Ceará Archives - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

Ceará

A diferença entre Lula e Cabo Sabino

Por Wanfil em Política

06 de Março de 2020

Indignação: ao cobrar prisão imediata para o Cabo Sabino, líder do motim ilegal no CE, mas que ainda será julgado, Camilo Santana deve lembrar que Lula, condenado em 2ª instância por corrução, está solto

O governador Camilo Santana foi ao Facebook compartilhar sua indignação com o relaxamento do mandado de prisão contra o ex-deputado federal Cabo Sabino, líder do motim que provocou uma crise na segurança pública do Ceará. Segundo Camilo, é “inaceitável que alguém promova todo tipo de desordem, cometa crimes, desafie a própria Justiça, Ministério Público, Governo e sociedade, e seja mandado para casa, como se nada tivesse ocorrido”. Depois arrematou: “Esse acusado terá que responder pelos seus gravíssimos atos, pelo bem do Estado de Direito”.

Vejam como política é terreno escorregadio. Que o Cabo Sabino deva responder pelos crimes de que é acusado, ninguém discorda. Se for condenado, que cumpra a pena. Imagens e áudios é que não faltam para provar o papel dele no episódio. Mas como o motim acabou, com o próprio Sabino derrotado na votação dos amotinados para encerrar a paralisação, a prisão preventiva foi relaxada. São os ritos da Justiça.

Passada a possibilidade de prisão em flagrante, será preciso aguardar o devido julgamento. E o pior: tem que esperar pelos recursos. Com bons advogados, um processo pode levar anos ou até prescrever. É assim que funciona. Antes, era possível antecipar uma prisão a partir de condenação em segunda instância, mas o STF recentemente mudou esse entendimento. Existe até um projeto no Congresso que tenta mudar isso, mas alguns partidos são contra, para proteger seus membros enrolados com a Justiça.

O caso mais famoso é justamente o do ex-presidente Lula, liderança maior do PT, correligionário do governador cearense. Condenado mais de uma vez pelos crimes corrupção e lavagem de dinheiro, foi “mandado para casa, como se nada tivesse ocorrido”. É ou não é de causar indignação?

Uma das diferenças entre o caso do Cabo Sabino, que atentou contra a lei que proíbe motins, e Lula, de extensa ficha corrida, é que, como disse o próprio governador, Sabino ainda é acusado, e o ex-presidente, todos sabem, já é um condenado. Se condenado, como deve ser, que Sabino pague por seu crime. O mesmo tem que valer para Lula. Qualquer seletividade por causa de questões ideológicas  ou partidárias, é uma contradição tão inadmissível quanto a impunidade.

Acontece que política, como eu disse, é mesmo terreno escorregadio.

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O fim do motim no Ceará e suas implicações políticas

Por Wanfil em Política

02 de Março de 2020

Sergio Moro e Camilo Santana no Ceará: moderação política e parceria institucional mostram que falar menos e fazer mais é o melhor caminho – Foto: Alexandre Manfrim – Divulgação MD

O motim de policiais militares liderados pelo ex-deputado federal Cabo Sabino chegou ao fim do mesmo modo como começou: isolado e dividido. Tudo começou quando o grupo rejeitou o acordo de reestruturação salarial celebrado entre o governo estadual e os representantes mais conhecidos da categoria: o deputado federal Capitão Wagner, o deputado estadual Soldado Noélio, e o vereador de Fortaleza Sargento Reginauro. Um bom acordo, diga-se.

Deu no que deu. E depois de todo o desgaste, das imagens de homens encapuzados e armados impedindo a circulação de viaturas, depois de tudo, os amotinados acabaram por aceitar o projeto que já tinha sido apresentando antes da paralisação. Imagens que foram fatais para qualificar o movimento perante a opinião pública local e nacional.

A oposição que tem os movimentos de policiais como base sai, portanto, fragilizada desses eventos, mas ainda é cedo para dimensionar o tamanho do estrago, até porque segurança pública é terreno escorregadio.

O presidente Jair Bolsonaro, que atendeu aos pedidos de ajuda das autoridades cearenses, perdeu a mão quando veio a público fazer cobranças ao governo estadual, pressão desnecessária que gerou apreensão, inclusive, em outros estados.

O senador Cid Gomes, que se recupera bem dos tiros que levou ao avançar com uma retroescavadeira sobre os amotinados, mostrou ao país o que não deve ser feito em situações dessa natureza. Por sorte, o pior não aconteceu. Prevaleceu, felizmente, a postura adotada pelo o governador Camilo Santana e pelo ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, que demonstraram equilíbrio, mesmo com todas as pressões do ambiente politicamente polarizado no Brasil, evitando declarações que agravassem a situação, mas agindo sem hesitar dentro dos seus papéis institucionais, apontando a ilegalidade da paralisação.

O fim da paralisação tem implicações políticas – e até eleitorais – que ainda estão em plena formatação, mas tudo isso leva mais um tempo para ser digerido. Agora, nesse primeiro momento após a crise, as atenções se voltam para os processos administrativos e criminais envolvendo os amotinados, que também tem potencial político, conforme sejam conduzido. Nesse caso, quanto mais transparência e serenidade, melhor.

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A crise na Segurança Pública e as raízes do “sindicalismo” militar

Por Wanfil em Segurança

27 de Fevereiro de 2020

Grupos de representação de policiais militares que agora pressionam governos estaduais no Brasil por aumentos salariais e melhores condições de trabalho – e que no Ceará se materializou na mais recente crise na segurança pública – existem desde muito antes das eleições de 2018. Em vários estados entidades desse tipo foram fundadas ou reformuladas entre a última década do século passado e a primeira década do Século 20. Algumas são até mais antigas.

Paralisações e motins motivados por reivindicações trabalhistas também já foram registrados nesse período. No Ceará, há os casos de 1997 e de 2012. Ou seja, não existe uma relação direta de causa e efeito com uma gestão federal ou estadual em particular. Vai além.

A Constituição de 1988 não permite que membros das Forças Armadas e policiais militares, que são funcionários públicos, façam greves ou se sindicalizem. Para contornar impedimentos legais e organizar uma forma de representação, foram criadas as associações, que acabaram incorporando, indiretamente, o papel informal de “sindicatos”. Tudo dentro da legislação, é bom lembrar, para que não se criminalize a atividade, importante inclusive para chamar a atenção de todos quanto a problemas na sua área de atuação.

Entretanto, nesse mesmo período, sindicatos de servidores públicos civis se notabilizaram pela capacidade de mobilização, já que podem fazer greves correndo menos riscos que trabalhadores da iniciativa privada, por possuírem estabilidade. Foi questão de tempo para que parte da cultura estratégica desses sindicatos fossem absorvidas pelas associações militares, com dois ingredientes adicionais: o direito a portar armas (que amplia seu poder de coação e dificulta ações de dispersão nas suas manifestações) e os efeitos imediatos da paralisação de um serviço essencial.

O casamento entre práticas sindicais comuns ao serviço público com as particularidades da formação militar (com as noções de sacrifício em nome da causa e de solidariedade com os companheiros de farda), potencializou as tensões nas negociações entre os governos e essas entidades. No Ceará, erros e hesitações do poder público nos últimos anos ainda precipitaram uma evidente perda de autoridade que, no final, pode alimentar impulsos de quebra de hierarquia.

Sem esquecer que o clima político de polarizações constantes atiçou setores mais radicais que militam nesses grupos e que rejeitaram o acordo celebrado entre o governo do Ceará e representantes da categoria. Interesses políticos? Sim, eles existem e são – atenção – perfeitamente legítimos. Policiais eleitos para atuar em nome de sua classe não diferem em nada, por exemplo, de sindicalistas eleitos para defenderem seus sindicatos. Não há ilegalidade nisso. O problema é de outra ordem, é quando a política acaba impedida pelo radicalismo de alguns.

A questão aqui não é fazer juízo de valor sobre os argumentos das partes sobre reestruturação salarial. Não há dúvida de que o trabalho policial deve ser valorizado e suas entidades respeitadas, mas o fato presente é que, além de ser proibida, a forma com que a paralisação foi conduzida pelos agentes amotinados, com imagens de homens encapuzados, tomando viaturas e portando armas, chocou a população. E a forma, ainda que restrita a uma minoria, contribui para generalizar, qualificar ou desqualificar movimentos reivindicatórios.

E assim, chegamos até aqui. Agora uma comissão formada por representantes de diversas instituições e dos “grevistas” tem o desafio de tentar uma solução que contemple, ao mesmo tempo, o cumprimento da lei  e a melhoria das condições de trabalho para policiais e bombeiros, de modo que a segurança pública no Ceará possa voltar todas as suas atenções no combate ao crime e na proteção da sociedade.

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Crise na Segurança: uma semana de radicalismos no Ceará

Por Wanfil em Segurança

21 de Fevereiro de 2020

Retroescavadeira contra amotinados em Sobral:  radicalismos pioraram a situação da segurança – Imagem: reprodução/Facebook

As cenas surreais do senador Cid Gomes sendo alvejado a tiros após ter investido com uma retroescavadeira sobre policiais amotinados no quartel da Polícia Militar em Sobral, são o ápice de uma soma de erros levados a efeito por obra do radicalismo político.

Nesse ambiente de intolerância, lideranças políticas equilibradas acabam eclipsadas pelo discurso beligerante de quem aposta no confronto. Aliás, nesse mesmo sentido, tudo desandou quando o acordo celebrado entre o governo e representantes dos policiais foi rejeitado por setores radicais da categoria, que atropelaram seus próprios líderes.

Agora, grupos políticos aproveitam o momento para trocar acusações: governistas culpam opositores, opositores responsabilizam o governo, sem . A aposta na confusão é redobrada quando nenhum desses radicais se mostra capaz de reconhecer que se excedeu ou que errou, nem assume responsabilidade por nada. Todos se apresentam como vítimas dos seu adversários.

Existem as exceções que procuram agir com moderação, mas a serenidade de espírito é algo que definitivamente não rende curtidas nas redes sociais nos dias de hoje. O governador Camilo Santana, é preciso reconhecer, tem demonstrado muita prudência, apesar das graves circunstâncias. Falo isso com a tranquilidade de quem é visto pelo governo estadual como contumaz crítico das suas ações nos últimos anos, especialmente no que diz respeito as políticas de segurança pública. Quem acompanha minhas análises sabe disso, o que não me impede de valorizar a responsabilidade do chefe do Executivo estadual, sobretudo agora.

Somente a sensatez pode resgatar a normalidade. O ministro da Justiça, Sérgio Moro, e o da Secretaria de Governo da Presidência da República, general Luiz Eduardo Ramos, intermediaram junto a Jair Bolsonaro, o envio da Força Nacional e das Forças Armadas para ajudar com a segurança no Ceará. Todos acertam ao deixarem diferenças políticas de lado. É isso o que se espera dessas autoridades locais e nacionais.

A semana no Ceará foi incendiada pelo radicalismo, não importam as intenções alegadas por seus agentes, governistas ou oposicionistas. Por óbvio, o melhor remédio contra o destempero é a moderação, lembrando que isso não significa passividade. Que a Justiça apure as eventuais ilegalidades cometidas – inclusive no episódio em Sobral – e puna os responsáveis, na letra da lei. E que os profissionais de segurança que desejam trabalhar dentro das regras que aceitaram ao ingressar na carreira militar, sejam preservados e valorizados. A impunidade, tanto quanto o radicalismo, alimenta as arbitrariedades.

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Senador Cid Gomes surpreende e se licencia do cargo. O que realmente aconteceu?

Por Wanfil em Eleições 2020

04 de dezembro de 2019

Senador Cid Gomes (PDT) – Agência Senado

É a pergunta que todos se fazem após o pedido de licença feito antes mesmo de Cid Gomes completar um ano no Senado, às vésperas do recesso parlamentar e em meio a votações importantes no Congresso.

Negócios particulares e reestruturação do PDT no Ceará foram as justificativas anunciadas pela imprensa. A decisão, obviamente, antecipa o processo eleitoral junto ao grupo governista, algo que não combina com o estilo – e o histórico – do próprio Cid. Fica no ar uma impressão de urgência.

Não é o caso de falar em precipitação, que isso seria coisa de amador. Pelo visto, a situação exige dedicação integral de quem realmente decide (quase escrevi “deCID”). Apesar de surpreendente, esse movimento mais radical é até compreensível se levarmos em consideração alguns fatores:

– o governo federal como adversário combativo altera o cenário na comparação com outras eleições;
– opositores articulando apoio nacional de partidos que são aliados locais;
– o ressentimento petista;
– vácuo de liderança no PDT;
– disputas internas no imenso grupo governista;
– indefinições no interior;
– o avanço do PSD na base governista estadual;
– nomes com diferentes padrinhos aspirando à sucessão de Roberto Cláudio;
– falta de candidatos competitivos entre os aliados na capital;
– pesquisas, pesquisas e pesquisas.

É claro que algo mais pode ter acontecido, mas ir além desses pontos, nesse momento, é especular além da conta. Entretanto, como em política gestos possuem significados que vão além das explicações formais, as especulações nos bastidores serão inevitáveis nos próximos dias.

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Todo castigo é pouco

Por Wanfil em Legislação

20 de novembro de 2019

Parece gado no curral, mas são eleitores obrigados a cadastrar digitais, sob pena de punição – Foto: Tribuna do Ceará

O castigo é a sina do eleitor brasileiro. Mesmo que não queira, ainda que repudie os candidatos e odeie a política, ou considere os partidos farinha do mesmo saco, esse eleitor frustrado, ressentido, indiferente e apático é obrigado a votar. E como se não bastasse, em nome da modernidade, é forçado a fazer o cadastro biométrico, de modo que as urnas eletrônicas possam identificar o eleitor pelas digitais. No Brasil, até o suprassumo da tecnologia serve à nossa obsessão pela burocracia.

Por isso, nos últimos dias em Fortaleza, levas de eleitores desolados aguardam em filas quilométricas a vez de digitalizarem seus polegares. Quem não o fizer, não importa o motivo, se não cumprir com a obrigação eleitoral, terá o título cancelado e ficará impossibilitado de votar e ser votado, não poderá emitir passaporte, nem fazer matrícula em instituições públicas de ensino, será proibido de contrair empréstimos em bancos oficiais, receber o bolsa família ou assumir cargo público. E se já for servidor, não receberá o salário até regularizar a situação. Tá bom assim? Tome castigo.

Agora reparem a diferença: no lugar do eleitor, pense agora nos excelentíssimos eleitos. Não em qualquer um, mas nos que são corruptos notórios, desses que respondem a vários inquéritos ou que até tenham sido condenados por desvios milionários ou cassados por crime de responsabilidade. Pois bem, esses eleitos, apesar de tudo o que fizeram, a despeito da própria notoriedade, ainda assim terão direito a uma aposentadoria com salário nababesco e repleta de regalias. E mesmo que tenham sido sentenciados em segunda instância por lavagem de dinheiro, de acordo com a mais recente alteração de jurisprudência no STF, os corruptos terão o benefício da presunção de inocência até que os processos transitem em julgado. Isso se as ações não prescreverem no meio do caminho.

Castigo rápido, só para eleitores. Pela lei brasileira, quem merece desconfiança é o cidadão obrigado a votar.

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Ciro esculhamba Lula; Camilo abraça Lula; Ciro e Camilo se entendem. Como pode?

Por Wanfil em Política

13 de novembro de 2019

Ciro e Camilo trafegam em via de mão dupla. Sentidos opostos que se complementam – Foto: Visual Hunt

Ciro Gomes quebrou o silêncio sobre a soltura de Lula com duas entrevistas, uma ao jornal O Globo e outra a repórteres em evento realizado em São Paulo. Como todos gostam de uma confusão, a repercussão foi imediata. Em suma, Ciro voltou a esculhambar Lula e o PT. Repetiu que o ex-presidente não é inocente e que seu partido é uma quadrilha.

É o oposto da movimentações do governador Camilo Santana, que além de ir ao encontro de Lula, o exalta no padrão exigido aos petistas: como a uma entidade acima do bem e do mal. Para Camilo, os escândalos e o calvário jurídico de Lula são uma tremenda injustiça.

Ciro e Camilo divergem publicamente em relação ao ex-presidente ficha suja. E não se trata de uma discordância estratégica qualquer, mas de uma cisão que, no fundo, embora todos disfarcem, é de fundo moral: apoiar ou combater Lula significa condescender ou rechaçar com seus métodos. Como então eles conseguem conciliar essas diferenças? Por muito menos, amigos e parentes andam cortando relações. Henry De Montherlant explica: “A política é a arte de captar em proveito próprio a paixão dos outros”. É, os franceses entendem do riscado.

No fim, por enquanto, esquerdistas descontentes com o lulismo e esquerdistas idólatras de Lula convivem na mesma base aliada no Ceará como se isso fosse a coisa mais natural. Camilo agrada ao petismo sem desagradar ao cirismo quando confraterniza com Lula e ao mesmo tempo defende apoio a Ciro; e Ciro preserva a aliança estadual ao dizer que só o comando nacional do PT é que não presta, ressalvados os “petistas médios”, entre os quais cita Camilo, colocando ainda as coisas, pela sua ótica, nos devidos lugares.

Até quando isso vai funcionar, aí é outra conversa.

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Ciro ou Lula?

Por Wanfil em Política

11 de novembro de 2019

Não é de hoje que Camilo convive entre Lula e Ciro, mas nunca foi tão complicado – Foto: efeito sobre Divulgação/Inst. Lula/2016

A saída de Lula da cadeia produziu efeitos distintos no Ceará. O governador Camilo Santana, do PT, comemorou nas redes sociais a decisão do STF que soltou o correligionário condenado por corrupção e lavagem de dinheiro: “Justiça feita. Lula, o maior presidente que este país já teve, está livre”. Já o presidenciável Ciro Gomes (“Lula só pensa em si e virou um enganador profissional”) e seu irmão, o senador Cid Gomes (“o Lula tá preso, babaca!”), ambos do PDT , optaram pelo silêncio.

No Ceará, a convergência de interesses que une PT e PDT ainda produz benefícios mútuos, mas as brigas entre os seus comandos nacionais leva cada um a falar para seu próprio grupo na atual divisão da esquerda brasileira: os que ainda idolatram Lula e os que se decepcionaram com Lula. Juntos, os Ferreira Gomes e o PT ligado a Camilo abarcam as duas partes. Não foi por impulso que o governador foi a São Paulo abraçar o ex-presidente. Como tudo na política, houve cálculo nesse movimento. Basta reparar que Ciro ataca Lula até no campo moral, mas não critica o governador que enaltece o petista. Os espaços seguem devidamente ocupados por aliados no Estado.

Para as eleições municipais do próximo ano, especialmente nas capitais, o petismo cobra de Camilo uma atitude de independência e protagonismo, já o pedetismo lhe cobra, digamos assim, neutralidade. Isso já aconteceu antes, mas sem que Lula e Ciro estivessem tão afastados (para dizer o mínimo) como agora. Só pra lembrar, Lula afirmou recentemente que Ciro não tem perfil ideológico para representar a esquerda, pois troca de partido a cada eleição. O governador elogia os dois, por quem nutre admiração natural. E tem se mostrado bastante hábil nesse jogo, que fica cada vez mais complicado. Vejamos como será em 2020.

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As entrelinhas de Camilo na entrevista ao Estadão: Ciro erra, mas o PT erra mais

Por Wanfil em Política

22 de outubro de 2019

Camilo entre Ciro e o PT: a política, às vezes, é exercício de equilibrismo em terreno irregular. Imagem: recombiner on Visualhunt / CC BY-NC-SA

O governador Camilo Santana concedeu entrevista ao jornal O Estado de São Paulo, com grande repercussão no Ceará: Estratégia de Ciro de atacar o PT ‘está errada’, diz Camilo. Por alguns instantes, o impacto da manchete pode ser compreendido como uma defesa do partido diante das pesadas acusações feitas pelo aliado e padrinho político.

Nessas horas, para manter a prudência, sempre me recordo de Nelson Rodrigues: “Ah, como é falsa a entrevista verdadeira”. É que o entrevistado, ciente da publicidade de suas palavras, modula opiniões ao sabor das conveniências ou das responsabilidades. Isso é normal. Em certos casos é até recomendável. Imagine então quando o assunto é política.

Na entrevista ao Estadão, eis a pergunta cuja resposta gerou a manchete: Os sucessivos ataques de Ciro ao PT podem causar algum abalo na relação entre o senhor e os Ferreira Gomes? 

O que poderia dizer o governador? Que lado escolher? Ciro diz com frequência que Lula é corrupto e que a cúpula do PT é uma quadrilha. Logicamente o governador discordou da “estratégia”, sem fazer juízo sobre conteúdos. E discorda por que? Porque “nenhuma candidatura se constituirá à esquerda, centro-esquerda, se não tiver o PT como aliado”. Faz sentido. Mas na prática, o que isso significa? Camilo não deixa dúvidas: “Defendi lá atrás que Ciro fosse candidato, defendi a chapa Ciro-Haddad. Era o momento de se unir em torno de um projeto”.

Resumindo, para Camilo Santana, Ciro erra ao atacar o PT, que errou primeiro ao não apoiar Ciro (e perder para Bolsonaro). É um exercício de equilibrismo. Ocorre que o ex-presidente Lula discorda da tese. Em entrevista ao UOL na semana passada, o chefe petista disparou contra Ciro: “Toda vez que disputa uma eleição, procura um partido e entra. Não tem perfil ideológico. O PT não aceita isso”.

No Ceará, PT e PDT são aliados, com os petistas a serviço do projeto político liderado por Ciro  e Cid Gomes. Uma vez que a reprodução de uma parceria nacional nessas condições é impossível, o jeito é sustentar que a aliança cearense deveria servir de modelo, afinal, mesmo sem controlar a máquina eleitoral, o PT acabou elegendo um governador.

Acontece que o cenário nacional é bem diferente do estadual. Se no Ceará o cirismo é maior que o petismo, no Brasil, o lulismo, ainda que alquebrado por causa de escândalos de corrupção, é maior que o cirismo.

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Onda de ataques no Ceará recua: a gente se acostuma, mas não devia

Por Wanfil em Crônica

01 de outubro de 2019

A nova onda de ataques criminosos no Ceará, no final de setembro, refluiu nesta semana. É a mesma dinâmica de outras vezes: as forças de segurança e o passar dos dias atuam para o arrefecimento das ações. Tudo controlado? Difícil dizer. Na verdade, pelo histórico, a possibilidade de ainda acontecerem novos episódios dessa natureza é bastante plausível.

Como sempre, autoridades garantem que tudo é reação de criminosos contra exitosas políticas de segurança pública. Então, tá. E nessa toada, o padrão repetitivo não poupa nem mesmo este blog, onde o assunto também já banalizou. Isso me fez lembrar de uma crônica da jornalista e escritora Marina Colasanti, sobre a capacidade de nos acostumarmos a situações ruins. Segue um pequeno, mas muito apropriado, trecho:

“A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E aceitando a guerra aceita os mortos e que haja números para os mortos. E aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E não aceitando as negociações de paz aceita ler todo dia, de guerra, dos números, da longa duração”.

A verdade é que nos acostumamos a ver no noticiário imagens de ônibus em chamas, os murais com ordens de facções, toques de recolher; que aceitamos ouvir desculpas e promessas, como se tudo fosse natural ou até inevitável. Nos resignamos a esquecer, aos poucos, como era a paz. Logo no início do referido texto, Colasanti faz um chamado à reflexão que, ao mesmo tempo, o intitula: “Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.”

No vídeo abaixo, a autora explica como a crônica nasceu e arremata: “Eu não quero me acostumar”.

Eu também não.

 

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Onda de ataques no Ceará recua: a gente se acostuma, mas não devia

Por Wanfil em Crônica

01 de outubro de 2019

A nova onda de ataques criminosos no Ceará, no final de setembro, refluiu nesta semana. É a mesma dinâmica de outras vezes: as forças de segurança e o passar dos dias atuam para o arrefecimento das ações. Tudo controlado? Difícil dizer. Na verdade, pelo histórico, a possibilidade de ainda acontecerem novos episódios dessa natureza é bastante plausível.

Como sempre, autoridades garantem que tudo é reação de criminosos contra exitosas políticas de segurança pública. Então, tá. E nessa toada, o padrão repetitivo não poupa nem mesmo este blog, onde o assunto também já banalizou. Isso me fez lembrar de uma crônica da jornalista e escritora Marina Colasanti, sobre a capacidade de nos acostumarmos a situações ruins. Segue um pequeno, mas muito apropriado, trecho:

“A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E aceitando a guerra aceita os mortos e que haja números para os mortos. E aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E não aceitando as negociações de paz aceita ler todo dia, de guerra, dos números, da longa duração”.

A verdade é que nos acostumamos a ver no noticiário imagens de ônibus em chamas, os murais com ordens de facções, toques de recolher; que aceitamos ouvir desculpas e promessas, como se tudo fosse natural ou até inevitável. Nos resignamos a esquecer, aos poucos, como era a paz. Logo no início do referido texto, Colasanti faz um chamado à reflexão que, ao mesmo tempo, o intitula: “Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.”

No vídeo abaixo, a autora explica como a crônica nasceu e arremata: “Eu não quero me acostumar”.

Eu também não.