Em cidade onde bares não duram muito, Órbita mantém público fiel há 16 anos


Em cidade onde bares não duram tanto, Órbita mantém público fiel há 16 anos

O Órbita Bar, aberto no ano do lançamento do Centro Dragão do Mar, é uma rara casa de show que segue de pé desde a década de 1990

Por Renata Monte em Comportamento

28 de maio de 2015 às 07:00

Há 4 anos
Gabi Simões, Vera Figueiredo, Patrícia Carvalhedo e Ezio Bessa fazem parte do grupo responsável pelas festas do Órbita Bar (FOTO: Arquivo pessoal)

Gabi Simões, Vera Figueiredo, Patrícia Carvalhedo e Ezio Bessa fazem parte do grupo responsável pelas festas do Órbita Bar (FOTO: Arquivo pessoal)

Há 16 anos, nem Patrícia Carvalhedo e nem Sean Bolger imaginariam o que o seu antigo “D.Q.E Jegue” se transformaria no que atualmente é o Órbita Bar, em Fortaleza. O plano original da dupla, que saiu dos Estados Unidos para morar no Brasil, era abrir uma academia, mas a música os conduziu para outro caminho. Hoje, Patrícia toca a administração da casa sem a ajuda do antigo companheiro, já falecido, e diz que não há uma fórmula exata para o sucesso do bar.

Patrícia é filha de cearense, mas nasceu nos EUA. Aproveitando a nacionalidade americana, decidiu morar no país aos 18 anos e se formou em Mecânica. Em Boston, conheceu o vizinho e futuro namorado Sean, um artista plástico irlandês. Apaixonados por rock, os dois compraram uma Kombi e viajaram por cerca de oito anos pelos EUA. O sonho de Patrícia sempre foi morar na terra natal do pai. “Quando eu era criança, vinha pra cá durante as férias. Aqui era meu paraíso”, relembra.

Quando aportaram em terras alencarinas, a abertura da academia pareceu inviável. Foi quando decidiram abrir o D.Q.E Jegue (De Quem é Esse Jegue), um bar com música eletrônica. O estilo musical levou o empreendimento a falir em seis meses. “Era uma época em que a música eletrônica ainda estava chegando em São Paulo. Aqui ainda não tinha nada disso”, explica Patrícia.

O nome “Órbita” foi escolhido em homenagem a uma dupla inglesa de música eletrônica, que surgiu nos anos 80. E o surgimento, em 1999, veio no mesmo ano de abertura do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura.

A empresária conta que, no começo, o Órbita sofreu bastante preconceito por ser uma “casa de gringo“. Ela explica que um empreendimento de dono estrangeiro, em Fortaleza, já era visto como algo marginalizado, por conta da forte atividade de prostituição na cidade. “Fomos taxados também de ‘casa gay’, no começo”, recorda, em meio a gargalhadas.

Sean Bolger, o patriarca

Sean se formou em Belas Artes. Seu maior desejo era ter cursado Música, mas o pai nunca o permitiu. Para ele, a música sempre foi um refúgio da realidade. As canções que saiam dos seus fones de ouvido se tornavam um recanto seguro.

A americana e o irlandês, de almas bem brasileiras, moraram em São Paulo, quando chegaram ao Brasil. O namoro foi se transformando em uma amizade cada vez mais forte e assim seguiu. O que não mudou foi o desejo de abrir o tão sonhado negócio.

Em dezembro de 2012, Sean morreu depois de seis anos de luta contra Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), uma doença degenerativa. Assim que descobriu sobre o estado de saúde, passou a preparar a amiga e companheira para administrar o bar sozinha. “Ele foi fazendo com que eu tomasse decisões sem a ajuda dele, e ele fez isso sem que eu percebesse”, conta Patrícia.

Mesmo com a doença, Sean não deixava de frequentar o Órbita. Em meio a esse tempo, Patrícia teve filhos do novo casamento e ficou mais afastada do local de trabalho. O sócio ia ao bar para trabalhar mesmo em uma cadeira de rodas. “Nada passava despercebido. Depois ele chegava e me dizia se a banda estava repetitiva, se os funcionários estavam trabalhando direito, se o DJ estava ‘mantando cachê'”, explica.

Com a morte do dono, todos os funcionários sentiram a perda. “Ele era um homem da noite, sabia até da vida dos filhos de cada segurança, do time que o marido da pessoa que limpava os banheiros torcia”, conta a mulher, que afirma ter sido bem preparada pelo antigo dono.

“Sean era um homem da noite, sabia até da vida dos filhos de cada segurança, do time que o marido da pessoa que limpava os banheiros torcia”. (Patrícia Carvalhedo)

O antigo "De Quem é Esse Jegue" deu lugar ao Órbita Bar (FOTO: Arquivo pessoal)

O antigo “De Quem é Esse Jegue” deu lugar ao Órbita Bar (FOTO: Arquivo pessoal)

“Lendas urbanas”

Muito se fala sobre o Órbita Bar. Entre os funcionários, alguns comentários viram motivos de brincadeiras, apelidadas de “lendas urbanas”. Uma delas é a de que a casa seria um “lugar homofóbico”. Patrícia desmente o boato, afirmando que o bar é de livre acesso para todos os sexos e gêneros. “Aqui, não tem isso. Pode entrar todo mundo, e travesti usa banheiro feminino normalmente, como tem que ser”.

De acordo com a dona, outra “lenda urbana” é a de que na casa não toca música brasileira. Em meio a risos, ela conta que isso nunca foi um problema. “Prezamos por música boa, de qualidade, independente de ser brasileira ou estrangeira”.

Estrutura do Órbita

Fortaleza possui um histórico de grandes casas noturnas, que eventualmente fecham as portas ou mudam de proprietários. O Órbita vem se consagrando como um dos poucos bares a resistir ao tempo e ao mercado que, de acordo com Patrícia, é predatório.

A empresária diz que não há uma fórmula exata para o sucesso da casa, que funciona de quinta a domingo e tem capacidade para 1.400 pessoas. Com 50 funcionários, ela explica que o significado do Órbita é quase intangível. “Vai além daquela ‘caixa verde’, é orgânico. Somos uma família e o trabalho não é só pelo salário no final do mês. Não trabalhamos porque fazemos o que gostamos”, afirma.

Depois que faliu, com seis meses de “vida”, a dupla decidiu apostar na cena de rock e abrir as portas novamente e literalmente. As tradicionais portas laranjas ficavam abertas e qualquer um poderia entrar no bar. Depois que o lugar já estivesse cheio, as portas se fechavam e aí passava-se a cobrar a entrada. Hoje, outra estratégia ficou conhecida pelos frequentadores do local como a “fila dos pobres”, uma fila feita para que os 50 primeiros clientes não paguem.

Quem faz a programação artística do lugar é a dona, em parceria com o produtor André Fernandes. Os dois decidiram investir em bandas autorais da cidade, e foi no bar que muitos grupos ganharam reconhecimento na cidade e fora dela. “O cearense não compra o que é local, só compra o que é de fora, mas aqui tem muita coisa boa. A gente gosta de cover, mas a gente gosta mais ainda de banda autoral”.

“O cearense não compra o que é local, só compra o que é de fora, mas aqui tem muita coisa boa”.

“Uma coisa que a gente nunca fez e se orgulha disso é nunca ter aceitado propina de ninguém!”, exemplifica Patrícia sobre um caso em que um filho de um prefeito de uma cidade do interior do Ceará ofereceu R$ 3 mil para que o segurança do bar o deixasse passar na frente de todos, mas sem obter sucesso.

ÓRBITA BAR
ÓRBITA BAR
ÓRBITA BAR
ÓRBITA BAR

O clima dentro “da órbita” é, de fato, harmonioso entre a equipe. Desde o segurança até os conhecidos barmans que fazem malabares com as garrafas e dançam nos balcões. Quando é noite de lotação, amigos dos funcionários e ex-funcionários trocam de lado e passam para dentro dos balcões para ajudar na entrega das bebidas. “Quando tá apertado, eu vou lavar a louça pra ajudar os meninos”, conta a empresária.

“É um lugar democrático, de socialização, de convergência, de tolerância. Nossa missão não é só vender cerveja, nossas bandas podem passar a tocar em qualquer lugar, não tem droga aqui dentro, nossos funcionários são eles mesmos. O Órbita é um local para abstrair, um portal que depois que você passa, esquece dos problemas”, explica Patrícia sobre os fatores que motivam o sucesso e o reconhecimento do bar na cidade.

Fortaleza tem um mercado predatório, constata. “As pessoas querem que você quebre, que você seja menor”, critica a empresária, que afirma que muitas casas noturnas acabam fechando as portas pela fragilidade dos empreendimentos. “Não tenho nada contra, mas não vou colocar, por exemplo, forró e sertanejo no Órbita só porque faz sucesso na cidade. Temos outra linha e apostamos nela”.

“As pessoas querem que você quebre, que você seja menor”.

Para ela, que já recebeu pedidos de franquia da casa, não há como definir o público frequentador do local e que isso é algo muito positivo. “Foi o rock que desmistificou e ajudou a casa. Somos um bar sem business plan e com muita intuição. A intenção é justamente não ter como definir nosso público. Rock não é só música, é um estilo de viver mais blasé e mais experimental”, finaliza.

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Em cidade onde bares não duram tanto, Órbita mantém público fiel há 16 anos

O Órbita Bar, aberto no ano do lançamento do Centro Dragão do Mar, é uma rara casa de show que segue de pé desde a década de 1990

Por Renata Monte em Comportamento

28 de maio de 2015 às 07:00

Há 4 anos
Gabi Simões, Vera Figueiredo, Patrícia Carvalhedo e Ezio Bessa fazem parte do grupo responsável pelas festas do Órbita Bar (FOTO: Arquivo pessoal)

Gabi Simões, Vera Figueiredo, Patrícia Carvalhedo e Ezio Bessa fazem parte do grupo responsável pelas festas do Órbita Bar (FOTO: Arquivo pessoal)

Há 16 anos, nem Patrícia Carvalhedo e nem Sean Bolger imaginariam o que o seu antigo “D.Q.E Jegue” se transformaria no que atualmente é o Órbita Bar, em Fortaleza. O plano original da dupla, que saiu dos Estados Unidos para morar no Brasil, era abrir uma academia, mas a música os conduziu para outro caminho. Hoje, Patrícia toca a administração da casa sem a ajuda do antigo companheiro, já falecido, e diz que não há uma fórmula exata para o sucesso do bar.

Patrícia é filha de cearense, mas nasceu nos EUA. Aproveitando a nacionalidade americana, decidiu morar no país aos 18 anos e se formou em Mecânica. Em Boston, conheceu o vizinho e futuro namorado Sean, um artista plástico irlandês. Apaixonados por rock, os dois compraram uma Kombi e viajaram por cerca de oito anos pelos EUA. O sonho de Patrícia sempre foi morar na terra natal do pai. “Quando eu era criança, vinha pra cá durante as férias. Aqui era meu paraíso”, relembra.

Quando aportaram em terras alencarinas, a abertura da academia pareceu inviável. Foi quando decidiram abrir o D.Q.E Jegue (De Quem é Esse Jegue), um bar com música eletrônica. O estilo musical levou o empreendimento a falir em seis meses. “Era uma época em que a música eletrônica ainda estava chegando em São Paulo. Aqui ainda não tinha nada disso”, explica Patrícia.

O nome “Órbita” foi escolhido em homenagem a uma dupla inglesa de música eletrônica, que surgiu nos anos 80. E o surgimento, em 1999, veio no mesmo ano de abertura do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura.

A empresária conta que, no começo, o Órbita sofreu bastante preconceito por ser uma “casa de gringo“. Ela explica que um empreendimento de dono estrangeiro, em Fortaleza, já era visto como algo marginalizado, por conta da forte atividade de prostituição na cidade. “Fomos taxados também de ‘casa gay’, no começo”, recorda, em meio a gargalhadas.

Sean Bolger, o patriarca

Sean se formou em Belas Artes. Seu maior desejo era ter cursado Música, mas o pai nunca o permitiu. Para ele, a música sempre foi um refúgio da realidade. As canções que saiam dos seus fones de ouvido se tornavam um recanto seguro.

A americana e o irlandês, de almas bem brasileiras, moraram em São Paulo, quando chegaram ao Brasil. O namoro foi se transformando em uma amizade cada vez mais forte e assim seguiu. O que não mudou foi o desejo de abrir o tão sonhado negócio.

Em dezembro de 2012, Sean morreu depois de seis anos de luta contra Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), uma doença degenerativa. Assim que descobriu sobre o estado de saúde, passou a preparar a amiga e companheira para administrar o bar sozinha. “Ele foi fazendo com que eu tomasse decisões sem a ajuda dele, e ele fez isso sem que eu percebesse”, conta Patrícia.

Mesmo com a doença, Sean não deixava de frequentar o Órbita. Em meio a esse tempo, Patrícia teve filhos do novo casamento e ficou mais afastada do local de trabalho. O sócio ia ao bar para trabalhar mesmo em uma cadeira de rodas. “Nada passava despercebido. Depois ele chegava e me dizia se a banda estava repetitiva, se os funcionários estavam trabalhando direito, se o DJ estava ‘mantando cachê'”, explica.

Com a morte do dono, todos os funcionários sentiram a perda. “Ele era um homem da noite, sabia até da vida dos filhos de cada segurança, do time que o marido da pessoa que limpava os banheiros torcia”, conta a mulher, que afirma ter sido bem preparada pelo antigo dono.

“Sean era um homem da noite, sabia até da vida dos filhos de cada segurança, do time que o marido da pessoa que limpava os banheiros torcia”. (Patrícia Carvalhedo)

O antigo "De Quem é Esse Jegue" deu lugar ao Órbita Bar (FOTO: Arquivo pessoal)

O antigo “De Quem é Esse Jegue” deu lugar ao Órbita Bar (FOTO: Arquivo pessoal)

“Lendas urbanas”

Muito se fala sobre o Órbita Bar. Entre os funcionários, alguns comentários viram motivos de brincadeiras, apelidadas de “lendas urbanas”. Uma delas é a de que a casa seria um “lugar homofóbico”. Patrícia desmente o boato, afirmando que o bar é de livre acesso para todos os sexos e gêneros. “Aqui, não tem isso. Pode entrar todo mundo, e travesti usa banheiro feminino normalmente, como tem que ser”.

De acordo com a dona, outra “lenda urbana” é a de que na casa não toca música brasileira. Em meio a risos, ela conta que isso nunca foi um problema. “Prezamos por música boa, de qualidade, independente de ser brasileira ou estrangeira”.

Estrutura do Órbita

Fortaleza possui um histórico de grandes casas noturnas, que eventualmente fecham as portas ou mudam de proprietários. O Órbita vem se consagrando como um dos poucos bares a resistir ao tempo e ao mercado que, de acordo com Patrícia, é predatório.

A empresária diz que não há uma fórmula exata para o sucesso da casa, que funciona de quinta a domingo e tem capacidade para 1.400 pessoas. Com 50 funcionários, ela explica que o significado do Órbita é quase intangível. “Vai além daquela ‘caixa verde’, é orgânico. Somos uma família e o trabalho não é só pelo salário no final do mês. Não trabalhamos porque fazemos o que gostamos”, afirma.

Depois que faliu, com seis meses de “vida”, a dupla decidiu apostar na cena de rock e abrir as portas novamente e literalmente. As tradicionais portas laranjas ficavam abertas e qualquer um poderia entrar no bar. Depois que o lugar já estivesse cheio, as portas se fechavam e aí passava-se a cobrar a entrada. Hoje, outra estratégia ficou conhecida pelos frequentadores do local como a “fila dos pobres”, uma fila feita para que os 50 primeiros clientes não paguem.

Quem faz a programação artística do lugar é a dona, em parceria com o produtor André Fernandes. Os dois decidiram investir em bandas autorais da cidade, e foi no bar que muitos grupos ganharam reconhecimento na cidade e fora dela. “O cearense não compra o que é local, só compra o que é de fora, mas aqui tem muita coisa boa. A gente gosta de cover, mas a gente gosta mais ainda de banda autoral”.

“O cearense não compra o que é local, só compra o que é de fora, mas aqui tem muita coisa boa”.

“Uma coisa que a gente nunca fez e se orgulha disso é nunca ter aceitado propina de ninguém!”, exemplifica Patrícia sobre um caso em que um filho de um prefeito de uma cidade do interior do Ceará ofereceu R$ 3 mil para que o segurança do bar o deixasse passar na frente de todos, mas sem obter sucesso.

ÓRBITA BAR
ÓRBITA BAR
ÓRBITA BAR
ÓRBITA BAR

O clima dentro “da órbita” é, de fato, harmonioso entre a equipe. Desde o segurança até os conhecidos barmans que fazem malabares com as garrafas e dançam nos balcões. Quando é noite de lotação, amigos dos funcionários e ex-funcionários trocam de lado e passam para dentro dos balcões para ajudar na entrega das bebidas. “Quando tá apertado, eu vou lavar a louça pra ajudar os meninos”, conta a empresária.

“É um lugar democrático, de socialização, de convergência, de tolerância. Nossa missão não é só vender cerveja, nossas bandas podem passar a tocar em qualquer lugar, não tem droga aqui dentro, nossos funcionários são eles mesmos. O Órbita é um local para abstrair, um portal que depois que você passa, esquece dos problemas”, explica Patrícia sobre os fatores que motivam o sucesso e o reconhecimento do bar na cidade.

Fortaleza tem um mercado predatório, constata. “As pessoas querem que você quebre, que você seja menor”, critica a empresária, que afirma que muitas casas noturnas acabam fechando as portas pela fragilidade dos empreendimentos. “Não tenho nada contra, mas não vou colocar, por exemplo, forró e sertanejo no Órbita só porque faz sucesso na cidade. Temos outra linha e apostamos nela”.

“As pessoas querem que você quebre, que você seja menor”.

Para ela, que já recebeu pedidos de franquia da casa, não há como definir o público frequentador do local e que isso é algo muito positivo. “Foi o rock que desmistificou e ajudou a casa. Somos um bar sem business plan e com muita intuição. A intenção é justamente não ter como definir nosso público. Rock não é só música, é um estilo de viver mais blasé e mais experimental”, finaliza.