Educador há 30 anos, francês avalia a educação brasileira

ENTREVISTA

Educador há 30 anos, francês avalia a educação brasileira

O Tribuna do Ceará entrevistou o francês Marc Ellul, experiente educador que há três décadas leva a cultura e educação da francofonia pelo mundo

Por Tribuna do Ceará em Carreira

31 de agosto de 2019 às 17:47

Há 3 semanas
marc-ellul-aff

Marc Ellul veio morar no Brasil há menos de 1 ano (FOTO: Divulgação)

O Tribuna do Ceará entrevistou o francês Marc Ellul, experiente educador que há três décadas leva a cultura e educação da francofonia pelo mundo. Sua missão atual é Fortaleza.

Tribuna do Ceará: Como o senhor avalia a educação no Brasil?
Marc Ellul: Primeiro, é importante dizer que não tenho como falar com a propriedade necessária. Não sobre educação, setor que trabalho há cerca de 30 anos, mas mais especificamente sobre o Brasil, pois não faz nem um ano ainda que cheguei. Mas o que sei bem é que o país tem boas universidades, mas vem sofrendo com o corte de verbas e programas educacionais e outros projetos culturais. Apesar das dificuldades, acredito que cada aluno pode fazer a diferença ao se dedicar mais a aquilo que tem mais afinidade dentro de cada curso.

Tribuna: Como foram esses 30 anos trabalhando com educação?
Marc: Estive à frente de muitas escolas francesas ao redor do mundo, e responsável por Liceus francesas da Europa no Ministério da França. Já fui professor e diretor educacional e executivo no México, Honduras, Bélgica, Argélia, Marrocos, Egito, Líbia e agora no Brasil, em Fortaleza (CE), como diretor executivo da Aliança Francesa. Trabalhar hoje numa instituição respeitável, e que há mais de 70 anos promove a língua e a cultura francesa no Estado, além de ser uma associação sem fins lucrativos, de utilidade pública, sendo o único curso de língua francesa reconhecido pelo governo francês, estou mais que orgulhoso.

Tribuna: Qual sua missão no Brasil?
Marc: Uma das nossas missões, como educadores da Aliança Francesa (ou atrelados ao Instituto Francês), é ter uma política de cooperação educacional, levando não apenas a questão de se aprender uma nova língua, no caso o Francês. Mas também ensinar valores, costumes e principalmente a cultura francófona. Acho que não apenas esse senso de iniciativa, mas também o vínculo estabelecido diariamente no Brasil, nos coloca como um conselheiro educacional que é capaz de mostrar um outro olhar do aprendizado aos nossos alunos.

Tribuna: Percebe diferenças no “modus operandi” da educação brasileira à francesa?
Marc: O Brasil é um país de tamanho continental, enquanto a França tem o tamanho de um estado brasileiro. Isso impacta também na educação e nas várias formas de se propagar o conhecimento. Nos dois casos, a educação é um assunto nacional, e tem uma importância essencial na formação do ser humano. O que sabemos é que o investimento na França é bem maior, proporcionalmente, colocando o país como 20º melhor posto de educação mundial, enquanto o Brasil, está em 85º. Independentemente de quem esteja no poder ou de qual partido seja, o investimento em educação é primordial para qualquer país do mundo.

Tribuna: No que ainda precisamos melhorar?
Marc: Não posso responder por todo mundo, nem mesmo como a educação do Brasil pode melhorar, infelizmente. Mas posso falar a minha experiência pessoal com isso e como posso fazer para que aqueles que estejam ao meu redor sejam alunos melhores e como consequência, pessoas melhores. Todo dia eu penso em como eu, na minha função, posso melhorar e ajudar cada estudante em sua vida. De passar o ensinamento não apenas uma nova língua, mas uma cultura que posso ser levada a diante como algo positivo para a sua vida. Pergunte-se a si mesma, “o que aprendeu hoje?” Por isso é importante dizer que, estou muito feliz em trabalhar aqui em Fortaleza, e desenvolver esta aliança Brasil-França. Por consolidar não apenas as relações entre os países, mas gerar vivências e novas oportunidades de trabalho também para os nossos alunos. A educação leva você para qualquer lugar.

marc aliança francesa

Francês considera que tem missão no Brasil (FOTO: Divulgação)

Tribuna: Ao chegar aqui em Fortaleza, qual foi o maior choque cultural que o senhor se deparou?
Marc: Assim, eu conheço bem a América Latina e digamos que não foi exatamente um choque. Mas é importante salientar que existe uma diferença visível de classes sociais. Também tive alguns problemas com falta de pontualidade e um uso sempre recorrente de um “estou chegando” para os compromissos agendados (RISOS). Eu até tento me acostumar com essas situações (principalmente de atraso), tão corriqueiras, mas eu não consigo. De toda forma, estou aqui, tranquilo, sempre disposto a trabalhar e dar o meu melhor.

Tribuna: Qual a importância de aprender um segundo idioma?
Marc: Em um mundo globalizado, você precisa estar atualizado com a sua cultura e estudos, estar em dia não apenas com a língua materna, mas também ter um segundo idioma que o diferencia do mercado comum. Eu sempre falo: “Faça diferente, fale francês”. E isso não é por acaso. Em Fortaleza, a Aliança Francesa é a única escola reconhecida pelo governo da França, parceira de várias instituições de educação na França. Através do segundo idioma, você não apenas tem mais chances em empregos, mas também pode escolher fazer uma educação continuada.

Tribuna: Mas porque você indica o francês?
Marc: Primeiro temos a questão econômica. Com a expansão dos negócios locais – como o hub aéreo de Fortaleza –, o requisito tem sido exigência básica não apenas de empresas brasileiras como de multinacionais. Mas olhando para fora, as oportunidades também estão no Canadá, por exemplo. Estima-se que lá falta mão de obra para quase meio milhão de vagas e, pelo menos, a metade do país (e consequentemente das empresas contratantes), falam o francês, daí entra o que chamei de diferencial. Numa sociedade industrial de alta tecnologia, o Canadá tem um dos mais altos PIBs do mundo… Agora, sobre a educação continuada, mais boas novas. A cada semestre o governo francês (através do Ministério das Relações Exteriores), oferece bolsas de estudo para estrangeiros que desejam estudar em instituições francesas de ensino superior. A chamada Bolsa Eiffel dispõe de programas para pós-graduação, mestrado ou doutorado, em áreas de ciências do engenheiro, economia, administração, direito e ciências políticas. Com um visto de estudante de longa duração, o estudante internacional tem permissão para trabalhar até meio período, o que possibilita a complementação da renda durante os estudos. Além disso, há cursos que possibilitam estágio remunerado. Para se candidatar às universidades, faculdades ou para empregos que precisam comprovar o seu nível de francês, através de um teste de proficiência (DELF/DALF ou TCF), que são diplomas do ministério da educação da França, em Fortaleza esses testes só podem ser feitos na Aliança Francesa. Então, nos vemos em breve na sala de aula?

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Educador há 30 anos, francês avalia a educação brasileira

O Tribuna do Ceará entrevistou o francês Marc Ellul, experiente educador que há três décadas leva a cultura e educação da francofonia pelo mundo

Por Tribuna do Ceará em Carreira

31 de agosto de 2019 às 17:47

Há 3 semanas
marc-ellul-aff

Marc Ellul veio morar no Brasil há menos de 1 ano (FOTO: Divulgação)

O Tribuna do Ceará entrevistou o francês Marc Ellul, experiente educador que há três décadas leva a cultura e educação da francofonia pelo mundo. Sua missão atual é Fortaleza.

Tribuna do Ceará: Como o senhor avalia a educação no Brasil?
Marc Ellul: Primeiro, é importante dizer que não tenho como falar com a propriedade necessária. Não sobre educação, setor que trabalho há cerca de 30 anos, mas mais especificamente sobre o Brasil, pois não faz nem um ano ainda que cheguei. Mas o que sei bem é que o país tem boas universidades, mas vem sofrendo com o corte de verbas e programas educacionais e outros projetos culturais. Apesar das dificuldades, acredito que cada aluno pode fazer a diferença ao se dedicar mais a aquilo que tem mais afinidade dentro de cada curso.

Tribuna: Como foram esses 30 anos trabalhando com educação?
Marc: Estive à frente de muitas escolas francesas ao redor do mundo, e responsável por Liceus francesas da Europa no Ministério da França. Já fui professor e diretor educacional e executivo no México, Honduras, Bélgica, Argélia, Marrocos, Egito, Líbia e agora no Brasil, em Fortaleza (CE), como diretor executivo da Aliança Francesa. Trabalhar hoje numa instituição respeitável, e que há mais de 70 anos promove a língua e a cultura francesa no Estado, além de ser uma associação sem fins lucrativos, de utilidade pública, sendo o único curso de língua francesa reconhecido pelo governo francês, estou mais que orgulhoso.

Tribuna: Qual sua missão no Brasil?
Marc: Uma das nossas missões, como educadores da Aliança Francesa (ou atrelados ao Instituto Francês), é ter uma política de cooperação educacional, levando não apenas a questão de se aprender uma nova língua, no caso o Francês. Mas também ensinar valores, costumes e principalmente a cultura francófona. Acho que não apenas esse senso de iniciativa, mas também o vínculo estabelecido diariamente no Brasil, nos coloca como um conselheiro educacional que é capaz de mostrar um outro olhar do aprendizado aos nossos alunos.

Tribuna: Percebe diferenças no “modus operandi” da educação brasileira à francesa?
Marc: O Brasil é um país de tamanho continental, enquanto a França tem o tamanho de um estado brasileiro. Isso impacta também na educação e nas várias formas de se propagar o conhecimento. Nos dois casos, a educação é um assunto nacional, e tem uma importância essencial na formação do ser humano. O que sabemos é que o investimento na França é bem maior, proporcionalmente, colocando o país como 20º melhor posto de educação mundial, enquanto o Brasil, está em 85º. Independentemente de quem esteja no poder ou de qual partido seja, o investimento em educação é primordial para qualquer país do mundo.

Tribuna: No que ainda precisamos melhorar?
Marc: Não posso responder por todo mundo, nem mesmo como a educação do Brasil pode melhorar, infelizmente. Mas posso falar a minha experiência pessoal com isso e como posso fazer para que aqueles que estejam ao meu redor sejam alunos melhores e como consequência, pessoas melhores. Todo dia eu penso em como eu, na minha função, posso melhorar e ajudar cada estudante em sua vida. De passar o ensinamento não apenas uma nova língua, mas uma cultura que posso ser levada a diante como algo positivo para a sua vida. Pergunte-se a si mesma, “o que aprendeu hoje?” Por isso é importante dizer que, estou muito feliz em trabalhar aqui em Fortaleza, e desenvolver esta aliança Brasil-França. Por consolidar não apenas as relações entre os países, mas gerar vivências e novas oportunidades de trabalho também para os nossos alunos. A educação leva você para qualquer lugar.

marc aliança francesa

Francês considera que tem missão no Brasil (FOTO: Divulgação)

Tribuna: Ao chegar aqui em Fortaleza, qual foi o maior choque cultural que o senhor se deparou?
Marc: Assim, eu conheço bem a América Latina e digamos que não foi exatamente um choque. Mas é importante salientar que existe uma diferença visível de classes sociais. Também tive alguns problemas com falta de pontualidade e um uso sempre recorrente de um “estou chegando” para os compromissos agendados (RISOS). Eu até tento me acostumar com essas situações (principalmente de atraso), tão corriqueiras, mas eu não consigo. De toda forma, estou aqui, tranquilo, sempre disposto a trabalhar e dar o meu melhor.

Tribuna: Qual a importância de aprender um segundo idioma?
Marc: Em um mundo globalizado, você precisa estar atualizado com a sua cultura e estudos, estar em dia não apenas com a língua materna, mas também ter um segundo idioma que o diferencia do mercado comum. Eu sempre falo: “Faça diferente, fale francês”. E isso não é por acaso. Em Fortaleza, a Aliança Francesa é a única escola reconhecida pelo governo da França, parceira de várias instituições de educação na França. Através do segundo idioma, você não apenas tem mais chances em empregos, mas também pode escolher fazer uma educação continuada.

Tribuna: Mas porque você indica o francês?
Marc: Primeiro temos a questão econômica. Com a expansão dos negócios locais – como o hub aéreo de Fortaleza –, o requisito tem sido exigência básica não apenas de empresas brasileiras como de multinacionais. Mas olhando para fora, as oportunidades também estão no Canadá, por exemplo. Estima-se que lá falta mão de obra para quase meio milhão de vagas e, pelo menos, a metade do país (e consequentemente das empresas contratantes), falam o francês, daí entra o que chamei de diferencial. Numa sociedade industrial de alta tecnologia, o Canadá tem um dos mais altos PIBs do mundo… Agora, sobre a educação continuada, mais boas novas. A cada semestre o governo francês (através do Ministério das Relações Exteriores), oferece bolsas de estudo para estrangeiros que desejam estudar em instituições francesas de ensino superior. A chamada Bolsa Eiffel dispõe de programas para pós-graduação, mestrado ou doutorado, em áreas de ciências do engenheiro, economia, administração, direito e ciências políticas. Com um visto de estudante de longa duração, o estudante internacional tem permissão para trabalhar até meio período, o que possibilita a complementação da renda durante os estudos. Além disso, há cursos que possibilitam estágio remunerado. Para se candidatar às universidades, faculdades ou para empregos que precisam comprovar o seu nível de francês, através de um teste de proficiência (DELF/DALF ou TCF), que são diplomas do ministério da educação da França, em Fortaleza esses testes só podem ser feitos na Aliança Francesa. Então, nos vemos em breve na sala de aula?