Crítica: "Faroeste Caboclo" é uma ousadia digno de aplausos


Crítica: “Faroeste Caboclo” é uma ousadia digna de aplausos

A adaptação da música-hino de Renato Russo é uma excelente surpresa, com ecos de Cidade de Deus (2002), Oliver Stone, Guy Ritchie e Quentin Tarantino

Por Thiago Sampaio em Cinema

5 de junho de 2013 às 16:02

Há 6 anos
Faroeste-Cabloco-poster

Faroeste Caboclo (FOTO: Europa Filmes/divulgação)

Quando Renato Russo compôs a música “Faroeste Caboclo” no fim dos anos 70, todos enxergaram que ali havia mais do que uma música. Sem refrões ou repetição de trechos, havia uma trágica história cantada ao longo de nove minutos. Demorou, mas finalmente adaptaram a obra para às telonas. E temos que vangloriar: o filme “Faroeste Caboclo” (Idem, Brasil, 2013) utiliza os recursos do cinema moderno, com influências de grandes realizadores, de modo que o produto final seja tão admirável (porém, diferente) quanto à canção.

“Não tinha medo, tal João de Santo Cristo…”

A trama apresenta João, um homem que deixa a pequena Santo Cristo em busca de uma vida melhor em Brasília. Lá, conta com o apoio do primo e traficante Pablo, com quem passa a trabalhar. Ele conhece a bela e inquieta Maria Lúcia, filha de um senador, por quem se apaixona. Inserido no mundo do crime, ele acaba por iniciar uma guerra com o traficante rival Jeremias.

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Faroeste Caboclo (FOTO: Europa Filmes/divulgação)

Antes de tudo, o espectador precisa ficar ciente da necessidade de se desprender da música de Renato Russo, pois o longa-metragem toma a liberdade criativa necessária.

Não se trata de uma obra literal, mas de cinema autoral. E o primeiro fator que contribui para o sucesso é justamente ele não se levar tão à sério e destrinchar suas referências em forma do bom entretenimento, sem deixar de ser chocante. Sim, “Faroeste Caboclo” é um abraço à cultura pop!

Crítica social

Não seria difícil se os realizadores fizessem um drama sobre a crueza na realidade daqueles personagens ou a discriminação do negro no Brasil. Esse conceitos estão todos lá, mas maquiados sob uma obra estilosa e cheia de humor crítico. Na verdade, se trata da trajetória do exótico casal João e Maria Lúcia, que mesmo tão distintos, se completam e acabam sofrendo por causa do meio onde vivem. Não seria exagero dizer que eles são como Mickey e Mallory Knox, de Assassinos Por Natureza (1994), ou Clarence Worley e Alabama Whitman, de Amor à Queima Roupa (1993).

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Faroeste Caboclo (FOTO: Europa Filmes/divulgação)

Diretor

Méritos do diretor estreante René Sampaio, que através de cortes rápidos e precisos para demarcar passagens de tempo (o pote na cacimba; e a entrada e saída do protagonista no reformatório, dignas de aplausos). Muitos flashbacks, câmeras divididas mostrando planos diferentes, aplica na produção um ar de filme de máfia exótico, como aqueles de Guy Ritchie (ao estilo de Jogos Trapaças e Dois Canos Fumegantes – 1998 e Snatch – 2000), Oliver Stone (o já citado Assassinos Por Natureza, a cena do pó na mesa de Scarface – roteiro de sua autoria, Selvagens) e até pitadas de Quentin Tarantino (a imagem do negro em Django Livre – 2012).

Mas a trajetória de quem já nasceu destinado à tragédia está lá, mostrando o choque de realidade entre as classes sociais brasileiras, algo tão abordado nos ótimos Cidade de Deus (2002) e Tropa de Elite 1 e 2 (2007, 2010). Para isso, René Sampaio não poupa o uso de palavrões e muita violência. E ver mortes de personagens relevantes à sangue frio, consumo de drogas e até abuso sexual em uma obra baseada em uma canção escrita por um ídolo nacional é, no mínimo, corajoso.

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Faroeste Caboclo (FOTO: Europa Filmes/divulgação)

Elenco

O elenco é louvável. O novato Fabrício Boliveira, escolhido para ser o protagonista após longo processo de seleção, capta com perfeição a inocência misturada com revolta de João do Santo Cristo, sempre com uma fisionomia sofrida, mesmo quando se demonstra apaixonado.

A bela Ísis Valverde utiliza de poucas palavras para transmitir a inquietação de uma jovem que não está adaptada ao mundo burguês e cheio de regras em que vive. Mas é Felipe Abib, na pele do “vilão” Jeremias, quem rouba a cena ao transpirar o ar psicótico por trás de um jovem playboy. Destaque também para César Troncoso, como o divertido Pablo, o “peruano que vivia na Bolívia e muitas coisas trazia de lá”.

“Faroeste Caboclo” é tudo aquilo que Somos Tão Jovens (2013) não conseguiu ser: ousado. Enquanto a biografia de Renato Russo, que chegou aos cinemas na mesma época, pecava pela artificialidade, a adaptação da canção (cuja melodia permeia boa parte da projeção para lembrar ao espectador que o espírito está lá), consegue inovar, mesmo sem ser original. E sempre é prazeroso ver que nosso cinema nacional pode ficar cada vez menos novelesco!

Termo vetor - segunda versão - DEITADA - 8

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Crítica: “Faroeste Caboclo” é uma ousadia digna de aplausos

A adaptação da música-hino de Renato Russo é uma excelente surpresa, com ecos de Cidade de Deus (2002), Oliver Stone, Guy Ritchie e Quentin Tarantino

Por Thiago Sampaio em Cinema

5 de junho de 2013 às 16:02

Há 6 anos
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Faroeste Caboclo (FOTO: Europa Filmes/divulgação)

Quando Renato Russo compôs a música “Faroeste Caboclo” no fim dos anos 70, todos enxergaram que ali havia mais do que uma música. Sem refrões ou repetição de trechos, havia uma trágica história cantada ao longo de nove minutos. Demorou, mas finalmente adaptaram a obra para às telonas. E temos que vangloriar: o filme “Faroeste Caboclo” (Idem, Brasil, 2013) utiliza os recursos do cinema moderno, com influências de grandes realizadores, de modo que o produto final seja tão admirável (porém, diferente) quanto à canção.

“Não tinha medo, tal João de Santo Cristo…”

A trama apresenta João, um homem que deixa a pequena Santo Cristo em busca de uma vida melhor em Brasília. Lá, conta com o apoio do primo e traficante Pablo, com quem passa a trabalhar. Ele conhece a bela e inquieta Maria Lúcia, filha de um senador, por quem se apaixona. Inserido no mundo do crime, ele acaba por iniciar uma guerra com o traficante rival Jeremias.

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Faroeste Caboclo (FOTO: Europa Filmes/divulgação)

Antes de tudo, o espectador precisa ficar ciente da necessidade de se desprender da música de Renato Russo, pois o longa-metragem toma a liberdade criativa necessária.

Não se trata de uma obra literal, mas de cinema autoral. E o primeiro fator que contribui para o sucesso é justamente ele não se levar tão à sério e destrinchar suas referências em forma do bom entretenimento, sem deixar de ser chocante. Sim, “Faroeste Caboclo” é um abraço à cultura pop!

Crítica social

Não seria difícil se os realizadores fizessem um drama sobre a crueza na realidade daqueles personagens ou a discriminação do negro no Brasil. Esse conceitos estão todos lá, mas maquiados sob uma obra estilosa e cheia de humor crítico. Na verdade, se trata da trajetória do exótico casal João e Maria Lúcia, que mesmo tão distintos, se completam e acabam sofrendo por causa do meio onde vivem. Não seria exagero dizer que eles são como Mickey e Mallory Knox, de Assassinos Por Natureza (1994), ou Clarence Worley e Alabama Whitman, de Amor à Queima Roupa (1993).

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Faroeste Caboclo (FOTO: Europa Filmes/divulgação)

Diretor

Méritos do diretor estreante René Sampaio, que através de cortes rápidos e precisos para demarcar passagens de tempo (o pote na cacimba; e a entrada e saída do protagonista no reformatório, dignas de aplausos). Muitos flashbacks, câmeras divididas mostrando planos diferentes, aplica na produção um ar de filme de máfia exótico, como aqueles de Guy Ritchie (ao estilo de Jogos Trapaças e Dois Canos Fumegantes – 1998 e Snatch – 2000), Oliver Stone (o já citado Assassinos Por Natureza, a cena do pó na mesa de Scarface – roteiro de sua autoria, Selvagens) e até pitadas de Quentin Tarantino (a imagem do negro em Django Livre – 2012).

Mas a trajetória de quem já nasceu destinado à tragédia está lá, mostrando o choque de realidade entre as classes sociais brasileiras, algo tão abordado nos ótimos Cidade de Deus (2002) e Tropa de Elite 1 e 2 (2007, 2010). Para isso, René Sampaio não poupa o uso de palavrões e muita violência. E ver mortes de personagens relevantes à sangue frio, consumo de drogas e até abuso sexual em uma obra baseada em uma canção escrita por um ídolo nacional é, no mínimo, corajoso.

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Faroeste Caboclo (FOTO: Europa Filmes/divulgação)

Elenco

O elenco é louvável. O novato Fabrício Boliveira, escolhido para ser o protagonista após longo processo de seleção, capta com perfeição a inocência misturada com revolta de João do Santo Cristo, sempre com uma fisionomia sofrida, mesmo quando se demonstra apaixonado.

A bela Ísis Valverde utiliza de poucas palavras para transmitir a inquietação de uma jovem que não está adaptada ao mundo burguês e cheio de regras em que vive. Mas é Felipe Abib, na pele do “vilão” Jeremias, quem rouba a cena ao transpirar o ar psicótico por trás de um jovem playboy. Destaque também para César Troncoso, como o divertido Pablo, o “peruano que vivia na Bolívia e muitas coisas trazia de lá”.

“Faroeste Caboclo” é tudo aquilo que Somos Tão Jovens (2013) não conseguiu ser: ousado. Enquanto a biografia de Renato Russo, que chegou aos cinemas na mesma época, pecava pela artificialidade, a adaptação da canção (cuja melodia permeia boa parte da projeção para lembrar ao espectador que o espírito está lá), consegue inovar, mesmo sem ser original. E sempre é prazeroso ver que nosso cinema nacional pode ficar cada vez menos novelesco!

Termo vetor - segunda versão - DEITADA - 8