Fortaleza Archives - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

Fortaleza

As marchas dos insensatos no Ceará: protestos diferentes, mas iguais

Por Wanfil em Política

08 de junho de 2020

A Parábola dos Cegos, de Pieter Bruegel. Metáfora ideal para os protestos em meio à pandemia

Motivos para protestar, no Brasil e no mundo, não faltam. Aliás, o fenômeno dos protestos após a massificação da internet tem algumas características intrigantes: a descentralização, as causas que se misturam, a eventual violência de grupos radicais e confrontos com tropas de choque, o repúdio aos partidos políticos (que tentam pegar carona de longe – ou sem mostrar as bandeiras, disfarçados – nesses movimentos), a ampla cobertura… Mas isso fica para outro post. Agora o que interessa aqui é observar os mais recentes protestos ocorridos em Fortaleza.

Em plena pandemia do coronavírus, que já causou 4 mil mortes no Ceará, pequenos grupos de militantes políticos na capital promovem manifestações contra ou a favor do governo Jair Bolsonaro em Fortaleza, indiferentes aos cuidados com a saúde pública.

Os dois lados se colocam igualmente no papel de inocentes vítimas da suposta truculência da Polícia Militar, como se a dispersão de tais aglomerações não fosse algo previsível e esperado, uma obrigação mesmo do poder público. Na verdade, esses grupos contam exatamente com isso (e com a prisão de um ou outro participante) para choramingar seus discursos e agitar simpatizantes nas redes sociais.

E assim, bolsonaristas acusam Camilo Santana de ser autoritário, apresentando-se como defensores das liberdades individuais e dos mais pobres (principais vítimas da crise econômica); enquanto esquerdistas acusam o governador de ser conivente com a violência policial (fetiche ideológico útil a ideia de “resistência”), dizendo-se defensores da democracia contra o fascismo.

Naturalmente, a pandemia reduz a adesão a esses protestos. Por outro lado, a exaltação ao radicalismo segue como principal meio de mobilização para esses grupos. Na tentativa de superar isso, lideranças nacionais da oposição, um tanto carentes de credibilidade, vez por outra falam em união contra os preocupantes ataques do presidente bolsonaro às instituições democráticas, mas não conseguem se entender, pois competem eleitoralment entre si. Os apoiadores do presidente apostam nessa divisão entre opostirores e nas constantes crises políticas para dispersar as atenções.

Já o distinto público, a famosa maioria silenciosa, esta continua a esperar – como pode e quando pode – que a situação melhore e a pandemia recue, apesar de tudo isso e de todos esses.

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A política entre sufocos e respiradores

Por Wanfil em Política

26 de Maio de 2020

Respiradores: alívio nos hospitais, sufoco na política. Foto: divulgação/MD

Se todos concordam que o mundo não será mais o mesmo depois do coronavírus, é impossível deixar de concluir que algumas coisas jamais mudarão, como governos usando instiuições públicas com fins políticos, ou governantes acusando instituições de agirem politicamente para prejudicá-los. Resultado: fica realmente difícil saber quando as instituições agem de modo técnico e quando governos falam a verdade.

Foi assim no impeachment de Collor, no mensalão, no petrolão, na Lava Jato, nos casos Celso Daniel e Mariele, e tantos outros. Quem é governista, acredita na inocência do governo e das insituições do estado por eles controladas; quem é oposição, acredita na culpa do governo e dos seus operadores. Como dizia Marcel Proust, os fatos não penetram no mundo das crenças. Acontece que, às vezes, fatos e crenças se misturam de um jeito que o cinza prevalece sobre o preto e o branco.

Por exemplo. Agora em Fortaleza, o prefeito Roberto Cláudio (PDT), acusa o uso político de instituições federais na Operação Dispneia, que investiga a compra de respiradores para o combate à Covid-19, sob suspeita de superfaturamento. E agora? Se a acusação é clássica no repertório das desculpas políticas, por outro lado, Sérgio Moro, ex-ministro da Justiça e estrela da Lava Jato, acusa o presidente Jair Bolsonaro de aparelhar a Polícia Federal com fins políticos, o que dá verossimilhança as desconfianças levantadas pelo prefeito. Sem esquecer que Roberto Cláudio é aliado de Ciro Gomes, adversário de Bolsonaro. Percebem? Pra complicar, o mesmo acontece em São Paulo, Maranhão e Rio de Janeiro. Fica tudo confuso. Quem tem razão?

Podemos tentar um apelo à lógica. Por que uma gestão já reeleita e que caminha para o final se arrsicaria tanto justo no momento em que suas ações na saúde – divergências ideológicas à parte – estão sob os holofotes da preocupação geral? Não faz sentido. No entanto, o mesmo vale para as instituições. Não apenas a PF, mas também a CGU, o MPF e a própria Justiça Federal, que atuaram juntas na Dispneia. Que um ou outro nome desses órgãos seja sucetível a pressões, tudo bem, mas acreditar que todos os envolvidos, profissionais concursados e bem pagos, seriam ao mesmo tempo assim manipulados, é complicado. Gente demais, deixaria pontas soltas.

Por enquanto, o bom senso sugere cautela. Houve erro? Ou dolo? Corrupção? Abuso de poder? Perseguição? Impossível responder agora. Acontece que o tempo dos inquéritos e de eventuais processos judiciais é diferente do tempo da política, especialmente em ano eleitoral. Por isso, o que temos nas redes sociais é uma batalha de versões. E o barulho de suas respectivas torcidas.

Para quem assiste de fora, é fundamental cobrar que tudo seja tratado com o máximo de responsabilidade e o mínimo de ilações, para que o foco na crise da saúde e na crise econômica não seja afetado.

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O lockdown envergonhado

Por Wanfil em Saúde

06 de Maio de 2020

Lockdown leva em conta a associação entre redução do isolamento e aumento do coronavírus

O governador Camilo Santana e o prefeito de Fortaleza, Roberto Cláudio, anunciaram medidas de “isolamento social rígido”, diante do avanço mais acelerado do coronavírus. O termo “lockdown” (confinamento), mundialmente popularizado pela pandemia da Covid-19, não foi utilizado.

Esse cuidado com as palavras deve ter lá as suas razões. Como eu disse em minha coluna na rádio Tribuna Band News nesta quarta-feira, “do ponto de vista político, é uma medida arriscada, já que limita momentaneamente algumas liberdades individuais, algo que pode soar antipático para uma parcela da população. Sem esquecer das pressões de alguns setores para a retomada da atividade econômica. No entanto, felizmente, a responsabilidade tem falado mais alto na maioria dos países e dos estados”.

De todo modo, parafraseando o jornalista Elio Gaspari, autor de “A ditadura envergonhada”, temos por aqui o “lockdown evnergonhado”, com a crucial diferença de que no combate ao coronavírus as medidas restritivas adotadas no Ceará têm base legal, justificativas técnicas (números e evidências científicas), imperativos morais (salvar vidas) e lógicos, pois são imprescindíveis diante do avanço da epidemia. Vergonha seria a omissão.

A razão para o lockdown no Ceará é óbvia: o crescimento verificado na curva de contágio coincide com redução da adesão ao isolamento social. Quanto mais gente circulando, maior a propagação da doença, quanto maior a sua propagação, maiores as chances de colapsar o sistema de saúde.

As autoridades afirmam que o ideal é que 70% da população aderisse ao isolamento social, mas esse índice está na casa dos 50%. Como todos sabem, um grande contongente de pessoas economicamente mais vulneráveis não têm condições de ficar em casa (as filas nas agências da Caixa Econômica comprovam isso). O tamanho desse grupo dentro da metade que não segue o isolamento pode ser determinante para a eficácia das novas regras. No entanto, todo esforço ajuda.

Volto à minha coluna na rádio: “Tempos extraordinários exigem medidas extraordinárias, e isso requer, além das ações do poder público, maturidade dos cidadãos e das instituições, especialmente os que podem ficar em casa, cada um assumindo sua cota de sacrifícios e de responsabilidade, para não colocar a vida dos outros em risco e para preservar o maior número possível de vidas”.

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A Fortaleza de todos nós

Por Wanfil em História

13 de Abril de 2020

Mapa da Vila de Nossa Senhora da Assunção: no canto superior direito está o forte que virou Fortaleza (Arquivo Histórico Ultramarino, Portugal)

Neste dia 13 de abril de 2020, Fortaleza, a capital do Ceará, completa 294 anos de idade, conforme os registros oficiais. Seu embrião foi o Forte Schoonenborch, construído em 1649 pelos holandeses, posteriormente tomado pelos portugueses (1654), que o reconstruíram com o nome de “Forte de Nossa Senhora da Assunção”. É interessante observar como o nome, às vezes, é mesmo destino.

O pequeno forte robusteceu-se como “Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção”, reunindo as funções de provedor da segurança e defesa, com as obrigações de centro político e administrativo. O coração que irrigou de vida o seu entorno, conferindo personalidade própria o antigo povoado que tornou-se, em 13 de abril de 1726, a Vila Nova da Fortaleza de N. S.ra da Assumpssão, a Fortaleza que cresceu na luta contra inimigos e intempéries, a força do viver.

No caso de Fortaleza, pensando bem, o nome é mais que destino: é construção. A firmeza de propósito evoluiu para fortificação moral, do caráter de um povo. No Século 21, uma pandemia coloca nossa Fortaleza em estado de alerta, de luta e espera, exigindo, como fez tantas vezes em sua história, paciência e determinação da sua gente. Não é fácil, há percalços, erros e acertos, avanços e retrocessos, pois é assim que se fazem as nações e foi assim nos fortalecemos. Não será diferente agora. Passam os governos, as disputas, as modas, as pessoas, e seguimos enquanto cearenses, fortalezenses, com a mesma disposição de sempre, porque somos a Fortaleza de todos nós.

Parabéns para a nossa capital, que simboliza o nosso espírito, as experiências que dividimos, a soma das nossas regiões, de todo o Ceará.

 

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O isolamento deu certo ou errado em Fortaleza?

Por Wanfil em Saúde

08 de Abril de 2020

“Se eu estivesse em Fortaleza estaria extremamente preocupado”, disse o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, ao anunciar que a capital cearense registra a maior incidência de casos de coronavírus do Brasil: 34,7 por cada grupo de 100 mil pessoas. “Como assim? As medidas de isolamento social não surtiram efeito?” É a pergunta que mais vejo agora nas redes sociais. E com respostas para todos os gostos. O fato, entretanto, é que nada é simples de ser respondido. Em lugar nenhum.

Ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta: “Se eu estivesse em Fortaleza…”

Para começar, “registrar” a maior taxa é diferente de “ter” a maior taxa. Por todo o País, os testes são insuficientes e demoram a sair. Pode ser que Fortaleza faça mais testes e tenha uma subnotificação menor do que em outras capitais; mas pode ser que a sua posição seja mais grave, por motivos que ainda serão investigados. O que eu quero dizer é que nada está muito claro nem mesmo nos países ricos, quanto mais onde a dengue é um desafio crônico.

Pode ser – reparem que tudo é especulação – que sem a quarentena, Fortaleza estivesse em níveis italianos ou espanhóis. Quem pode garantir? Os EUA tentaram aplicar medidas brandas e agora compraram o coronavírus com Pearl Harbor e com o 11 de Setembro. E pode ser (essa é a minha aposta pessoal) que a aplicação das medidas de restrição na cidade seja mais complexa do que parece. Por uma série de razões – demográficas, sociais, econômicas e mesmo culturais – boa parcela da população não quer ou simplesmente não pode se isolar, atuando, mesmo que involuntariamente, como vetor de propagação da doença.

Diante dos números atuais, o governo do Ceará, a Secretaria da Saúde e a Prefeitura de Fortaleza reforçam os apelos para que todos tentem seguir as regras de isolamento social, seguindo as orientações dos maiores epidemiologistas e estudiosos de saúde pública do mundo. Quase metade das prefeituras cearenses decretaram estado de calamidade. O Ministério da Saúde afirmam que a epidemia será mais crítica em abril e maio. O fato é que a experiência recente e os principais especialistas do mundo em saúde pública e epimiedologia entendem, pelo menos a maioria, que apesar dos pesares e dos prejuízos, o isolamento é a única medida que retarda a velocidade do contágio, fundamental para evitar o colapso nos hospitais.

Nunca o ditado “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”, foi tão preciso para governantes e autoridades em geral como agora.

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Senador Cid Gomes surpreende e se licencia do cargo. O que realmente aconteceu?

Por Wanfil em Eleições 2020

04 de dezembro de 2019

Senador Cid Gomes (PDT) – Agência Senado

É a pergunta que todos se fazem após o pedido de licença feito antes mesmo de Cid Gomes completar um ano no Senado, às vésperas do recesso parlamentar e em meio a votações importantes no Congresso.

Negócios particulares e reestruturação do PDT no Ceará foram as justificativas anunciadas pela imprensa. A decisão, obviamente, antecipa o processo eleitoral junto ao grupo governista, algo que não combina com o estilo – e o histórico – do próprio Cid. Fica no ar uma impressão de urgência.

Não é o caso de falar em precipitação, que isso seria coisa de amador. Pelo visto, a situação exige dedicação integral de quem realmente decide (quase escrevi “deCID”). Apesar de surpreendente, esse movimento mais radical é até compreensível se levarmos em consideração alguns fatores:

– o governo federal como adversário combativo altera o cenário na comparação com outras eleições;
– opositores articulando apoio nacional de partidos que são aliados locais;
– o ressentimento petista;
– vácuo de liderança no PDT;
– disputas internas no imenso grupo governista;
– indefinições no interior;
– o avanço do PSD na base governista estadual;
– nomes com diferentes padrinhos aspirando à sucessão de Roberto Cláudio;
– falta de candidatos competitivos entre os aliados na capital;
– pesquisas, pesquisas e pesquisas.

É claro que algo mais pode ter acontecido, mas ir além desses pontos, nesse momento, é especular além da conta. Entretanto, como em política gestos possuem significados que vão além das explicações formais, as especulações nos bastidores serão inevitáveis nos próximos dias.

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Todo castigo é pouco

Por Wanfil em Legislação

20 de novembro de 2019

Parece gado no curral, mas são eleitores obrigados a cadastrar digitais, sob pena de punição – Foto: Tribuna do Ceará

O castigo é a sina do eleitor brasileiro. Mesmo que não queira, ainda que repudie os candidatos e odeie a política, ou considere os partidos farinha do mesmo saco, esse eleitor frustrado, ressentido, indiferente e apático é obrigado a votar. E como se não bastasse, em nome da modernidade, é forçado a fazer o cadastro biométrico, de modo que as urnas eletrônicas possam identificar o eleitor pelas digitais. No Brasil, até o suprassumo da tecnologia serve à nossa obsessão pela burocracia.

Por isso, nos últimos dias em Fortaleza, levas de eleitores desolados aguardam em filas quilométricas a vez de digitalizarem seus polegares. Quem não o fizer, não importa o motivo, se não cumprir com a obrigação eleitoral, terá o título cancelado e ficará impossibilitado de votar e ser votado, não poderá emitir passaporte, nem fazer matrícula em instituições públicas de ensino, será proibido de contrair empréstimos em bancos oficiais, receber o bolsa família ou assumir cargo público. E se já for servidor, não receberá o salário até regularizar a situação. Tá bom assim? Tome castigo.

Agora reparem a diferença: no lugar do eleitor, pense agora nos excelentíssimos eleitos. Não em qualquer um, mas nos que são corruptos notórios, desses que respondem a vários inquéritos ou que até tenham sido condenados por desvios milionários ou cassados por crime de responsabilidade. Pois bem, esses eleitos, apesar de tudo o que fizeram, a despeito da própria notoriedade, ainda assim terão direito a uma aposentadoria com salário nababesco e repleta de regalias. E mesmo que tenham sido sentenciados em segunda instância por lavagem de dinheiro, de acordo com a mais recente alteração de jurisprudência no STF, os corruptos terão o benefício da presunção de inocência até que os processos transitem em julgado. Isso se as ações não prescreverem no meio do caminho.

Castigo rápido, só para eleitores. Pela lei brasileira, quem merece desconfiança é o cidadão obrigado a votar.

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A politização da tragédia

Por Wanfil em Fortaleza

17 de outubro de 2019

Edifício desaba em Fortaleza: tragédia que naturalmente ronda a política – Foto: reprodução / Tribuna do Ceará

O desabamento de mais um edifício residencial em Fortaleza, com repercussão nacional, trouxe à tona questionamentos pertinentes sobre a Lei da Inspeção Predial. Mesmo aprovada, a lei nunca foi efetivada. Autoridades pedem cautela para fazer esse debate, pois a prioridade agora é cuidar das vítimas. Perfeito, nada a reparar. Acontece que, sentindo o potencial de desgaste para o executivo municipal, alguns aliados já ensaiam discursos preventivos.

Leio no jornal Diário do Nordeste que o deputado estadual Queiroz Filho (PDT) disse o seguinte na Assembleia Legislativa, um dia após o desabamento: “Os poderes públicos não podem ter responsabilidade também sobre a manutenção da propriedade privada”.  “É inadmissível, em dias como hoje, as pessoas querendo surfar na tragédia dos outros”. O parlamentar criticou ainda os que teriam “politizado um assunto de vida humana”. Quem, afinal, fez isso? Quem politiza e surfa sobre as vidas perdidas nos escombros do Edifício Andrea?

Antes de ser deputado, Queiroz Filho foi chefe de gabinete do prefeito de Fortaleza, Roberto Cláudio. Por isso é compreensível o seu posicionamento defensivo. É preciso, no entanto, cuidado para não exagerar. Cobrar explicações sobre a Lei da Inspeção Predial não corresponde a acusar ninguém pelo desastre, até porque o assunto tem sua complexidade, mas a buscar soluções para evitar que outros casos aconteçam. Nada mais natural e oportuno diante do que aconteceu.

É incrível como políticos politizam tragédias apontando a suposta politização dessas mesmas tragédias.

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O alerta do IPEA sobre a violência no Ceará

Por Wanfil em Segurança

05 de agosto de 2019

O IPEA divulgou nesta segunda-feira a nova edição do Atlas da Violência, com números relativos ao ano de 2017. Fortaleza surge como a capital com maior taxa de homicídios do país: 87,9 mortes para cada 100 mil habitantes. Comparando com capitais nordestinas de tamanho parecido, Salvador tem 63,5 e Recife 58,4.  Maracanaú figura como a cidade (com população acima de 100 mil habitantes) mais violenta do Brasil: taxa de 145,7. Um registro: a menor taxa entre capitais foi em São Paulo: 13,2. E no Rio de Janeiro foi de 35,6.

Vale lembrar mais uma vez que esses dados são referentes a 2017. Muita coisa mudou desde então. O próprio IPEA cita a criação da Secretaria de Administração Penitenciária no Ceará, que endureceu as regras nos presídios, levando a um “inesperado armistício entre os grupos criminosos, que pode ocasionar uma forte redução dos homicídios no estado, pelo menos enquanto durar a trégua, que é sempre instável“.

É bem provável que na edição do Atlas no ano que vem o Estado recue alguns pontos – como já indicam os índices divulgados pela Secretaria de Segurança – para uma situação mais parecida com outros estados do próprio Nordeste, que ainda é muito grave. Trata-se, claro, de algo positivo, mas um exame no histórico do Atlas da Violência ao longo dos anos mostra que oscilações já foram registradas anteriormente, cada uma com circunstâncias específicas.

Não é o caso de ser pessimista, mas de ficar atento para evitar precipitações. Toda atenção é pouca para não repetir erros de 2016, quando o acordo entre esses grupos “maquiou” números que depois estouraram na guerra de 2017 (ano do recorde de homicídios no Ceará). Reconhecer agora que o pior já passou, ou que pelo menos arrefeceu, não significa ignorar que as coisas, nesse campo, ainda estão muito distantes do mínimo aceitável.

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Boechat e o jornalismo opinativo

Por Wanfil em Crônica

11 de Fevereiro de 2019

Ricardo Boechat em ação: a opinião como diálogo com o público. Foto: divulgação

Lembro de uma palestra do jornalista Ricardo Boechat na inauguração da Tribuna BandNews (Fortaleza) sobre o jornalismo e o rádio. Isso foi em 2013. Boechat defendeu que apresentadores – ou âncoras – pudessem opinar. Seria uma forma de aproximar o veículo (e a própria atividade jornalística) do público. Obviamente, as opiniões precisariam ter o respaldo da experiência profissional e embasamento nos fatos.

Quem faz jornalismo opinativo de verdade (assumindo posicionamentos) sabe as responsabilidades que assume e os riscos que corre: por um lado, checar e checar insistentemente as informações, contribuir no aprofundamento dos temas de interesse geral, por outro, criar antipatias, desagradar grupos, errar o tom, cometer injustiças, ser processado. Riscos que valem, pois muitas vezes a opinião é o complemento da notícia.

Boechat conseguiu unir essa disposição a credibilidade do apresentador. O segredo para isso ele mesmo revelou nesse evento que mencionei: priorizar os cidadãos e não as autoridades. Saber ouvir para dar voz. Não só isso. Quem o escutava com frequência percebia que sua crítica não se confundia com ressentimentos, torcida, panfletagem, causas particulares, nem se limitava a um determinado grupo político.

Por isso tudo a partida trágica do jornalista apresentador que opinava sem se omitir jamais tocou a tantas pessoas que manifestaram na imprensa e nas redes a tristeza de perder alguém que lhes parecia, mesmo à distância, próximo como um amigo com quem conversassem regularmente.

A saudade se manifestou instantânea, prova de que Boechat estava certo quando defendia a interação honesta com o público. Seu silêncio prematuro é difícil de ser assimilado.

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Boechat e o jornalismo opinativo

Por Wanfil em Crônica

11 de Fevereiro de 2019

Ricardo Boechat em ação: a opinião como diálogo com o público. Foto: divulgação

Lembro de uma palestra do jornalista Ricardo Boechat na inauguração da Tribuna BandNews (Fortaleza) sobre o jornalismo e o rádio. Isso foi em 2013. Boechat defendeu que apresentadores – ou âncoras – pudessem opinar. Seria uma forma de aproximar o veículo (e a própria atividade jornalística) do público. Obviamente, as opiniões precisariam ter o respaldo da experiência profissional e embasamento nos fatos.

Quem faz jornalismo opinativo de verdade (assumindo posicionamentos) sabe as responsabilidades que assume e os riscos que corre: por um lado, checar e checar insistentemente as informações, contribuir no aprofundamento dos temas de interesse geral, por outro, criar antipatias, desagradar grupos, errar o tom, cometer injustiças, ser processado. Riscos que valem, pois muitas vezes a opinião é o complemento da notícia.

Boechat conseguiu unir essa disposição a credibilidade do apresentador. O segredo para isso ele mesmo revelou nesse evento que mencionei: priorizar os cidadãos e não as autoridades. Saber ouvir para dar voz. Não só isso. Quem o escutava com frequência percebia que sua crítica não se confundia com ressentimentos, torcida, panfletagem, causas particulares, nem se limitava a um determinado grupo político.

Por isso tudo a partida trágica do jornalista apresentador que opinava sem se omitir jamais tocou a tantas pessoas que manifestaram na imprensa e nas redes a tristeza de perder alguém que lhes parecia, mesmo à distância, próximo como um amigo com quem conversassem regularmente.

A saudade se manifestou instantânea, prova de que Boechat estava certo quando defendia a interação honesta com o público. Seu silêncio prematuro é difícil de ser assimilado.