Política Archives - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

Política

Nos perdoe, São Francisco

Por Wanfil em Política

26 de junho de 2020

São Francisco de Assis, o homem que abdicou das riquezes materias por uma vida de simplicidade, não merecia virar nome de obra pública no Brasil. Especialmente um grande empreendimento de infraestrutura. Basta ver a transposição do Rio São Francisco.

Placa de obra com o nome de São Francisco. Foto: ALCE/divulgação. Arte: Wanfil

Após 12 anos de espera – sete dos quais, de ATRASO – as águas do São Francisco chegam ao Ceará. Foram quatro presidentes da República: Lula, Dilma, Temer e Bolsonaro. Como toda obra demorada, todos procuram ressaltar sua participação no empreendimento, mas ninguém jamais assume responsabilidade (nem pede desculpa) pelos atrasos e pelo brutal encarecimento do projeto, que custou quase R$ 11 bilhões aos brasileiros, mais que o dobro da previsão inicial.

Os governos petistas imaginaram, lá atrás, que teriam tempo de sobra, com seus, digamos, parceiros, para concluir a transposição. Temer correu para aparecer na foto, mas seu mandato foi curto. E como um dia a obra teria que finalmente acabar, coincidiu de ser agora, com Bolsonaro, em meio à pandemia.

Aliás, por falar nisso, o governador Camilo Santana informou, no próprio dia da inauguração, que devido à preocupação com a pandemia não iria ao evento com o presidente, que faz sua primeira visita oficial ao Ceará. É justo, mas Por outro lado, parece que o cerimonial da Presidência contatou oficialmente as autoridades locais – que souberam da inauguração pela imprensa – em cima da hora. Tudo muito estranho.

Não é o clima ideal para o governo estadual e o federal decidirem como os custos de operação e manutenção da obra serão divididos. Parece que nesses longos doze anos, ninguém pensou nisso, embora o Centrão que apoiou Lula, Dilma, Temer e que agora apoia Bolsonaro, seja o mesmo. É que no Brasil, o “pois é dando que se recebe” da linda Oração de São Francisco ganhou um sentido muito particular e invertido, quanto o assunto é obra pública.

Sorte nossa que Francisco é Santo e por isso mesmo não haverá de guardar mágoa.

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As marchas dos insensatos no Ceará: protestos diferentes, mas iguais

Por Wanfil em Política

08 de junho de 2020

A Parábola dos Cegos, de Pieter Bruegel. Metáfora ideal para os protestos em meio à pandemia

Motivos para protestar, no Brasil e no mundo, não faltam. Aliás, o fenômeno dos protestos após a massificação da internet tem algumas características intrigantes: a descentralização, as causas que se misturam, a eventual violência de grupos radicais e confrontos com tropas de choque, o repúdio aos partidos políticos (que tentam pegar carona de longe – ou sem mostrar as bandeiras, disfarçados – nesses movimentos), a ampla cobertura… Mas isso fica para outro post. Agora o que interessa aqui é observar os mais recentes protestos ocorridos em Fortaleza.

Em plena pandemia do coronavírus, que já causou 4 mil mortes no Ceará, pequenos grupos de militantes políticos na capital promovem manifestações contra ou a favor do governo Jair Bolsonaro em Fortaleza, indiferentes aos cuidados com a saúde pública.

Os dois lados se colocam igualmente no papel de inocentes vítimas da suposta truculência da Polícia Militar, como se a dispersão de tais aglomerações não fosse algo previsível e esperado, uma obrigação mesmo do poder público. Na verdade, esses grupos contam exatamente com isso (e com a prisão de um ou outro participante) para choramingar seus discursos e agitar simpatizantes nas redes sociais.

E assim, bolsonaristas acusam Camilo Santana de ser autoritário, apresentando-se como defensores das liberdades individuais e dos mais pobres (principais vítimas da crise econômica); enquanto esquerdistas acusam o governador de ser conivente com a violência policial (fetiche ideológico útil a ideia de “resistência”), dizendo-se defensores da democracia contra o fascismo.

Naturalmente, a pandemia reduz a adesão a esses protestos. Por outro lado, a exaltação ao radicalismo segue como principal meio de mobilização para esses grupos. Na tentativa de superar isso, lideranças nacionais da oposição, um tanto carentes de credibilidade, vez por outra falam em união contra os preocupantes ataques do presidente bolsonaro às instituições democráticas, mas não conseguem se entender, pois competem eleitoralment entre si. Os apoiadores do presidente apostam nessa divisão entre opostirores e nas constantes crises políticas para dispersar as atenções.

Já o distinto público, a famosa maioria silenciosa, esta continua a esperar – como pode e quando pode – que a situação melhore e a pandemia recue, apesar de tudo isso e de todos esses.

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A política entre sufocos e respiradores

Por Wanfil em Política

26 de Maio de 2020

Respiradores: alívio nos hospitais, sufoco na política. Foto: divulgação/MD

Se todos concordam que o mundo não será mais o mesmo depois do coronavírus, é impossível deixar de concluir que algumas coisas jamais mudarão, como governos usando instiuições públicas com fins políticos, ou governantes acusando instituições de agirem politicamente para prejudicá-los. Resultado: fica realmente difícil saber quando as instituições agem de modo técnico e quando governos falam a verdade.

Foi assim no impeachment de Collor, no mensalão, no petrolão, na Lava Jato, nos casos Celso Daniel e Mariele, e tantos outros. Quem é governista, acredita na inocência do governo e das insituições do estado por eles controladas; quem é oposição, acredita na culpa do governo e dos seus operadores. Como dizia Marcel Proust, os fatos não penetram no mundo das crenças. Acontece que, às vezes, fatos e crenças se misturam de um jeito que o cinza prevalece sobre o preto e o branco.

Por exemplo. Agora em Fortaleza, o prefeito Roberto Cláudio (PDT), acusa o uso político de instituições federais na Operação Dispneia, que investiga a compra de respiradores para o combate à Covid-19, sob suspeita de superfaturamento. E agora? Se a acusação é clássica no repertório das desculpas políticas, por outro lado, Sérgio Moro, ex-ministro da Justiça e estrela da Lava Jato, acusa o presidente Jair Bolsonaro de aparelhar a Polícia Federal com fins políticos, o que dá verossimilhança as desconfianças levantadas pelo prefeito. Sem esquecer que Roberto Cláudio é aliado de Ciro Gomes, adversário de Bolsonaro. Percebem? Pra complicar, o mesmo acontece em São Paulo, Maranhão e Rio de Janeiro. Fica tudo confuso. Quem tem razão?

Podemos tentar um apelo à lógica. Por que uma gestão já reeleita e que caminha para o final se arrsicaria tanto justo no momento em que suas ações na saúde – divergências ideológicas à parte – estão sob os holofotes da preocupação geral? Não faz sentido. No entanto, o mesmo vale para as instituições. Não apenas a PF, mas também a CGU, o MPF e a própria Justiça Federal, que atuaram juntas na Dispneia. Que um ou outro nome desses órgãos seja sucetível a pressões, tudo bem, mas acreditar que todos os envolvidos, profissionais concursados e bem pagos, seriam ao mesmo tempo assim manipulados, é complicado. Gente demais, deixaria pontas soltas.

Por enquanto, o bom senso sugere cautela. Houve erro? Ou dolo? Corrupção? Abuso de poder? Perseguição? Impossível responder agora. Acontece que o tempo dos inquéritos e de eventuais processos judiciais é diferente do tempo da política, especialmente em ano eleitoral. Por isso, o que temos nas redes sociais é uma batalha de versões. E o barulho de suas respectivas torcidas.

Para quem assiste de fora, é fundamental cobrar que tudo seja tratado com o máximo de responsabilidade e o mínimo de ilações, para que o foco na crise da saúde e na crise econômica não seja afetado.

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As crises dentro da crise

Por Wanfil em Política

13 de Maio de 2020

Brasil sofre com sequência de crises que lembram matrioscas russas: uma dentro da outra. Foto: Manuel M.V./Flickr

Brigas com governadores, com o Supremo e o com Congresso, racha na base alida e no próprio partido, demissão do minsitro Mandetta, boicote ao isolamento social, apoio a manifestantes radicais, “e daí?”, negociações com o Centrão, rumores sobre o vídeo da reunião ministerial com ameaças de interferência na PF dirigidas ao então ministro Sérgio Moro…

A sucessão de crises políticas alimentadas pelo presidente Jair Bolsonaro e seu entorno durante a crise de saúde causada pela pandemia do coronavírus, pressupõe a existência de alguma intenção, algum objetivo. Não pode ser assim à toa, por mais que poss parece sem sentido. Como disse Polônio a respeito de Hamlet, “embora seja loucura, tem lá o seu método”.

Vejamos algumas possibilidades: 1) o objetivo é manter um estado permanente de polarização, que serve para aglutinar sua base “anti-sistema”; 2) evitar o aprofundamento de uma crise, colocando outra em seu lugar e assim sucessivamente; 3) impedir que a oposição concentre esforços numa pauta única; 4) dispersar as atenções com polêmicas, enquanto trabalha uma agenda sigilosa; 5) banalizar o próprio sentido de crise com intrigas vazias, como antídoto contra crises de verdade.

Como toda ação corresponde a uma reação, a duração prolongada e a intensidade desse, vá lá, método de gestão, com uma crise saindo de dentro da outra incessantemente, como numa gigantesca e metafórica boneca russa, tem causado efeitos que talvez o presidente não tenha imaginado.

A estratégia tem efeitos colaterais. Vamos a alguns: 1) o mercado e parte do eleitorado antipetista passa a ver na figura presidencial um foco de instabilidade que atrapalha a economia tanto quando o coronavírus; 2) transmite a ideia de que o combate a pandemia não é prioridade, ou seja, de indiferença; 3) o excesso de frentes polêmicas é percebido como falta de rumo; 3) a falta de rumo gera desconfiança; 4) a profusão de confusões passa a ser, ela mesma, a pauta central dos adversários do governo, que o acusam de despreparado governante; 5) isola e enfraquece a autoridade do governo para reagir contra crises de verdade.

Existe ainda outra opção: tudo seja obra do acaso, um caos que nasce do improviso e da teimosia cega. Nesse caso, teríamos que admitir que, para não eleger uma quadrilha de assaltantes que ameaçava retornar ao poder, o país elegeu alguém desprovido das qualidades para o exercício da liderança. E agora temos o que temos.

Somente o fato de vivermos semelhante impasse já sinal de que estamos a mercê de uma loucura sem método. Não há sanidade que resista.

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Centrão leva o Dnocs: entre a “velha política” e o “novo normal”

Por Wanfil em Política

07 de Maio de 2020

Dnocs: moeda de troca para apoio político. É o “velho normal” – Foto: Divulgação

Em meio à pandemia do coronavírus, o presidente Jair Bolsonaro trocou o comando do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs). Seu novo diretor geral foi indicado pelo Centrão, grupo de partidos fisiologicos que até outro dia era acusado pelo presidente de praticar a “velha política”, ou seja, de trocar apoio no Congresso por cargos e verbas. O famoso “toma lá, da cá”.

Bolsonaro até montou um ministério sem loteamento partidário, mas com o tempo, e as confusões, perdeu a própria base parlamentar, a começar pelo racha no PSL, seu ex-partido. Isolado, sem alternativas, faz agora o que Dilma e Temer já fizeram, com maior ou menor grau de sucesso na relação (lá vai!) custo/benefício.

A troca no Dnocs não chamou muita atenção por causa da urgência no combate ao coronavírus, que é o que importa agora. Para nossa sorte, as chuvas foram boas. Porém, a mudança de critérios para nomeações federais é indicativa de que outros órgãos federais estão sujeitos a negociações e mudanças para abrigar os nonvos aliados.

Por enquanto, nada disso deve impactar na correlação de forças políticas no Ceará. É que por aqui, pelas mesmas razões, a maioria desses partidos apoia a gestão estadual. O Centrão não tem, definitivamente, preconceito ideológico.

Muito se fala que depois do coronavírus, nada será como antes, ou que teremos um “novo normal”. Nem tudo, como podemos constatar. Pelo menos na política, algumas práticas não mudam nem por força de uma pandemia como a que vivemos.

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Sérgio Moro adota estratégia oposta a de Mandetta e surpreende Bolsonaro

Por Wanfil em Política

27 de Abril de 2020

Os agora ex-ministros Sergio Moro e Luiz Mandetta: estratégias distintas. Foto: Marcello Casal/Agência Brasil

Ao pedir demissão em público e disparar contra o presidente Jair Bolsonaro, o ex-ministro da Justiça, Sérgio Moro, optou por uma estratégia oposta a do ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta (demitido dias antes), e com isso pegou o Palácio do Planalto de surpresa. Tudo, nunca é demais lembrar, em plena pandemia de coronavírus.

Mandetta preferiu o papel de defensor da ciência vítima de incompreensões e do ciúme, porém, evitou fazer críticas diretas, ciente de que elas viriam de outros lugares. É um estilo mais tradicional. Cálculo de longo prazo. Em resposta, Bolsonaro nomeou um técnico da área, com alta qualificação em gestão (e convenientemente avesso a entrevistas). Ganhou tempo.

Moro saiu atirando para preservar a imagem que o consagrou: a de guardião da legalidade que não teme nem mesmo as maiores autoridades. (Vivo, Mandetta solidarizou-se com Moro e postou: “Outras lutas virão”. Soou como uma potencial chapa). O governo, zonzo, ainda tenta encontrar resposta. Ensaiou uma guerra de versões para desqualificar o inimigo e as acusações de tentativa de interferência política na Polícia Federal, mas foi desmentido por postagens divulgadas à queima-roupa pelo ex-juiz da Lava Jato. (Ação que, de quebra, deixou uma dúvida: o que mais ele teria guardado?).

Mandetta é político de larga experiência. Já disputou eleições e chegou ao parlamento, atuou no Executivo, é próximo a lideranças importantes do seu partido, o Democratas velho de guerra. Já Moro tem outro tipo de formação. Não tem histórico de militância partidária, não é herdeiro ou parente de famílias que dominam currais eleitorais, não foi adestrado no movimento estudantil nem foi sindicalista, algumas das escolas mais clássicas de formação política no Brasil. Aprendeu a operar na magistratura. Entende assim que sua autoridade depende da credibilidade que possa inspirar. Aprendeu como as estratégias de acusação e defesa buscam se antecipar aos adversários no curso dos processos.

Não é formalmente um político, tem dificuldades para lidar com políticos, mas atua politicamente, provavelmente com objetivos políticos, mas com bagagem trazida de outra arena. Em parte, foi por isso que não durou no cargo. É como já dizia o grande poeta Sá de Miranda, lá nos idos do Século XVI, na sua Carta para D. João III:
“Homem de um só parecer,
dum só rosto e d’ua fé,
d’antes quebrar que torcer
outra coisa pode ser,
mas da corte homem não é.”

A corte, nesse caso, não é o tribunal, mas a entourage que cerca os mandatários pelos palácios onde a regra sempre foi, desde o tempo das velhas monarquias, ser maleável às conveniências do poder.

Não que Moro seja a encarnação da virtude em meio ao pecado. Mistificações são artifícios pueris, embora muito presentes. Na verdade, o paralelo com o poema é para evidenciar que Moro, com a força que tem no imaginário brasileiro, ainda precisa de algum tempo para assimilar melhor as diferenças entre os tribunais e as instituições políticas. Por enquanto, tem sido algo favorável a ele, mas depois poderá ser um problema.

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Pronunciamento à nação não é “live” de rede social

Por Wanfil em Política, Sem categoria

25 de Março de 2020

Presidente Jair Bolsonaro em Rede Nacional de Rádio e Televisão / Isac Nóbrega – Agência Brasil

O pronunciamento do presidente Jair Bolsonaro em rede nacional de rádio e televisão com críticas às medidas de isolamento social diante dos efeitos da crise na economia, causou grande repercussão e muitas dúvidas, pois na prática, não esclareceu nada nem definiu coisa alguma.

Que a modulação entre as restrições sanitárias impostas no combate ao coronavírus e a sobrevivência de empresas e trabalhadores (formais e informais) seja uma preocupação a ser debatida nos devidos fóruns, tudo bem. É, aliás, algo necessário e urgente, dever dos governantes. Contudo, muito diferente é a autoridade presidencial se colocar assim publicamente contra medidas defendidas pelo Ministério da Saúde, ainda mais quando o próprio governo federal pediu a aprovação do estado de calamidade. As contradições só confundem.

Claro que o debate proposto pode e precisa ser feito, desde que modo construtivo. Um pronunciamento à nação guarda um caráter de solenidade, quando o governo anuncia decisões e posicionamentos oficiais. Não é portanto uma live informal de rede social, dessas em que é normal pessoas desabafarem e opinarem sobre todo e qualquer assunto, como se conversassem com amigos em casa. os tempos são outros, a comunicação mudou um bocado, mas quando se trata de autoridade pública, convém que até as lives sejam feitas com muito cuidado.

Não se trata de ser contra ou a favor de partidos ou ideologias, mas de compreender que a prioridade agora é retardar a velocidade de propagação do coronavírus. Para isso, o isolamento social é o protocolo mais aceito no mundo. A dose a ser ministrada – ou seja, o tempo de manutenção dessas quarentenas – ainda não está bem definida. Ao propor o fim do isolamento sem combinar isso com os próprios técnicos do governo, o presidente acabou se colando num inédito – dentro do seu mandato – isolamento político.

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A diferença entre Lula e Cabo Sabino

Por Wanfil em Política

06 de Março de 2020

Indignação: ao cobrar prisão imediata para o Cabo Sabino, líder do motim ilegal no CE, mas que ainda será julgado, Camilo Santana deve lembrar que Lula, condenado em 2ª instância por corrução, está solto

O governador Camilo Santana foi ao Facebook compartilhar sua indignação com o relaxamento do mandado de prisão contra o ex-deputado federal Cabo Sabino, líder do motim que provocou uma crise na segurança pública do Ceará. Segundo Camilo, é “inaceitável que alguém promova todo tipo de desordem, cometa crimes, desafie a própria Justiça, Ministério Público, Governo e sociedade, e seja mandado para casa, como se nada tivesse ocorrido”. Depois arrematou: “Esse acusado terá que responder pelos seus gravíssimos atos, pelo bem do Estado de Direito”.

Vejam como política é terreno escorregadio. Que o Cabo Sabino deva responder pelos crimes de que é acusado, ninguém discorda. Se for condenado, que cumpra a pena. Imagens e áudios é que não faltam para provar o papel dele no episódio. Mas como o motim acabou, com o próprio Sabino derrotado na votação dos amotinados para encerrar a paralisação, a prisão preventiva foi relaxada. São os ritos da Justiça.

Passada a possibilidade de prisão em flagrante, será preciso aguardar o devido julgamento. E o pior: tem que esperar pelos recursos. Com bons advogados, um processo pode levar anos ou até prescrever. É assim que funciona. Antes, era possível antecipar uma prisão a partir de condenação em segunda instância, mas o STF recentemente mudou esse entendimento. Existe até um projeto no Congresso que tenta mudar isso, mas alguns partidos são contra, para proteger seus membros enrolados com a Justiça.

O caso mais famoso é justamente o do ex-presidente Lula, liderança maior do PT, correligionário do governador cearense. Condenado mais de uma vez pelos crimes corrupção e lavagem de dinheiro, foi “mandado para casa, como se nada tivesse ocorrido”. É ou não é de causar indignação?

Uma das diferenças entre o caso do Cabo Sabino, que atentou contra a lei que proíbe motins, e Lula, de extensa ficha corrida, é que, como disse o próprio governador, Sabino ainda é acusado, e o ex-presidente, todos sabem, já é um condenado. Se condenado, como deve ser, que Sabino pague por seu crime. O mesmo tem que valer para Lula. Qualquer seletividade por causa de questões ideológicas  ou partidárias, é uma contradição tão inadmissível quanto a impunidade.

Acontece que política, como eu disse, é mesmo terreno escorregadio.

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O fim do motim no Ceará e suas implicações políticas

Por Wanfil em Política

02 de Março de 2020

Sergio Moro e Camilo Santana no Ceará: moderação política e parceria institucional mostram que falar menos e fazer mais é o melhor caminho – Foto: Alexandre Manfrim – Divulgação MD

O motim de policiais militares liderados pelo ex-deputado federal Cabo Sabino chegou ao fim do mesmo modo como começou: isolado e dividido. Tudo começou quando o grupo rejeitou o acordo de reestruturação salarial celebrado entre o governo estadual e os representantes mais conhecidos da categoria: o deputado federal Capitão Wagner, o deputado estadual Soldado Noélio, e o vereador de Fortaleza Sargento Reginauro. Um bom acordo, diga-se.

Deu no que deu. E depois de todo o desgaste, das imagens de homens encapuzados e armados impedindo a circulação de viaturas, depois de tudo, os amotinados acabaram por aceitar o projeto que já tinha sido apresentando antes da paralisação. Imagens que foram fatais para qualificar o movimento perante a opinião pública local e nacional.

A oposição que tem os movimentos de policiais como base sai, portanto, fragilizada desses eventos, mas ainda é cedo para dimensionar o tamanho do estrago, até porque segurança pública é terreno escorregadio.

O presidente Jair Bolsonaro, que atendeu aos pedidos de ajuda das autoridades cearenses, perdeu a mão quando veio a público fazer cobranças ao governo estadual, pressão desnecessária que gerou apreensão, inclusive, em outros estados.

O senador Cid Gomes, que se recupera bem dos tiros que levou ao avançar com uma retroescavadeira sobre os amotinados, mostrou ao país o que não deve ser feito em situações dessa natureza. Por sorte, o pior não aconteceu. Prevaleceu, felizmente, a postura adotada pelo o governador Camilo Santana e pelo ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, que demonstraram equilíbrio, mesmo com todas as pressões do ambiente politicamente polarizado no Brasil, evitando declarações que agravassem a situação, mas agindo sem hesitar dentro dos seus papéis institucionais, apontando a ilegalidade da paralisação.

O fim da paralisação tem implicações políticas – e até eleitorais – que ainda estão em plena formatação, mas tudo isso leva mais um tempo para ser digerido. Agora, nesse primeiro momento após a crise, as atenções se voltam para os processos administrativos e criminais envolvendo os amotinados, que também tem potencial político, conforme sejam conduzido. Nesse caso, quanto mais transparência e serenidade, melhor.

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Ciro esculhamba Lula; Camilo abraça Lula; Ciro e Camilo se entendem. Como pode?

Por Wanfil em Política

13 de novembro de 2019

Ciro e Camilo trafegam em via de mão dupla. Sentidos opostos que se complementam – Foto: Visual Hunt

Ciro Gomes quebrou o silêncio sobre a soltura de Lula com duas entrevistas, uma ao jornal O Globo e outra a repórteres em evento realizado em São Paulo. Como todos gostam de uma confusão, a repercussão foi imediata. Em suma, Ciro voltou a esculhambar Lula e o PT. Repetiu que o ex-presidente não é inocente e que seu partido é uma quadrilha.

É o oposto da movimentações do governador Camilo Santana, que além de ir ao encontro de Lula, o exalta no padrão exigido aos petistas: como a uma entidade acima do bem e do mal. Para Camilo, os escândalos e o calvário jurídico de Lula são uma tremenda injustiça.

Ciro e Camilo divergem publicamente em relação ao ex-presidente ficha suja. E não se trata de uma discordância estratégica qualquer, mas de uma cisão que, no fundo, embora todos disfarcem, é de fundo moral: apoiar ou combater Lula significa condescender ou rechaçar com seus métodos. Como então eles conseguem conciliar essas diferenças? Por muito menos, amigos e parentes andam cortando relações. Henry De Montherlant explica: “A política é a arte de captar em proveito próprio a paixão dos outros”. É, os franceses entendem do riscado.

No fim, por enquanto, esquerdistas descontentes com o lulismo e esquerdistas idólatras de Lula convivem na mesma base aliada no Ceará como se isso fosse a coisa mais natural. Camilo agrada ao petismo sem desagradar ao cirismo quando confraterniza com Lula e ao mesmo tempo defende apoio a Ciro; e Ciro preserva a aliança estadual ao dizer que só o comando nacional do PT é que não presta, ressalvados os “petistas médios”, entre os quais cita Camilo, colocando ainda as coisas, pela sua ótica, nos devidos lugares.

Até quando isso vai funcionar, aí é outra conversa.

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Ciro esculhamba Lula; Camilo abraça Lula; Ciro e Camilo se entendem. Como pode?

Por Wanfil em Política

13 de novembro de 2019

Ciro e Camilo trafegam em via de mão dupla. Sentidos opostos que se complementam – Foto: Visual Hunt

Ciro Gomes quebrou o silêncio sobre a soltura de Lula com duas entrevistas, uma ao jornal O Globo e outra a repórteres em evento realizado em São Paulo. Como todos gostam de uma confusão, a repercussão foi imediata. Em suma, Ciro voltou a esculhambar Lula e o PT. Repetiu que o ex-presidente não é inocente e que seu partido é uma quadrilha.

É o oposto da movimentações do governador Camilo Santana, que além de ir ao encontro de Lula, o exalta no padrão exigido aos petistas: como a uma entidade acima do bem e do mal. Para Camilo, os escândalos e o calvário jurídico de Lula são uma tremenda injustiça.

Ciro e Camilo divergem publicamente em relação ao ex-presidente ficha suja. E não se trata de uma discordância estratégica qualquer, mas de uma cisão que, no fundo, embora todos disfarcem, é de fundo moral: apoiar ou combater Lula significa condescender ou rechaçar com seus métodos. Como então eles conseguem conciliar essas diferenças? Por muito menos, amigos e parentes andam cortando relações. Henry De Montherlant explica: “A política é a arte de captar em proveito próprio a paixão dos outros”. É, os franceses entendem do riscado.

No fim, por enquanto, esquerdistas descontentes com o lulismo e esquerdistas idólatras de Lula convivem na mesma base aliada no Ceará como se isso fosse a coisa mais natural. Camilo agrada ao petismo sem desagradar ao cirismo quando confraterniza com Lula e ao mesmo tempo defende apoio a Ciro; e Ciro preserva a aliança estadual ao dizer que só o comando nacional do PT é que não presta, ressalvados os “petistas médios”, entre os quais cita Camilo, colocando ainda as coisas, pela sua ótica, nos devidos lugares.

Até quando isso vai funcionar, aí é outra conversa.