personalidades marcantes, desde estudante de origem humilde a líderes de segmentos diversos. A cidade cresceu sob o signo dessas disputas que, nos dias de hoje, arrefeceram, causando certa anemia política e paralisia administrativa.

Os grupos políticos da atualidade não divergem nem convergem claramente sobre assuntos pertinentes, são tímidos na apresentação de soluções e caminhos, mas agressivos na exploração de velhos vícios. Tudo ficou pasteurizado pelos ditames das propagandas políticas, pelos chavões politicamente corretos, dos jeitinhos espertos, e o pior, por uma tendência bem brasileira, muito bem anotada pelo historiador Paulo Mercadante, de deixar as diferenças de lado para dividir o poder entre amigos.

Essa tradição ainda podia ser notada na década de 90 do século XX, quando Fortaleza era palco de uma disputa entre o PMDB de Juraci Magalhães e o PSDB de Tasso e (na época) Ciro. Foi um período de grandes obras, ações de pavimentação e remodelação do transporte público, que serviu de base para um debate sobre o tipo de desenvolvimento que a capital cearense precisava.

Nos dias de hoje, as discussões se resumem às disputas de aliados políticos em busca de verbas e cargos, a Câmara Municipal é composta, em sua maioria, de desconhecidos sem trabalhos significativos para a cidade, a Prefeitura, submissa aos caprichos de partidos políticos e às outras esferas de poder, onde tudo é decidido por um clube de parceiros que se protegem mutuamente de críticas públicas. Líderes políticos debatem se obras simples devem ter prazo de entrega, se festas com artistas famosos constituem prioridade na agenda da cidade, ou se a chuva no semi-árido, em vez de benção, é uma desgraça que impede a concretização de promessas.

Nesse aniversário de 286 anos, meu desejo é que a vida e o movimento relatado pelo casal Agassiz ainda no século XIX, qualidades que emanam dos fortalezenses e moldam a cidade, sejam resgatadas, que o desejo de prosperidade, que a vontade de participar e de apontar caminhos, que a capacidade de inovar e que o orgulho de viver em uma cidade moderna, de futuro, seja recuperado, para Fortaleza brilhar como referência nacional de prosperidade, harmonia e organização.

(Fonte: CORDEIROCeleste. O Ceará na Segunda metade do século XIX. Fortaleza: Edições Demócrito Rocha, 2000).

Artigo que fiz para o especial Jangadeiro Online por ocasião do aniversário de Fortaleza.