literatura Archives - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

literatura

Meus heróis e o beijo gay dos quadrinhos

Por Wanfil em Crônica

10 de setembro de 2019

O heroísmo controverso dos quadrinhos e a liberdade de escolher a quem admirar

Cazuza, o cantor e compositor, disse que seus heróis (os dele) morreram de overdose. Pois bem, os meus morreriam de tédio nos dias de hoje. Basta ver o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivela, que tentou impedir a comercialização de uma revista em quadrinhos sob pretexto de salvar crianças de uma eventual exposição a um beijo homossexual. No meu tempo de criança, havia vilões como Lex Luthor, o sujeito sem poderes que encarava o Super-Homem. Agora o vilão é Marcelo Crivela. É de matar qualquer herói de tédio.

Mais tarde, já adolescente, li Conan, o Bárbaro, sujeito grosseirão que encerrava discussões com uma espada. Decapitações e bocas vertendo sangue em golfadas eram imagens banais, mas que eu me lembre a circulação de Conan, herói hétero, nunca foi questionada. De todo modo, não me tornei um carniceiro.

E daí? Como fica o direito dos pais que são contrários ao beijo gay? Ora, está garantido. Só não pode ser imposto a um evento privado, no caso, a Bienal do Livro (aliás, que me perdoem os fãs, mas bienais do livro abarrotadas de revistas em quadrinhos revelam a falta de prestígio – ou de qualidade – da nossa literatura). Eu procuro saber o que minhas filhas estão lendo, embora esteja ciente do mundo de informações circulando ao alcance delas, e que independente das minhas preferências e preocupações. O segredo é trabalhar com elas, desde cedo, a noção de elegância na sintaxe. É meio caminho andado para evitar porcarias.

Bem, cada um sabe de si, sem a necessidade da interferência autoritária dos governantes de plantão, sejam de esquerda ou de direita. Alias, por falar em ideologia, peço licença para uma digressão. É curioso ver o pessoal que não aceita a nomeação do novo reitor da Universidade Federal do Ceará, escolhido dentro da mais absoluta legalidade, argumentar que o Crivela desrespeita a lei. Pois é, o fato de não gostar de uma lei, não a invalida. Trata-se de um princípio. Vale para a liberdade de expressão, vale para nomeações em instituições de ensino superior. O resto é proselitismo. Fim da digressão.

Adulto, não leio mais quadrinhos. Acho aqueles uniformes e apelidos ridículos. Mas preservo um ideal de heroísmo, fácil de reconhecer na disposição de muitas pessoas em querer ajudar os outros e que se manifesta até mesmo nos pequenos gestos. Na verdade, no meu caso, são minhas filhas, ainda sob os meus cuidados, vivendo entre a infância e a adolescência, que me socorrem e me ajudam a corrigir velhos preconceitos discriminatórios do passado. São minhas heroínas. Cada um tem os heróis que escolhe.

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O Brasil e o espírito do tempo

Por Wanfil em Cultura

27 de Abril de 2019

“Escritores e Leviatã” é o título de um pequeno ensaio escrito por George Orwell em 1948 (o mesmo ano em que ele publicou 1984). Pois bem, logo no início do texto, uma passagem chamou a minha atenção:

“Não quero aqui expressar uma opinião favorável ou contrária ao patrocínio estatal das artes, mas apenas salientar que o tipo de Estado que nos governa deve depender em parte da atmosfera intelectual dominante: quer dizer, nesse contexto, deve depender em parte da atitude dos próprios escritores e artistas, e de sua disposição ou não de manter vivo o espírito do liberalismo”.

Não me interessa agora o antagonismo entre os “patrocínios estatais das artes” e o “espírito do liberalismo”, mas sim a relação entre a “atmosfera intelectual” e o “tipo de de Estado que nos governa”. Repare: Orwell não indaga sobre o tipo de sujeito ou de partido que está no poder, mas sobre o pensamento predominante na forma de organização estatal que domina o pedaço. É algo mais profundo e duradouro.

O paralelismo foi automático: Qual tipo de Estado governa o Brasil? E o Ceará? Pois é. Respostas, quaisquer que sejam, não podem ignorar algumas características: ineficiente, paternalista, burocrático, corporativista.

Qual tipo de atmosfera intelectual prevalece no país desde algumas décadas? Com exceções que sempre confirmam a regra, certas distinções são inescapáveis: partidária, ativista, burocrática, corporativista.

Não existe efeito sem causa. Orwell tinha razão.

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Queremos ser maus, mas não queremos ser ridículos

Por Wanfil em Cultura

21 de junho de 2018

O STF invalidou nesta quinta-feira o trecho da Lei Eleitoral que visava impedir veículos de comunicação de utilizarem sátiras e montagens com candidatos. Opiniões também estariam proibidas.

A regra contra o humor foi aprovada em 2009 e suspensa pelo próprio STF em 2010, até o presente julgamento da ação presentada pela Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert).

Ao ler essa notícia pitoresca, me lembrei de uma carta escrita por ninguém menos que Molière, no Século 17, para defender a encenação da comédia teatral O Tartufo, que havia sido proibida a pedido da Igreja Católica, e de alguns nobres e burgueses que se sentiram ofendidos com seus personagens.

A peça, que leio agora, faz uma crítica à hipocrisia que se vale da religião para alimentar vaidades. Na carta, Moliére denuncia a motivação daqueles que o censuram:
“É atingir o vício em cheio o expô-lo à zombaria de todos. Não nos causa abalo o sermos criticados; mas não se tolera o escárnio. Queremos ser maus, mas não queremos ser ridículos”.

A comédia, como gênero, foi julgada na França em 1667; no Brasil, em 2018.

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Cardápio literário: esqueça um pouco o Facebook e experimente Oblómov

Por Wanfil em Livros

02 de setembro de 2017

Oblómov: o que é essencial resiste ao teste do tempo

As atenções do público cearense que gosta de opinar nas redes virtuais se concentraram, na última semana, sobre divagações a respeito de um cardápio de restaurante e a indignação com a prisão de um estudante induzido por agente público a oferecer suborno. Na verdade, essas atenções, ao contrário da aparência de unidade, se dispersaram na esterilidade das discussões efêmeras, substituídas na próxima semana por outras polêmicas igualmente passageiras. E assim andamos em círculos sem sair do lugar.

Por isso mesmo é cada vez mais importante destacar conteúdos vacinados contra essa espécie de consumismo, capazes de assinalar reflexões mais pertinentes sobre valores permanentes. A literatura é campo fértil nesse sentido. Sim, existem os livros descartáveis e os modismos, mas a literatura que resiste ao passar teste do tempo é valiosa justamente por não centrarem foco no efêmero.

É o caso, por exemplo, do excepcional Oblómov, de Ivan Gontcharóv (1812-1891), que li recentemente, em que o personagem que dá nome a obra é caracterizado por inabalável preguiça que o leva a um gradual decadência financeira, física e psicológica, vivendo somente do que ainda é produzido pelos camponeses na propriedade rural herdada da família, mas roubado por oportunistas que se aproveitam de seu desinteresse pelos negócios.

Seu único e verdadeiro amigo é Stolz, criado numa fazenda vizinha, ensinado desde cedo pelo pai alemão a trabalhar para ter autonomia, tipo de educação criticada pela cuidadosa mãe de Oblómov como fruto de uma falta de classe, coisa típicas de burgueses grosseiros que se rebaixavam ao agirem como camponeses, conferindo pessoalmente a produção, e capazes até de criar universidades onde gente sem pedigree pudessem, vejam só, estudar. Vez por outra Oblómov, sujeito de inteligência privilegiada, parecia animado em reagir, fosse por causa de uma paixão ou impelido pela aflição das contas que venciam, mas depois voltava ao seu estado normal.

Bem vista a trama, trata-se de uma ácida comparação entre Rússia e Alemanha, que mira o espírito mesmo dessas nações. A indolência de uma elite russa que aspirava reproduzir a corte francesa e o pragmatismo alemão; o desejo russo de parar no tempo e o ímpeto alemão de seguir em frente. Países, podemos concluir, não vivem seus problemas ou prosperam por causa deste ou daquele político, desta ou daquela indústria, mas pelo conjunto de sua formação espiritual, moral e cultural.

Dia dessas a economista Mônica de Bolle, no artigo “A Cama de Oblómov”, comparou o Brasil com o desalentado anti-heroi de Gontcharóv, deitado eternamente a esperar por dias melhores, sem cuidar dos problemas reais que vive, sem querer entender que não é possível gastar mais do que se tem.

É claro que redes sociais são espaços pouco afeitos a esse tipo de discussão. Mas o que vale aqui é a lembrança de que existem outras opções para quem não deseja passar as semanas confundindo o trivial com o essencial.

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Dica de livro: Stoner

Por Wanfil em Livros

17 de junho de 2017

Simplesmente fantástico. Emocionante, pungente, forte e delicado.

Cheguei a Stoner, de John Williams, por indicação de uma amiga, a jornalista Cláudia Albuquerque. Não conhecia a obra (publicada em 1965) nem o autor, mas se ela (que escreve muito bem) recomendava o livro, então valeria a leitura, intuí com acerto. Lá encontrei tudo o que admiro num escritor: elegância, esmero, paciência nos pormenores que sempre se revelam, cedo ou tarde, fundamentais. Williams é ao mesmo tempo simples e sofisticado na construção de imagens, personagens e sentimentos. E isso não é fácil.

Para aumentar ainda mais o brilho da narrativa, o personagem título, William Stoner, não lidera revoltas nem é perseguido por governos opressores, não é porta-voz de causas nem símbolo de lutas contra preconceitos, é somente um professor universitário sem grandes obras, de poucos amigos e limitada conexão com a família. Parece demasiadamente banal, um convite ao tédio, mas mesmo assim, é complicado explicar, temos em Stoner uma baita história. Certamente uma das mais emocionantes que li.

No posfácio, Peter Cameron explica essa singularidade: “Nada disso [as premissas do livro] parece material muito promissor para um romance. No entanto, de alguma forma, quase milagrosamente, John Williams transforma a existência de William Stoner em uma história apaixonante, profunda e pungente”. É isso! Milagre. De onde percebemos como a vida pode ser poderosa em seus detalhes, se a olharmos com atenção.

Poucas vezes um livro despertou em mim, na hora mesmo da leitura, sentimentos tão intensos. Cláudia, minha amiga, e Cameron, do posfácio, comentam reações semelhantes que, a princípio, imaginei exagero. Não é. De algum modo, a história de uma pessoa comum – e assim como as nossas próprias histórias – pode ter muito mais significado do que se imagina.

Um livro fantástico. Experimente.

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Leitura: O velho e o mar

Por Wanfil em Livros

13 de novembro de 2016

ernest-hemingway-o-velho-e-o-marComo falar de heroísmo, no sentido universal, a partir de um personagem que não salva ninguém além de si mesmo e cujo maior feito não é testemunhado por ninguém? De que forma um livro escrito por uma autor que viria a cometer suicídio pode deixar uma mensagem de esperança e amor à vida? Essas foram contradições, ou aparentes contradições, que fervilharam no meu pensamento após ler O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway. Especialmente quando o heroísmo, o estoicismo e a esperança são tratados de modo tocante como poucas vezes se viu em qualquer obra.

Santiago, um velho pescador cubano, sai para o mar com o espírito abatido por quase três meses sem conseguir fisgar um peixe grande. Mas ele não desiste. Sozinho, mantém firme o compromisso íntimo consigo mesmo e com o seu ofício. Pescar é sua vida, sua missão. Nesse dia, porém, a sorte parece virar e Santiago consegue fisgar um descomunal espadarte. A luta e a técnica, a espera, a paciência, o jogo entre presa e homem, se desenrolam enquanto o pequeno barco se distancia da costa.

velho-e-o-mar-gravuraPor mais de dois dias Santiago trava uma batalha com um imenso espadarte. Há respeito entre o pescador e o animal. Existem também perigos: a fome, a exaustão, a idade, as feridas nas mãos e os tubarões. E Santiago não entrega os pontos. Nem ele nem o mar.

Sem ninguém com quem falar, Santiago conversa consigo mesmo, às vezes em voz alta. A certa altura diz para si: “Um homem pode ser destruído, mas não derrotado”. É o tipo de esperança capaz de resistir a tudo. O pescador tem um compromisso com o estar no mundo e a ele se aferra com dignidade heroica. Homem simples, de formação limitada, o velho sabe que é parte de um todo imenso, cuja parcela que ele representa tem sua importância.

Num mundo onde todos se expõem nas redes sociais com notável imprudência, onde a busca pelo reconhecimento supera a noção de servir e onde a intolerância se disfarça de preocupação humanista, onde todos querem mudar todos, a leitura de O velho e o mar ganha relevância de alerta: as lutas mais difíceis, as fundamentais, são solitárias e não rendem glórias e aplausos, apenas silêncio. São internas. Hemingway ganhou o Nobel de Literatura com um livro simples e curto, de impactante beleza em sua sintaxe direta e desprovida de floreios, escrito com dignidade, como missão.

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Dica de leitura: Demian, de Hermann Hesse

Por Wanfil em Livros

31 de julho de 2016

Capa Demian V3 MFDica de livro do Wanfil: Demian, de Hermann Hesse, escritor alemão ganhador do Nobel, publicado em 1916. Fala da amizade entre o narrador, Emil Sinclair, de dez anos, e seu colega de escola Max Demian, crianças buscando descobrir o mundo e que permitem ao autor trabalhar reflexões sobre a natureza humana, num contexto em que a promessa de prosperidade do Século 19 entra em choque com as sombrias mazelas do Século 20, o mais sanguinário da História.

Simbolicamente, essa divisão é magistralmente retratada nas diferenças entre a segurança do lar e a imprevisibilidade das ruas, onde a regra é a luta pela sobrevivência. Daí o nome do primeiro capítulo ser “Dois mundos”. Segue um trecho, retirado ainda do prólogo do livro, em primeira pessoa:

Não é agradável a minha história, não é suave e harmoniosa como as histórias inventadas; sabe a insensatez e a confusão, a loucura e o sonho, como a vida de todos os homens que já não querem mais mentir para si mesmos.”

Literatura de qualidade é assim: resulta em exercício de autoavaliação (como indivíduo e como sociedade), com o ritmo instigante das histórias envolventes, distante da superficialidade das lições de autoajuda. Nada mais fundamental nesses tempos, quando as pessoas alardeiam certezas ao sabor de ideologias idiotizantes. Reparem que o trecho destacado acima não elogia os que não mentem para si mesmos, mas os que almejam essa condição. O ponto de inflexão está na vontade do sujeito. Até porque, como sabemos por experiência própria, a disposição de enfrentar nossos erros não é certeza de imunidade aos enganos.

Assim, o tentar, a busca por algo maior, o estado de alerta com os próprios atos e pensamentos e o compromisso com a essas intenções é o que pode distinguir o homem adulto daquele que aceita, passivamente, iludir-se como se fosse criança, porém, sem a inocência da idade.

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Você conhece Murilo Rubião?

Por Wanfil em Livros

27 de setembro de 2014

“A princípio foi azul, depois  verde, amarelo e negro. Um negro espesso, cheio de listras vermelhas, de um vermelho compacto, semelhante a densas fitas de sangue. Sangue pastoso com pigmentos amarelados, de um amarelo esverdeado, tênue, quase sem cor. Quando tudo começava a ficar branco, veio um automóvel e me matou”. Trecho do conto O pirotécnico Zacarias, de Murilo Rubião, publicado em 1974, sobre a luta de um homem para provar que estava realmente morto.

Murilo Rubião - Obra Completa. Cia. das Letras.   O inexplicável e o mágico como partes da vida.

Murilo Rubião – Obra Completa. Cia. das Letras. O inexplicável e o mágico como partes da vida.

Rubião é assim: elegante na sintaxe, envolvente na prosa, de modo a deixar o leitor sempre ansioso pelo próximo parágrafo; seguro na condução do ritmo e surpreendente nos arremates. O inusitado, o misterioso e o fantástico aparecem em seus contos como algo normal. Em O Pirotécnico…, o personagem assim explica sua condição incomum: “No passar dos meses, tornou-se menos intenso o meu sofrimento e menor a minha frustração ante a dificuldade de convencer os amigos de que o Zacarias que anda pelas ruas da cidade é o mesmo artista pirotécnico de outros tempos, com a diferença de que aquele era vivo e este, um defunto”. Como pode isso? Não se sabe, apenas pode.

Em outro conto, O ex-mágico da Taberna Minhota, Murilo é alucinante e ao mesmo tempo pungente: “Todo homem, ao atingir certa idade, pode perfeitamente enfrentar a avalanche do tédio e da amargura, pois desde a meninice acostumou-se às vicissitudes, através de um processo lento e gradativo de dissabores. Tal não aconteceu comigo. Fui atirado à vida sem pais, infância ou juventude. Um dia dei com os meus cabelos ligeiramente grisalhos, no espelho da Taberna Minhota. A descoberta não me espantou e tampouco me surpreendi ao retirar do bolso o dono do restaurante. Ele sim, perplexo, me perguntou como podia ter feito aquilo”.

É justamente o inexplicável na condição de coisa simples, o elemento que fascina nas histórias de Murilo Eugênio Rubião (1916-1991), um dos nossos poucos representantes do chamado realismo mágico. Entretanto, seus textos foram publicados em meados de 1940, antes, portanto, do sucesso de Gabriel García Marquez e Julio Cortazár, expoentes mais famosos desse estilo. Mas não se trata apenas de buscar o estranhamento do leitor. A prosa fantástica é rica por seu teor metafórico. A de Rubião em particular é relacionada com aspectos da psicologia, sem referências a revoluções, contrastes sociais, lições de moral, essas coisas. Talvez por isso seja menos reconhecido do que deveria.

Rubião também dominou com precisão o suspense, como no conto A armadilha: ” Quis voltar ao corredor, a fim de recomeçar a busca, quando deu com um biombo. Afastou-o para o lado e encontrou uma porta semicerrada. Empurrou-a. Ia colocar a mala no chão, mas um terror súbito imobilizou-o: sentado diante de uma mesa empoeirada, um homem de cabelos grisalhos, semblante sereno, apontava-lhe um revólver. Conservando a arma na direção do intruso, ordenou-lhe que não se afastasse. Também a Alexandre não interessava fugir, porque jamais perderia a oportunidade daquele encontro. A sensação de medo fora passageira e logo substituída por outra mais intensa, ao fitar os olhos do velho”.

Os textos de Murilo Rubião são sedutoras lições de português que refletem seu trabalho minucioso. Um conto poderia ficar anos sob lapidação. Os diálogos também são marcantes, de frases curtas e ferinas, entrecortados com reflexões dos personagens ou do narrador. Pincei uma amostra de Os três nomes de Godofredo:

“Insatisfeito com as dúvida que me ocorriam, indaguei meio constrangido:
– Eu a convidei para o jantar, não?
– Claro! E não havia necessidade de um convite formal para me trazer aqui.
– Como?
– Bolas, desde quando se tornou obrigatório ao marido convidar a esposa para as refeições?
– Você é minha mulher?
– Sim, a segunda. E preciso lhe dizer que a primeira era loura e que você a matou num acesso de ciúmes?
– Não é necessário. (Já ficara bastante abalado em saber do meu casamento e não desejava que me criassem o remorso do qual não tinha a menor lembrança)”.

E para mostrar a versatilidade desse escritor, encerro com um poético trecho de O pirotécnico Zacarias“Amanhã o dia poderá nascer claro, o sol brilhando como nunca brilhou. Nessa hora os homens compreenderão que, mesmo à margem da vida, ainda vivo, porque a minha existência se transmudou em cores e o branco já se aproxima da terra para exclusiva ternura dos meus olhos”.

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Os Demônios

Por Wanfil em Livros

13 de setembro de 2014

Os Demônios, de Dostoiévski (1872) - Editora 34

Os Demônios, de Dostoiévski (1872) – Editora 34

Os Demônios, obra de Fiodor Dostoiévski inspirada no noticiário sobre o assassinato de um estudante por membros de um grupo político clandestino e niilista chamado Justiça Sumária do Povo, em 1869, liderado por Sergei Nietcháiev, autor do tenebroso e fanático O Catecismo de um Revolucionário, de onde podemos extrais ilustrativas amostras de uma natureza política e moral influente até os dias de hoje: “Um revolucionário despreza toda a teoria; renuncia à ciência atual e abandona-a para as gerações vindouras. Não conhece senão uma só ciência: a da destruição”. De algo assim, nada de bom pode sair mesmo.

Pois bem, ao esboçar uma crítica a esse tipo de radicalismo, o autor de Crime e Castigo denunciou ali o germe da manipulação da intolerância e da baixa autoestima como instrumentos políticos para arregimentar e insuflar pessoas dispostas a tudo por um ideal. Esse idealismo é denunciado, com toda razão, como mero pretexto para o uso supostamente racional da violência.

De modo brilhante, quase sobrenatural, Dostoiévski antecipa aos seus contemporâneos, em Os Demônios, escrito em 1872, as bases de um processo de degradação social que terminaria, quase cinco décadas depois, na eclosão da  Revolução Russa e seu legado de horror: 30 milhões de vítimas do comunismo, somente naquele país. Mais do isso, o escritor revela a gênese de qualquer movimento radical que tenha no ímpeto destruidor sua razão de existir, delineando um perfil que pode identificar desde agentes do nazismo até os terroristas islâmicos do nosso presente, no que eles têm em comum: o ódio e a intolerância com o contraditório. Mudam nas formas externas, mas a essência é a mesma.

Dostoiévski, óleo sobre tela (1872), por Vasily Perov.

Dostoiévski, óleo sobre tela (1872), por Vasily Perov.

Basicamente, o livro narra o início e o desenvolvimento das atividades do que poderíamos chamar de célula política com função desestabilizadora. No começo, parecem patéticos, pois são poucos, embora saibam que outras células existam por aí (eles não devem manter contato entre si, para em caso de fracasso, não delatar as demais). Seus membros se imiscuem em vários órgãos do Estado e sua missão é criar problemas, de forma a excitar o descontentamento geral. No entanto, esses indivíduos atuam sobre a tessitura de uma sociedade onde a elite (no caso, a aristocracia russa), vive alienada da realidade, perdida em bailes, salamaleques, viagens à Europa e solenidades de condecorações, enquanto a população sofre com a pobreza e a ignorância. É o ambiente perfeito para prosperar as teses racistas ou de luta de classes, que objetivam personificar culpados em determinados grupos sociais.

Quando governos estão dissociados dos anseios de um povo, o ressentimento pode ser facilmente manipulado. Daí que o título de Os Demônios seja uma referência ao evangelho de Lucas (8, 32-36): ” Ora, andava ali pastando no monte uma grande manada de porcos; rogaram-lhe, pois que lhes permitisse entrar neles, e lho permitiu. E tendo os demônios saído do homem, entraram nos porcos; e a manada precipitou-se pelo despenhadeiro no lago, e afogou-se. Quando os pastores viram o que acontecera, fugiram, e foram anunciá-lo na cidade e nos campos. Saíram, pois, a ver o que tinha acontecido, e foram ter com Jesus, a cujos pés acharam sentado, vestido e em perfeito juízo, o homem de quem havia saído os demônios; e se atemorizaram. Os que tinham visto aquilo contaram-lhes como fora curado o endemoninhado”.

A alegoria é clara: os demônios estão soltos à procura de porcos, de desavisados que caminham sem perceber para a própria desgraça. Na política, ela pode se manifestar assim, como nessa profética passagem destacada na orelha da edição que li: “No esquema dele cada membro da sociedade vigia o outro e é obrigado a delatar. Cada um pertence a todos, e todos a cada um. Todos são escravos e iguais na escravidão. Nos casos extremos recorre-se à calúnia e assassinato, mas o principal é a igualdade. A primeira coisa que fazem é rebaixar o nível da educação, das ciências e do talento. O nível elevado das ciências e das aptidões só é acessível aos talentos superiores, e os talentos superiores são dispensáveis. Os talentos superiores sempre tomaram o poder e foram déspotas. Os talentos superiores não podem deixar de ser déspotas, e sempre trouxeram mais depravação que utilidade; eles serão expulsos ou executados. A um Cícero corta-se a língua, a um Copérnico furam-se os olhos, um Shakespeare mata-se a pedradas – eis o chigaliovismo”.

No Brasil de hoje, o descompasso entre as aspirações da população e governantes hipnotizados pelos jogo do poder pelo poder já mostrou suas feições mais impulsivas nos protestos de junho de 2013. É nesse descontentamento com a corrupção e a ineficiência administrativa que apostam os defensores de uma reforma política que, ao final, será útil a grupos que repudiam o mérito como força construtiva e celebram o controle do Estado como realização máxima. Gente que vê nas leis, no Congresso e nas instituições democráticas, entraves para a evolução de seus projetos. Basta ficar atento, que tudo está acontecendo agora, neste instante.

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Afinal, o que você quer da vida? – resenha de Vozes da Rua, de Philip K. Dick

Por Wanfil em Livros

07 de junho de 2014

Philip K. Dick: Em Vozes da Rua, a depressão psicológica como um mal à espreita do mundo.

Philip K. Dick: em Vozes da Rua, a depressão psicológica como um mal à espreita do mundo.

O escritor norte-americano Philip K. Dick (1928 – 1982) é referência mundial em ficção científica. Seus livros deram origem a grandes sucessos do cinema como Blade Runner, Minority Report, Total Recall (que no Brasil é ficou conhecido com o tosco nome de O Vingador do Futuro), O Homem Duplo, Os Agentes do Destino, entre outros.

O que poucos sabem é que os primeiros livros de Dick não eram sobre ficção científica, gênero que, assim como o policial, não tem grande reconhecimento na crítica literária, salvo algumas exceções, claro. Estudante de filosofia, Philip aspirava a algo mais, digamos, clássico.

Dizem seus biógrafos que seu início de carreira é marcado por um pendor autobiográfico, mas nunca procurei saber mais. Assim como a maioria, o que me interessava mais eram seus escritos famosos. Até que um dia, não faz muito tempo, esbarrei numa livraria com Vozes da Rua, oferecido numa promoção por R$10,00, dessa fase pré-ficção científica de Dick. Não resisti, arrisquei e consegui uma bela surpresa ao conhecer a história de Stuart Hadley, um jovem bonito, bem casado e com um filho recém nascido, com carreira promissora no comércio, morador de um bairro típico de classe média dos EUA nos anos 1950. Mas algo o angustiava e nada preenchia sua busca por um sentido para a vida. Stuart encarna à perfeição o lamento de Vinícius de Morais: “É claro que te amo/E tenho tudo para ser feliz/Mas acontece que eu sou triste…”.

Em busca de uma razão maior, aspirando a grandes feitos, o personagem procura dar vazão às suas frustrações na bebida, em outra mulher, na religião e no trabalho. Nada o satisfaz como deveria. Fica claro que a doença da moda no século XXI, a depressão, cercava o Stuart de meados do século XX.

Vozes-da-Rua-Philip-K-DickA narrativa alterna momentos intensos com outros mais arrastados. Provavelmente a intenção do autor foi contrastar o tédio de uma existência programada com o desejo por novidades. A linguagem é direta e os personagens são poucos. O final, adianto sem prejuízo a leitura, não é feliz, mas também não é trágico. Não há grandes lições de moral, muito menos a pretensão arrogante de deixar ao leitor um ensinamento edificante, no estilo autoajuda. Nada. A mensagem é seca, dura, e nos faz pensar sobre nossa relação com o cotidiano, com o que somos e o que queremos. Convida o leitor a um exercício de autopercepção, o que não é nada fácil para quem deseja ouvir apenas elogios ou conselhos baratos.

A meu ver – e isso é uma impressão particular, depreendida da leitura e adaptada às minhas vicissitudes -, Vozes da Rua fala sobre o desencontro entre vocação e trabalho, entre a realidade e os devaneios que podemos alimentar. Principalmente, um desequilíbrio profundo entre altruísmo e egoísmo. Você faz o gosta ou apenas busca a segurança de um trabalho sem sentido para você? Sabe pelo menos o que deseja fazer? Vive com quem lhe faz bem ou procura companhias que podem levá-lo a um espiral de autodestruição? Se conforma com tudo por vontade própria ou por sugestão/imposição das “vozes da rua”? Pensar nos outros lhe parece um fardo ou um alívio? As respostas para essas indagações podem ser fáceis de dizer em público, quando todos procuram se mostrar felizes e adaptados. Mas no íntimo de cada um, são questões que se colocam diariamente e sobre as quais podemos mudar de opinião, dependendo do período.

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Afinal, o que você quer da vida? – resenha de Vozes da Rua, de Philip K. Dick

Por Wanfil em Livros

07 de junho de 2014

Philip K. Dick: Em Vozes da Rua, a depressão psicológica como um mal à espreita do mundo.

Philip K. Dick: em Vozes da Rua, a depressão psicológica como um mal à espreita do mundo.

O escritor norte-americano Philip K. Dick (1928 – 1982) é referência mundial em ficção científica. Seus livros deram origem a grandes sucessos do cinema como Blade Runner, Minority Report, Total Recall (que no Brasil é ficou conhecido com o tosco nome de O Vingador do Futuro), O Homem Duplo, Os Agentes do Destino, entre outros.

O que poucos sabem é que os primeiros livros de Dick não eram sobre ficção científica, gênero que, assim como o policial, não tem grande reconhecimento na crítica literária, salvo algumas exceções, claro. Estudante de filosofia, Philip aspirava a algo mais, digamos, clássico.

Dizem seus biógrafos que seu início de carreira é marcado por um pendor autobiográfico, mas nunca procurei saber mais. Assim como a maioria, o que me interessava mais eram seus escritos famosos. Até que um dia, não faz muito tempo, esbarrei numa livraria com Vozes da Rua, oferecido numa promoção por R$10,00, dessa fase pré-ficção científica de Dick. Não resisti, arrisquei e consegui uma bela surpresa ao conhecer a história de Stuart Hadley, um jovem bonito, bem casado e com um filho recém nascido, com carreira promissora no comércio, morador de um bairro típico de classe média dos EUA nos anos 1950. Mas algo o angustiava e nada preenchia sua busca por um sentido para a vida. Stuart encarna à perfeição o lamento de Vinícius de Morais: “É claro que te amo/E tenho tudo para ser feliz/Mas acontece que eu sou triste…”.

Em busca de uma razão maior, aspirando a grandes feitos, o personagem procura dar vazão às suas frustrações na bebida, em outra mulher, na religião e no trabalho. Nada o satisfaz como deveria. Fica claro que a doença da moda no século XXI, a depressão, cercava o Stuart de meados do século XX.

Vozes-da-Rua-Philip-K-DickA narrativa alterna momentos intensos com outros mais arrastados. Provavelmente a intenção do autor foi contrastar o tédio de uma existência programada com o desejo por novidades. A linguagem é direta e os personagens são poucos. O final, adianto sem prejuízo a leitura, não é feliz, mas também não é trágico. Não há grandes lições de moral, muito menos a pretensão arrogante de deixar ao leitor um ensinamento edificante, no estilo autoajuda. Nada. A mensagem é seca, dura, e nos faz pensar sobre nossa relação com o cotidiano, com o que somos e o que queremos. Convida o leitor a um exercício de autopercepção, o que não é nada fácil para quem deseja ouvir apenas elogios ou conselhos baratos.

A meu ver – e isso é uma impressão particular, depreendida da leitura e adaptada às minhas vicissitudes -, Vozes da Rua fala sobre o desencontro entre vocação e trabalho, entre a realidade e os devaneios que podemos alimentar. Principalmente, um desequilíbrio profundo entre altruísmo e egoísmo. Você faz o gosta ou apenas busca a segurança de um trabalho sem sentido para você? Sabe pelo menos o que deseja fazer? Vive com quem lhe faz bem ou procura companhias que podem levá-lo a um espiral de autodestruição? Se conforma com tudo por vontade própria ou por sugestão/imposição das “vozes da rua”? Pensar nos outros lhe parece um fardo ou um alívio? As respostas para essas indagações podem ser fáceis de dizer em público, quando todos procuram se mostrar felizes e adaptados. Mas no íntimo de cada um, são questões que se colocam diariamente e sobre as quais podemos mudar de opinião, dependendo do período.