Ceará Archives - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

Ceará

PIB em queda, pandemia e as eleições no Ceará

Por Wanfil em Economia

01 de julho de 2020

O IPECE divulgou que o PIB cearense recuou 0,45% no 1º trimestre de 2020. Janeiro e fevereiro até sinalizaram com números positivos, mas em março a pandemia derrubou o índice. O fenomeno se repete por todo o país e o 2º e 3º trimestres devem ser de queda geral acentuada.

Eleições: pandemia e queda no PIB turvam cenários. Foto: TSE/divulgação. Arte: Wanfil

Numa live para a Tribuna do Ceará, ainda no começo de junho, conversei com o Diretor Geral do IPECE, João Mário de França, que apontou para esse cenário no Ceará, acrescentando que se a retomada gradual da economia fosse bem sucedida, seria possível um leve crescimento no 4º trimestre, que por coincidência, é o trimestre das eleições.

O problema é que a duração da pandemia já superou as previsões iniciais, forçando a prorrogação de iniciativas como o auxílio emergencial. Segundo o Ministério da Economia não será possível sustentar esses gastos por muito mais tempo. Governos estaduais e prefeituras então, nem se fala. Com perdas na arredação, estão em situação crítica.

Resumindo: se o dinheiro da ajuda acabar antes que a economia reaja, os efeitos da crise serão bem maiores. Acertar o timing das ações e controlar adequadamente os protocolos de retomada das atividades constituem os maiores desafios para gestores públicos.

Enquanto isso, no Congresso Nacional, tudo indica que as eleições serão adiadas do início de outubro para o meados de novembro. A pandemia armou, portanto, uma armadilha eleitoral: a intensidade da crise econômica no 4º trimestre afetará sensivelmente o eleitor, que poderá se mostrar mais esperançoso, em caso de melhora, ou mais pessimista e irritado, se tudo piorar.

Quem ganha ou quem perde eleitoralmente com isso, é impossível dizer. Vai depender em grande medida do sentimento a prevalecer: se de mudança ou de permanência. Sem esquecer que em tempos de dificuldades os radicalismos tendem a aumentar, abrindo espaço para o populismo, seja de direita ou de esquerda.

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Nos perdoe, São Francisco

Por Wanfil em Política

26 de junho de 2020

São Francisco de Assis, o homem que abdicou das riquezes materias por uma vida de simplicidade, não merecia virar nome de obra pública no Brasil. Especialmente um grande empreendimento de infraestrutura. Basta ver a transposição do Rio São Francisco.

Placa de obra com o nome de São Francisco. Foto: ALCE/divulgação. Arte: Wanfil

Após 12 anos de espera – sete dos quais, de ATRASO – as águas do São Francisco chegam ao Ceará. Foram quatro presidentes da República: Lula, Dilma, Temer e Bolsonaro. Como toda obra demorada, todos procuram ressaltar sua participação no empreendimento, mas ninguém jamais assume responsabilidade (nem pede desculpa) pelos atrasos e pelo brutal encarecimento do projeto, que custou quase R$ 11 bilhões aos brasileiros, mais que o dobro da previsão inicial.

Os governos petistas imaginaram, lá atrás, que teriam tempo de sobra, com seus, digamos, parceiros, para concluir a transposição. Temer correu para aparecer na foto, mas seu mandato foi curto. E como um dia a obra teria que finalmente acabar, coincidiu de ser agora, com Bolsonaro, em meio à pandemia.

Aliás, por falar nisso, o governador Camilo Santana informou, no próprio dia da inauguração, que devido à preocupação com a pandemia não iria ao evento com o presidente, que faz sua primeira visita oficial ao Ceará. É justo, mas Por outro lado, parece que o cerimonial da Presidência contatou oficialmente as autoridades locais – que souberam da inauguração pela imprensa – em cima da hora. Tudo muito estranho.

Não é o clima ideal para o governo estadual e o federal decidirem como os custos de operação e manutenção da obra serão divididos. Parece que nesses longos doze anos, ninguém pensou nisso, embora o Centrão que apoiou Lula, Dilma, Temer e que agora apoia Bolsonaro, seja o mesmo. É que no Brasil, o “pois é dando que se recebe” da linda Oração de São Francisco ganhou um sentido muito particular e invertido, quanto o assunto é obra pública.

Sorte nossa que Francisco é Santo e por isso mesmo não haverá de guardar mágoa.

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Tá cheio de Queiroz por aí

Por Wanfil em Corrupção

24 de junho de 2020

Fabrício Queiroz – Imagem: reprodução SBT / Arte: Wanfil

A prisão de Fabrício Queiroz resgatou notícias sobre um esporte nacional de larga tradição na política nacional: a rachadinha nos gabinetes parlamentares. A prática consiste em combinar um salário com assessores, pagar a mais alto no contracheque – com verba pública, claro – e embolsar a diferença.

Quem acompanha os bastidores mais de perto sabe ou desconfia que esses esquemas se repetem por todo o país, em volume incalculável. A própria investigação que aponta para Queiroz mostrou uma penca de deputados estaduais do Rio de Janeiro, de variadas colorações ideológicas, fazendo a mesmíssima coisa.

Queiroz tem particularidades que justificam sua notoriedade: é próximo a família Bolsonaro; há indícios de conexões com milícias, o que acrescenta um elemento de sordidez ao caso; buscou refúgio numa casa do advogado do presidente da República. Com isso, as atenções recaíram mais sobre o personagem da acusação do que sobre para a facilidade com que a rachadinha se espalha Brasil afora.

Há também uma conveniência esperta. Repare que praticamente ninguém aproveita o caso para peguntar como é que essas contratações permitem assim tantos furos de controle. E para sugerir mecanismos mais eficazes desses gastos. Será que nossos parlamentares precisam mesmo de dezenas de assessores que nem sequer cabem reunidos nos seus gabinetes? Quantos batem ponto? Trabalham mesmo? Quem é que fiscaliza isso? Hoje em dia, o pagador de impostos que precisa correr para provar ao Fisco que não é sonegador, tem que confiar na palavra dos Excelentíssimos.

As listas de servidores das assembleias estaduais e câmaras municipais no Brasil – e o Ceará não é uma exceção – estão abarrotadas de funcionários que ninguém vê ou que devolvem parte do salário. Seja pelo centro, pela direita ou pela esquerda, tá cheio de Queiroz por aí.

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A política entre sufocos e respiradores

Por Wanfil em Política

26 de Maio de 2020

Respiradores: alívio nos hospitais, sufoco na política. Foto: divulgação/MD

Se todos concordam que o mundo não será mais o mesmo depois do coronavírus, é impossível deixar de concluir que algumas coisas jamais mudarão, como governos usando instiuições públicas com fins políticos, ou governantes acusando instituições de agirem politicamente para prejudicá-los. Resultado: fica realmente difícil saber quando as instituições agem de modo técnico e quando governos falam a verdade.

Foi assim no impeachment de Collor, no mensalão, no petrolão, na Lava Jato, nos casos Celso Daniel e Mariele, e tantos outros. Quem é governista, acredita na inocência do governo e das insituições do estado por eles controladas; quem é oposição, acredita na culpa do governo e dos seus operadores. Como dizia Marcel Proust, os fatos não penetram no mundo das crenças. Acontece que, às vezes, fatos e crenças se misturam de um jeito que o cinza prevalece sobre o preto e o branco.

Por exemplo. Agora em Fortaleza, o prefeito Roberto Cláudio (PDT), acusa o uso político de instituições federais na Operação Dispneia, que investiga a compra de respiradores para o combate à Covid-19, sob suspeita de superfaturamento. E agora? Se a acusação é clássica no repertório das desculpas políticas, por outro lado, Sérgio Moro, ex-ministro da Justiça e estrela da Lava Jato, acusa o presidente Jair Bolsonaro de aparelhar a Polícia Federal com fins políticos, o que dá verossimilhança as desconfianças levantadas pelo prefeito. Sem esquecer que Roberto Cláudio é aliado de Ciro Gomes, adversário de Bolsonaro. Percebem? Pra complicar, o mesmo acontece em São Paulo, Maranhão e Rio de Janeiro. Fica tudo confuso. Quem tem razão?

Podemos tentar um apelo à lógica. Por que uma gestão já reeleita e que caminha para o final se arrsicaria tanto justo no momento em que suas ações na saúde – divergências ideológicas à parte – estão sob os holofotes da preocupação geral? Não faz sentido. No entanto, o mesmo vale para as instituições. Não apenas a PF, mas também a CGU, o MPF e a própria Justiça Federal, que atuaram juntas na Dispneia. Que um ou outro nome desses órgãos seja sucetível a pressões, tudo bem, mas acreditar que todos os envolvidos, profissionais concursados e bem pagos, seriam ao mesmo tempo assim manipulados, é complicado. Gente demais, deixaria pontas soltas.

Por enquanto, o bom senso sugere cautela. Houve erro? Ou dolo? Corrupção? Abuso de poder? Perseguição? Impossível responder agora. Acontece que o tempo dos inquéritos e de eventuais processos judiciais é diferente do tempo da política, especialmente em ano eleitoral. Por isso, o que temos nas redes sociais é uma batalha de versões. E o barulho de suas respectivas torcidas.

Para quem assiste de fora, é fundamental cobrar que tudo seja tratado com o máximo de responsabilidade e o mínimo de ilações, para que o foco na crise da saúde e na crise econômica não seja afetado.

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O lockdown envergonhado

Por Wanfil em Saúde

06 de Maio de 2020

Lockdown leva em conta a associação entre redução do isolamento e aumento do coronavírus

O governador Camilo Santana e o prefeito de Fortaleza, Roberto Cláudio, anunciaram medidas de “isolamento social rígido”, diante do avanço mais acelerado do coronavírus. O termo “lockdown” (confinamento), mundialmente popularizado pela pandemia da Covid-19, não foi utilizado.

Esse cuidado com as palavras deve ter lá as suas razões. Como eu disse em minha coluna na rádio Tribuna Band News nesta quarta-feira, “do ponto de vista político, é uma medida arriscada, já que limita momentaneamente algumas liberdades individuais, algo que pode soar antipático para uma parcela da população. Sem esquecer das pressões de alguns setores para a retomada da atividade econômica. No entanto, felizmente, a responsabilidade tem falado mais alto na maioria dos países e dos estados”.

De todo modo, parafraseando o jornalista Elio Gaspari, autor de “A ditadura envergonhada”, temos por aqui o “lockdown evnergonhado”, com a crucial diferença de que no combate ao coronavírus as medidas restritivas adotadas no Ceará têm base legal, justificativas técnicas (números e evidências científicas), imperativos morais (salvar vidas) e lógicos, pois são imprescindíveis diante do avanço da epidemia. Vergonha seria a omissão.

A razão para o lockdown no Ceará é óbvia: o crescimento verificado na curva de contágio coincide com redução da adesão ao isolamento social. Quanto mais gente circulando, maior a propagação da doença, quanto maior a sua propagação, maiores as chances de colapsar o sistema de saúde.

As autoridades afirmam que o ideal é que 70% da população aderisse ao isolamento social, mas esse índice está na casa dos 50%. Como todos sabem, um grande contongente de pessoas economicamente mais vulneráveis não têm condições de ficar em casa (as filas nas agências da Caixa Econômica comprovam isso). O tamanho desse grupo dentro da metade que não segue o isolamento pode ser determinante para a eficácia das novas regras. No entanto, todo esforço ajuda.

Volto à minha coluna na rádio: “Tempos extraordinários exigem medidas extraordinárias, e isso requer, além das ações do poder público, maturidade dos cidadãos e das instituições, especialmente os que podem ficar em casa, cada um assumindo sua cota de sacrifícios e de responsabilidade, para não colocar a vida dos outros em risco e para preservar o maior número possível de vidas”.

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Não existe imunização contra o colapso do sistema de saúde

Por Wanfil em Crônica

16 de Abril de 2020

O secretário de Saúde do Ceará, Dr. Cabeto, de competência e seriedade indiscutiveis, afirmou que o sistema de saúde colapsou, ou seja, que falta UTI. Governos correm contra o tempo para tentar viabilizar novas vagas. Com o mundo inteiro disputando insumos da área de saúde, faltam material e equipamentos para dar conta da demanda. Mesmo quem tem dinheiro sobrando, como os EUA, vive esse dilema.

Um bom amigo, curado de coronavírus, assintomático, desabafou aliviado: “Pelo menos agora estou imunizado”. Respondi, realista (pessismista, diriam alguns; alarmista, diriam outros), que isso não importa, pois se ele sofresse um infarto ou um acidente grave, correria grande risco de morrer sem os cuidados que só podem ser oferecidos numa Unidade de Terapia Intensiva.

“Mas aí seria muito azar!”. Respondi que não seria, porque as pessoas continuam tendo derrames e dengue hemorrágica, e se acidentam, e são baleadas, entre outroas coisas, necessitando ser socorridas num sistema sobrecarregado de pacientes com deficiência respiratória em decorrência do coronavírus. Falta UTI, não importa se o sujeito tem imunização, não importa o que dizem o presidente da República ou militante partidário. Falta UTI. Isso é o que significa colapso.

Outra amiga, colega de trabalho, a jornalista Isabela Martin, que apesar dos cuidados, contraiu coronvírus, sem consequências mais graves, graças a Deus, foi direto ao ponto ao relatar seu caso no Instagram: “Se há uma verdade conhecida sobre esse vírus é que se assemelha a uma roleta russa. Não dá pra saber quem será um paciente assintomático, ou de sintomas leves, e quem irá perecer da doença e dos problemas logísticos de saúde dela decorrentes”. E o título de sua publicação, resumiu tudo isso de um modo perfeito: “O coronavírus me testou. Eu não testei o coronavírus”.

Não queira testá-lo. Se puder, fique em casa.

 

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A Fortaleza de todos nós

Por Wanfil em História

13 de Abril de 2020

Mapa da Vila de Nossa Senhora da Assunção: no canto superior direito está o forte que virou Fortaleza (Arquivo Histórico Ultramarino, Portugal)

Neste dia 13 de abril de 2020, Fortaleza, a capital do Ceará, completa 294 anos de idade, conforme os registros oficiais. Seu embrião foi o Forte Schoonenborch, construído em 1649 pelos holandeses, posteriormente tomado pelos portugueses (1654), que o reconstruíram com o nome de “Forte de Nossa Senhora da Assunção”. É interessante observar como o nome, às vezes, é mesmo destino.

O pequeno forte robusteceu-se como “Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção”, reunindo as funções de provedor da segurança e defesa, com as obrigações de centro político e administrativo. O coração que irrigou de vida o seu entorno, conferindo personalidade própria o antigo povoado que tornou-se, em 13 de abril de 1726, a Vila Nova da Fortaleza de N. S.ra da Assumpssão, a Fortaleza que cresceu na luta contra inimigos e intempéries, a força do viver.

No caso de Fortaleza, pensando bem, o nome é mais que destino: é construção. A firmeza de propósito evoluiu para fortificação moral, do caráter de um povo. No Século 21, uma pandemia coloca nossa Fortaleza em estado de alerta, de luta e espera, exigindo, como fez tantas vezes em sua história, paciência e determinação da sua gente. Não é fácil, há percalços, erros e acertos, avanços e retrocessos, pois é assim que se fazem as nações e foi assim nos fortalecemos. Não será diferente agora. Passam os governos, as disputas, as modas, as pessoas, e seguimos enquanto cearenses, fortalezenses, com a mesma disposição de sempre, porque somos a Fortaleza de todos nós.

Parabéns para a nossa capital, que simboliza o nosso espírito, as experiências que dividimos, a soma das nossas regiões, de todo o Ceará.

 

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O isolamento deu certo ou errado em Fortaleza?

Por Wanfil em Saúde

08 de Abril de 2020

“Se eu estivesse em Fortaleza estaria extremamente preocupado”, disse o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, ao anunciar que a capital cearense registra a maior incidência de casos de coronavírus do Brasil: 34,7 por cada grupo de 100 mil pessoas. “Como assim? As medidas de isolamento social não surtiram efeito?” É a pergunta que mais vejo agora nas redes sociais. E com respostas para todos os gostos. O fato, entretanto, é que nada é simples de ser respondido. Em lugar nenhum.

Ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta: “Se eu estivesse em Fortaleza…”

Para começar, “registrar” a maior taxa é diferente de “ter” a maior taxa. Por todo o País, os testes são insuficientes e demoram a sair. Pode ser que Fortaleza faça mais testes e tenha uma subnotificação menor do que em outras capitais; mas pode ser que a sua posição seja mais grave, por motivos que ainda serão investigados. O que eu quero dizer é que nada está muito claro nem mesmo nos países ricos, quanto mais onde a dengue é um desafio crônico.

Pode ser – reparem que tudo é especulação – que sem a quarentena, Fortaleza estivesse em níveis italianos ou espanhóis. Quem pode garantir? Os EUA tentaram aplicar medidas brandas e agora compraram o coronavírus com Pearl Harbor e com o 11 de Setembro. E pode ser (essa é a minha aposta pessoal) que a aplicação das medidas de restrição na cidade seja mais complexa do que parece. Por uma série de razões – demográficas, sociais, econômicas e mesmo culturais – boa parcela da população não quer ou simplesmente não pode se isolar, atuando, mesmo que involuntariamente, como vetor de propagação da doença.

Diante dos números atuais, o governo do Ceará, a Secretaria da Saúde e a Prefeitura de Fortaleza reforçam os apelos para que todos tentem seguir as regras de isolamento social, seguindo as orientações dos maiores epidemiologistas e estudiosos de saúde pública do mundo. Quase metade das prefeituras cearenses decretaram estado de calamidade. O Ministério da Saúde afirmam que a epidemia será mais crítica em abril e maio. O fato é que a experiência recente e os principais especialistas do mundo em saúde pública e epimiedologia entendem, pelo menos a maioria, que apesar dos pesares e dos prejuízos, o isolamento é a única medida que retarda a velocidade do contágio, fundamental para evitar o colapso nos hospitais.

Nunca o ditado “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”, foi tão preciso para governantes e autoridades em geral como agora.

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A diferença entre Lula e Cabo Sabino

Por Wanfil em Política

06 de Março de 2020

Indignação: ao cobrar prisão imediata para o Cabo Sabino, líder do motim ilegal no CE, mas que ainda será julgado, Camilo Santana deve lembrar que Lula, condenado em 2ª instância por corrução, está solto

O governador Camilo Santana foi ao Facebook compartilhar sua indignação com o relaxamento do mandado de prisão contra o ex-deputado federal Cabo Sabino, líder do motim que provocou uma crise na segurança pública do Ceará. Segundo Camilo, é “inaceitável que alguém promova todo tipo de desordem, cometa crimes, desafie a própria Justiça, Ministério Público, Governo e sociedade, e seja mandado para casa, como se nada tivesse ocorrido”. Depois arrematou: “Esse acusado terá que responder pelos seus gravíssimos atos, pelo bem do Estado de Direito”.

Vejam como política é terreno escorregadio. Que o Cabo Sabino deva responder pelos crimes de que é acusado, ninguém discorda. Se for condenado, que cumpra a pena. Imagens e áudios é que não faltam para provar o papel dele no episódio. Mas como o motim acabou, com o próprio Sabino derrotado na votação dos amotinados para encerrar a paralisação, a prisão preventiva foi relaxada. São os ritos da Justiça.

Passada a possibilidade de prisão em flagrante, será preciso aguardar o devido julgamento. E o pior: tem que esperar pelos recursos. Com bons advogados, um processo pode levar anos ou até prescrever. É assim que funciona. Antes, era possível antecipar uma prisão a partir de condenação em segunda instância, mas o STF recentemente mudou esse entendimento. Existe até um projeto no Congresso que tenta mudar isso, mas alguns partidos são contra, para proteger seus membros enrolados com a Justiça.

O caso mais famoso é justamente o do ex-presidente Lula, liderança maior do PT, correligionário do governador cearense. Condenado mais de uma vez pelos crimes corrupção e lavagem de dinheiro, foi “mandado para casa, como se nada tivesse ocorrido”. É ou não é de causar indignação?

Uma das diferenças entre o caso do Cabo Sabino, que atentou contra a lei que proíbe motins, e Lula, de extensa ficha corrida, é que, como disse o próprio governador, Sabino ainda é acusado, e o ex-presidente, todos sabem, já é um condenado. Se condenado, como deve ser, que Sabino pague por seu crime. O mesmo tem que valer para Lula. Qualquer seletividade por causa de questões ideológicas  ou partidárias, é uma contradição tão inadmissível quanto a impunidade.

Acontece que política, como eu disse, é mesmo terreno escorregadio.

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O fim do motim no Ceará e suas implicações políticas

Por Wanfil em Política

02 de Março de 2020

Sergio Moro e Camilo Santana no Ceará: moderação política e parceria institucional mostram que falar menos e fazer mais é o melhor caminho – Foto: Alexandre Manfrim – Divulgação MD

O motim de policiais militares liderados pelo ex-deputado federal Cabo Sabino chegou ao fim do mesmo modo como começou: isolado e dividido. Tudo começou quando o grupo rejeitou o acordo de reestruturação salarial celebrado entre o governo estadual e os representantes mais conhecidos da categoria: o deputado federal Capitão Wagner, o deputado estadual Soldado Noélio, e o vereador de Fortaleza Sargento Reginauro. Um bom acordo, diga-se.

Deu no que deu. E depois de todo o desgaste, das imagens de homens encapuzados e armados impedindo a circulação de viaturas, depois de tudo, os amotinados acabaram por aceitar o projeto que já tinha sido apresentando antes da paralisação. Imagens que foram fatais para qualificar o movimento perante a opinião pública local e nacional.

A oposição que tem os movimentos de policiais como base sai, portanto, fragilizada desses eventos, mas ainda é cedo para dimensionar o tamanho do estrago, até porque segurança pública é terreno escorregadio.

O presidente Jair Bolsonaro, que atendeu aos pedidos de ajuda das autoridades cearenses, perdeu a mão quando veio a público fazer cobranças ao governo estadual, pressão desnecessária que gerou apreensão, inclusive, em outros estados.

O senador Cid Gomes, que se recupera bem dos tiros que levou ao avançar com uma retroescavadeira sobre os amotinados, mostrou ao país o que não deve ser feito em situações dessa natureza. Por sorte, o pior não aconteceu. Prevaleceu, felizmente, a postura adotada pelo o governador Camilo Santana e pelo ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, que demonstraram equilíbrio, mesmo com todas as pressões do ambiente politicamente polarizado no Brasil, evitando declarações que agravassem a situação, mas agindo sem hesitar dentro dos seus papéis institucionais, apontando a ilegalidade da paralisação.

O fim da paralisação tem implicações políticas – e até eleitorais – que ainda estão em plena formatação, mas tudo isso leva mais um tempo para ser digerido. Agora, nesse primeiro momento após a crise, as atenções se voltam para os processos administrativos e criminais envolvendo os amotinados, que também tem potencial político, conforme sejam conduzido. Nesse caso, quanto mais transparência e serenidade, melhor.

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O fim do motim no Ceará e suas implicações políticas

Por Wanfil em Política

02 de Março de 2020

Sergio Moro e Camilo Santana no Ceará: moderação política e parceria institucional mostram que falar menos e fazer mais é o melhor caminho – Foto: Alexandre Manfrim – Divulgação MD

O motim de policiais militares liderados pelo ex-deputado federal Cabo Sabino chegou ao fim do mesmo modo como começou: isolado e dividido. Tudo começou quando o grupo rejeitou o acordo de reestruturação salarial celebrado entre o governo estadual e os representantes mais conhecidos da categoria: o deputado federal Capitão Wagner, o deputado estadual Soldado Noélio, e o vereador de Fortaleza Sargento Reginauro. Um bom acordo, diga-se.

Deu no que deu. E depois de todo o desgaste, das imagens de homens encapuzados e armados impedindo a circulação de viaturas, depois de tudo, os amotinados acabaram por aceitar o projeto que já tinha sido apresentando antes da paralisação. Imagens que foram fatais para qualificar o movimento perante a opinião pública local e nacional.

A oposição que tem os movimentos de policiais como base sai, portanto, fragilizada desses eventos, mas ainda é cedo para dimensionar o tamanho do estrago, até porque segurança pública é terreno escorregadio.

O presidente Jair Bolsonaro, que atendeu aos pedidos de ajuda das autoridades cearenses, perdeu a mão quando veio a público fazer cobranças ao governo estadual, pressão desnecessária que gerou apreensão, inclusive, em outros estados.

O senador Cid Gomes, que se recupera bem dos tiros que levou ao avançar com uma retroescavadeira sobre os amotinados, mostrou ao país o que não deve ser feito em situações dessa natureza. Por sorte, o pior não aconteceu. Prevaleceu, felizmente, a postura adotada pelo o governador Camilo Santana e pelo ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, que demonstraram equilíbrio, mesmo com todas as pressões do ambiente politicamente polarizado no Brasil, evitando declarações que agravassem a situação, mas agindo sem hesitar dentro dos seus papéis institucionais, apontando a ilegalidade da paralisação.

O fim da paralisação tem implicações políticas – e até eleitorais – que ainda estão em plena formatação, mas tudo isso leva mais um tempo para ser digerido. Agora, nesse primeiro momento após a crise, as atenções se voltam para os processos administrativos e criminais envolvendo os amotinados, que também tem potencial político, conforme sejam conduzido. Nesse caso, quanto mais transparência e serenidade, melhor.