Brasil ganhou. No campo e nas ruas


Brasil ganhou, no campo e nas ruas

Reza a lenda que a história da vez é uma crônica sobre um dia histórico. Em Fortaleza o Brasil venceu em campo e goleou nas ruas. Acompanhemos os fatos

Por Daniel Herculano em Comportamento

20 de junho de 2013 às 16:00

Há 6 anos

Reza a lenda que o dia foi histórico. Vamos aos fatos. Uma voltinha no inferno, com uma parada no céu. O dia acordou com o sol trincando o ar. O dia agendava protesto e jogo do Brasil. Uma manifestação a favor de tudo (saúde-educação-segurança-mais-estrutura-melhores-salários) e contra todos (copa-corrupção-políticos-homofobia), mas pelo Brasil (país e seleção) invadiu as ruas de Fortaleza por volta de 10 horas da manhã. Mais precisamente nas proximidades do estádio Castelão, que para a Fifa é Arena.

Os cartazes já estavam prontos na sala (“Sou a favor seleção e contra a corrupção”/O Nordeste não tem sede de bola, tem sede de água”/Verás que um filho teu não foge à luta”), mas as notícias não eram tão boas. O protesto estava lindo, eu estava acompanhando tudo pelos portais-TV-rádio-redes-sociais. Mas a Força Nacional estava disposta a não deixar que a manifestação chegasse próximo ao evento da FIFA. O lamentável aconteceu, o confronto eclodiu e, em parte, dispersou o povo. Que voltou com mais força ainda para outros pontos de acesso ao Castelão.

Minha vontade era de estar lá. Saí no meio do expediente de trabalho e fui às ruas. Peguei um táxi e parei na Avenida Alberto Craveiro. Cartazes na mão, vontade de gritar pelo Brasil, mas também com ingressos na mochila e com uma imensa vontade de gritar gol. Gritei antes pelo país. Foi emocionante e apavorante, ao mesmo tempo. Acho que fiz minha parte. E sim, a polícia foi covarde. O inferno era logo ali e ardia a spray de pimenta e gás lacrimogênio.

Dei meia volta e fui até o Castelão. Andei uns 30 minutos, tinha um Sol só para mim lá em cima. Mas a festa me esperava. Pelo menos era o que eu sonhava. Me senti entrincheirado pela FIFA. Fui obrigado a passar por uma espécie de corredor polonês, com muitos policiais de um lado e a população do outro. Achei uma caminhada bizarra ao som de trios de forró. As pessoas olhando pra mim como se fosse um ser superior (jamais!), uns com ódio outros com inveja, uns fazendo festa outros apenas tentando vender suas bugigangas, comidas e bebidas fora do padrão FIFA.

Vamos lá. Chegando ao Castelão, a primeira desilusão. As filas para passar pela primeira verificação (com detectores de metais) estavam terríveis. Desorganizadas e sem ser nada minuciosas. Entrei com os cartazes de protesto, nem revistaram direito minha mochila. Não que tivesse uma bomba, mas simplesmente a revista foi no máximo uma olhada por cima.

Próxima parada era a entrada no portão de entrada no estádio. Portão R, entrei. Mas a verificação do ingresso também falhou. Se estivesse no nome de outra pessoa não era para me ter exigido uma identidade? A moça não olhou nem para a minha cara. Vamos ao local marcado. Tudo certo. Vista para o campo fora de série, arquibancada superior na linha da ponta do escanteio.

Agora vamos testar o serviço de bar. Peguei a fila (gigantesca) às 15h20, 40 minutos antes do jogo. Muita confusão, muita desorganização. 20 minutos depois e a fila simplesmente não andava. Escutei o público delirar faltando cinco para as 16 horas. Era hora do hino e ainda faltavam cinco pessoas a minha frente. Abandonei a fome e a sede e voltei às arquibancadas. A Fifa só permitiria 90 segundo do hino, de forma protocolar.

Mas… “Ouviram do Ipiranga às margens plácidas/De um povo heroico o brado retumbante/E o sol da Liberdade, em raios fúlgidos/Brilhou no céu da Pátria nesse instante/Se o penhor dessa igualdade/Conseguimos conquistar com braço forte/Em teu seio, ó Liberdade/Desafia o nosso peito a própria morte!/Ó Pátria amada/Idolatrada/Salve! Salve Brasil, um sonho intenso, um raio vívido/De amor e de esperança à terra desce/Se em teu formoso céu, risonho e límpido/A imagem do Cruzeiro resplandece/Gigante pela própria natureza/És belo, és forte, impávido colosso, E o teu futuro espelha essa grandeza/Terra adorada/Entre outras mil/És tu, Brasil, Ó Pátria amada! Dos filhos deste solo és mãe gentil, Pátria amada, Brasil!”Arrepiado, emocionado, olhos cheios d´agua. Indescritível.

O jogo foi bom. No primeiro tempo gol logo aos nove minutos, um gol anulado e depois aguentamos bem uma pressãozinha apimentada do México. Aos 40 minutos, fui de novo tentar beber alguma coisa. Enfrentei mais uma fila, dessa vez tinha decidido que ia até o fim. Fiquei e passei muita raiva, mas depois de muito tempo voltei à minha cadeira aos oito minutos do segundo tempo. Pois é, foram cinco minutos dos 40 aos 45, mais três minutos de acréscimos, mais 15 de intervalo e oito do segundo tempo. Um total de 31 minutos de espera na fila com os mais diferentes absurdos. Um (des)serviço para envergonhar qualquer cidadão.

No segundo tempo mais um gol anulado (não vi, estava na fila do bar) e tive a impressão do México ter voltado abastecido de tequila. O jogo variava entre a pressão mexicana e os contra-ataques brasileiros. A arquibancada não cansava de fazer “ola”. Sensacional. No fim, uma jogada de craque para um gol de canela. 2 x 0. Alegria, alegria. E com alguns manifestantes empunhei meu cartaz “Verás que um filho teu não foge à luta” e comemorei a vitória.

O percurso de retorno foi festivo, porém… Voluntários da FIFA me enviaram para uma caminhada de dois quilômetros num caminho inverso da parada do meu ônibus. Eu queria retornar ao Centro de Eventos, mas no local só haviam condução para o Aeroporto, Siqueira, Antônio Bezerra e a baixa da égua. Solicitei ao fiscal um ônibus para o local e após uma espera de quase uma hora consegui seguir viagem. Muitos erros, muitas emoções, muito cansaço, muito sentidos, muitos sentimentos, muito tudo.

Mesmo cansado, pensei no melhor. O céu era logo ali. Voltei feliz com a vitória do Brasil – dentro de campo. E mais feliz ainda com a goleada do Brasil – fora de campo. Reza a lenda que foi um dia história. Reza a lenda não, FOI! BRASIL IL IL IL.

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Brasil ganhou, no campo e nas ruas

Reza a lenda que a história da vez é uma crônica sobre um dia histórico. Em Fortaleza o Brasil venceu em campo e goleou nas ruas. Acompanhemos os fatos

Por Daniel Herculano em Comportamento

20 de junho de 2013 às 16:00

Há 6 anos

Reza a lenda que o dia foi histórico. Vamos aos fatos. Uma voltinha no inferno, com uma parada no céu. O dia acordou com o sol trincando o ar. O dia agendava protesto e jogo do Brasil. Uma manifestação a favor de tudo (saúde-educação-segurança-mais-estrutura-melhores-salários) e contra todos (copa-corrupção-políticos-homofobia), mas pelo Brasil (país e seleção) invadiu as ruas de Fortaleza por volta de 10 horas da manhã. Mais precisamente nas proximidades do estádio Castelão, que para a Fifa é Arena.

Os cartazes já estavam prontos na sala (“Sou a favor seleção e contra a corrupção”/O Nordeste não tem sede de bola, tem sede de água”/Verás que um filho teu não foge à luta”), mas as notícias não eram tão boas. O protesto estava lindo, eu estava acompanhando tudo pelos portais-TV-rádio-redes-sociais. Mas a Força Nacional estava disposta a não deixar que a manifestação chegasse próximo ao evento da FIFA. O lamentável aconteceu, o confronto eclodiu e, em parte, dispersou o povo. Que voltou com mais força ainda para outros pontos de acesso ao Castelão.

Minha vontade era de estar lá. Saí no meio do expediente de trabalho e fui às ruas. Peguei um táxi e parei na Avenida Alberto Craveiro. Cartazes na mão, vontade de gritar pelo Brasil, mas também com ingressos na mochila e com uma imensa vontade de gritar gol. Gritei antes pelo país. Foi emocionante e apavorante, ao mesmo tempo. Acho que fiz minha parte. E sim, a polícia foi covarde. O inferno era logo ali e ardia a spray de pimenta e gás lacrimogênio.

Dei meia volta e fui até o Castelão. Andei uns 30 minutos, tinha um Sol só para mim lá em cima. Mas a festa me esperava. Pelo menos era o que eu sonhava. Me senti entrincheirado pela FIFA. Fui obrigado a passar por uma espécie de corredor polonês, com muitos policiais de um lado e a população do outro. Achei uma caminhada bizarra ao som de trios de forró. As pessoas olhando pra mim como se fosse um ser superior (jamais!), uns com ódio outros com inveja, uns fazendo festa outros apenas tentando vender suas bugigangas, comidas e bebidas fora do padrão FIFA.

Vamos lá. Chegando ao Castelão, a primeira desilusão. As filas para passar pela primeira verificação (com detectores de metais) estavam terríveis. Desorganizadas e sem ser nada minuciosas. Entrei com os cartazes de protesto, nem revistaram direito minha mochila. Não que tivesse uma bomba, mas simplesmente a revista foi no máximo uma olhada por cima.

Próxima parada era a entrada no portão de entrada no estádio. Portão R, entrei. Mas a verificação do ingresso também falhou. Se estivesse no nome de outra pessoa não era para me ter exigido uma identidade? A moça não olhou nem para a minha cara. Vamos ao local marcado. Tudo certo. Vista para o campo fora de série, arquibancada superior na linha da ponta do escanteio.

Agora vamos testar o serviço de bar. Peguei a fila (gigantesca) às 15h20, 40 minutos antes do jogo. Muita confusão, muita desorganização. 20 minutos depois e a fila simplesmente não andava. Escutei o público delirar faltando cinco para as 16 horas. Era hora do hino e ainda faltavam cinco pessoas a minha frente. Abandonei a fome e a sede e voltei às arquibancadas. A Fifa só permitiria 90 segundo do hino, de forma protocolar.

Mas… “Ouviram do Ipiranga às margens plácidas/De um povo heroico o brado retumbante/E o sol da Liberdade, em raios fúlgidos/Brilhou no céu da Pátria nesse instante/Se o penhor dessa igualdade/Conseguimos conquistar com braço forte/Em teu seio, ó Liberdade/Desafia o nosso peito a própria morte!/Ó Pátria amada/Idolatrada/Salve! Salve Brasil, um sonho intenso, um raio vívido/De amor e de esperança à terra desce/Se em teu formoso céu, risonho e límpido/A imagem do Cruzeiro resplandece/Gigante pela própria natureza/És belo, és forte, impávido colosso, E o teu futuro espelha essa grandeza/Terra adorada/Entre outras mil/És tu, Brasil, Ó Pátria amada! Dos filhos deste solo és mãe gentil, Pátria amada, Brasil!”Arrepiado, emocionado, olhos cheios d´agua. Indescritível.

O jogo foi bom. No primeiro tempo gol logo aos nove minutos, um gol anulado e depois aguentamos bem uma pressãozinha apimentada do México. Aos 40 minutos, fui de novo tentar beber alguma coisa. Enfrentei mais uma fila, dessa vez tinha decidido que ia até o fim. Fiquei e passei muita raiva, mas depois de muito tempo voltei à minha cadeira aos oito minutos do segundo tempo. Pois é, foram cinco minutos dos 40 aos 45, mais três minutos de acréscimos, mais 15 de intervalo e oito do segundo tempo. Um total de 31 minutos de espera na fila com os mais diferentes absurdos. Um (des)serviço para envergonhar qualquer cidadão.

No segundo tempo mais um gol anulado (não vi, estava na fila do bar) e tive a impressão do México ter voltado abastecido de tequila. O jogo variava entre a pressão mexicana e os contra-ataques brasileiros. A arquibancada não cansava de fazer “ola”. Sensacional. No fim, uma jogada de craque para um gol de canela. 2 x 0. Alegria, alegria. E com alguns manifestantes empunhei meu cartaz “Verás que um filho teu não foge à luta” e comemorei a vitória.

O percurso de retorno foi festivo, porém… Voluntários da FIFA me enviaram para uma caminhada de dois quilômetros num caminho inverso da parada do meu ônibus. Eu queria retornar ao Centro de Eventos, mas no local só haviam condução para o Aeroporto, Siqueira, Antônio Bezerra e a baixa da égua. Solicitei ao fiscal um ônibus para o local e após uma espera de quase uma hora consegui seguir viagem. Muitos erros, muitas emoções, muito cansaço, muito sentidos, muitos sentimentos, muito tudo.

Mesmo cansado, pensei no melhor. O céu era logo ali. Voltei feliz com a vitória do Brasil – dentro de campo. E mais feliz ainda com a goleada do Brasil – fora de campo. Reza a lenda que foi um dia história. Reza a lenda não, FOI! BRASIL IL IL IL.