A política entre sufocos e respiradores 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

A política entre sufocos e respiradores

Por Wanfil em Política

26 de Maio de 2020

Respiradores: alívio nos hospitais, sufoco na política. Foto: divulgação/MD

Se todos concordam que o mundo não será mais o mesmo depois do coronavírus, é impossível deixar de concluir que algumas coisas jamais mudarão, como governos usando instiuições públicas com fins políticos, ou governantes acusando instituições de agirem politicamente para prejudicá-los. Resultado: fica realmente difícil saber quando as instituições agem de modo técnico e quando governos falam a verdade.

Foi assim no impeachment de Collor, no mensalão, no petrolão, na Lava Jato, nos casos Celso Daniel e Mariele, e tantos outros. Quem é governista, acredita na inocência do governo e das insituições do estado por eles controladas; quem é oposição, acredita na culpa do governo e dos seus operadores. Como dizia Marcel Proust, os fatos não penetram no mundo das crenças. Acontece que, às vezes, fatos e crenças se misturam de um jeito que o cinza prevalece sobre o preto e o branco.

Por exemplo. Agora em Fortaleza, o prefeito Roberto Cláudio (PDT), acusa o uso político de instituições federais na Operação Dispneia, que investiga a compra de respiradores para o combate à Covid-19, sob suspeita de superfaturamento. E agora? Se a acusação é clássica no repertório das desculpas políticas, por outro lado, Sérgio Moro, ex-ministro da Justiça e estrela da Lava Jato, acusa o presidente Jair Bolsonaro de aparelhar a Polícia Federal com fins políticos, o que dá verossimilhança as desconfianças levantadas pelo prefeito. Sem esquecer que Roberto Cláudio é aliado de Ciro Gomes, adversário de Bolsonaro. Percebem? Pra complicar, o mesmo acontece em São Paulo, Maranhão e Rio de Janeiro. Fica tudo confuso. Quem tem razão?

Podemos tentar um apelo à lógica. Por que uma gestão já reeleita e que caminha para o final se arrsicaria tanto justo no momento em que suas ações na saúde – divergências ideológicas à parte – estão sob os holofotes da preocupação geral? Não faz sentido. No entanto, o mesmo vale para as instituições. Não apenas a PF, mas também a CGU, o MPF e a própria Justiça Federal, que atuaram juntas na Dispneia. Que um ou outro nome desses órgãos seja sucetível a pressões, tudo bem, mas acreditar que todos os envolvidos, profissionais concursados e bem pagos, seriam ao mesmo tempo assim manipulados, é complicado. Gente demais, deixaria pontas soltas.

Por enquanto, o bom senso sugere cautela. Houve erro? Ou dolo? Corrupção? Abuso de poder? Perseguição? Impossível responder agora. Acontece que o tempo dos inquéritos e de eventuais processos judiciais é diferente do tempo da política, especialmente em ano eleitoral. Por isso, o que temos nas redes sociais é uma batalha de versões. E o barulho de suas respectivas torcidas.

Para quem assiste de fora, é fundamental cobrar que tudo seja tratado com o máximo de responsabilidade e o mínimo de ilações, para que o foco na crise da saúde e na crise econômica não seja afetado.

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A política entre sufocos e respiradores

Por Wanfil em Política

26 de Maio de 2020

Respiradores: alívio nos hospitais, sufoco na política. Foto: divulgação/MD

Se todos concordam que o mundo não será mais o mesmo depois do coronavírus, é impossível deixar de concluir que algumas coisas jamais mudarão, como governos usando instiuições públicas com fins políticos, ou governantes acusando instituições de agirem politicamente para prejudicá-los. Resultado: fica realmente difícil saber quando as instituições agem de modo técnico e quando governos falam a verdade.

Foi assim no impeachment de Collor, no mensalão, no petrolão, na Lava Jato, nos casos Celso Daniel e Mariele, e tantos outros. Quem é governista, acredita na inocência do governo e das insituições do estado por eles controladas; quem é oposição, acredita na culpa do governo e dos seus operadores. Como dizia Marcel Proust, os fatos não penetram no mundo das crenças. Acontece que, às vezes, fatos e crenças se misturam de um jeito que o cinza prevalece sobre o preto e o branco.

Por exemplo. Agora em Fortaleza, o prefeito Roberto Cláudio (PDT), acusa o uso político de instituições federais na Operação Dispneia, que investiga a compra de respiradores para o combate à Covid-19, sob suspeita de superfaturamento. E agora? Se a acusação é clássica no repertório das desculpas políticas, por outro lado, Sérgio Moro, ex-ministro da Justiça e estrela da Lava Jato, acusa o presidente Jair Bolsonaro de aparelhar a Polícia Federal com fins políticos, o que dá verossimilhança as desconfianças levantadas pelo prefeito. Sem esquecer que Roberto Cláudio é aliado de Ciro Gomes, adversário de Bolsonaro. Percebem? Pra complicar, o mesmo acontece em São Paulo, Maranhão e Rio de Janeiro. Fica tudo confuso. Quem tem razão?

Podemos tentar um apelo à lógica. Por que uma gestão já reeleita e que caminha para o final se arrsicaria tanto justo no momento em que suas ações na saúde – divergências ideológicas à parte – estão sob os holofotes da preocupação geral? Não faz sentido. No entanto, o mesmo vale para as instituições. Não apenas a PF, mas também a CGU, o MPF e a própria Justiça Federal, que atuaram juntas na Dispneia. Que um ou outro nome desses órgãos seja sucetível a pressões, tudo bem, mas acreditar que todos os envolvidos, profissionais concursados e bem pagos, seriam ao mesmo tempo assim manipulados, é complicado. Gente demais, deixaria pontas soltas.

Por enquanto, o bom senso sugere cautela. Houve erro? Ou dolo? Corrupção? Abuso de poder? Perseguição? Impossível responder agora. Acontece que o tempo dos inquéritos e de eventuais processos judiciais é diferente do tempo da política, especialmente em ano eleitoral. Por isso, o que temos nas redes sociais é uma batalha de versões. E o barulho de suas respectivas torcidas.

Para quem assiste de fora, é fundamental cobrar que tudo seja tratado com o máximo de responsabilidade e o mínimo de ilações, para que o foco na crise da saúde e na crise econômica não seja afetado.