Conheça as histórias de alunos de três escolas públicas do interior do Ceará que tiveram ideias premiadas nas maiores feiras de ciências escolares do Brasil e do mundo em 2019

EXPEDIENTE

Reportagem: William Barros

Edição: Hayanne Narlla, Rafael Luis Azevedo e Roberta Tavares

Implementação: Uhull

Publicado em 20 de setembro de 2019

Boas ideias a serviço do mundo

Estudantes de Bela Cruz, Iracema e Cascavel se destacaram na 17ª Febrace (FOTO: Febrace)

A curiosidade e a vontade de mudar o mundo são características comuns a Cibele, Nicolly, Yanne, Guilherme, Eduarda, Cássia e Myllena. Não à toa, foi das cabeças desses sete jovens cearenses que surgiram iniciativas científicas socialmente responsáveis reconhecidas nas principais mostras de ciências escolares do Brasil e do mundo.

Estudantes de escolas públicas do interior do estado, eles mudaram as realidades de suas comunidades por meio de projetos desenvolvidos na sala de aula.

Quengas de coco viraram um piso resistente para residências cujo chão ainda era de terra batida. Agrotóxicos foram identificados como causadores de doenças neurológicas. Tijolos de baixo custo se revelaram uma alternativa para o barro das casas de taipa.

Com essas e outras ideias, os adolescentes representaram o estado na 17ª edição da maior exposição científica escolar do Brasil, a Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (Febrace), promovida pela Universidade de São Paulo (USP). Dois projetos cearenses alcançaram a 1ª colocação na mostra.

“Uma característica importante dos trabalhos apresentados pelo Ceará na Febrace é a grande preocupação com problemas reais de suas comunidades e a capacidade criativa e de implementação de soluções sustentáveis demonstrada pelos estudantes”, destaca Roseli de Deus Lopes, coordenadora geral da feira e professora da Escola Politécnica da USP.

Os vitoriosos na disputa nacional foram mais longe, até Phoenix, capital do estado norte-americano do Arizona. Lá, as duplas representaram o Brasil na Intel Isef, a maior feira científica escolar do mundo.

Durante uma semana, os alunos estiveram em contato com mais de 80 estudantes e professores de diversos países. Para muitos, os sete dias marcaram a realização do sonho mais alto de qualquer pesquisador.

Depois das viagens, a bagagem voltou mais pesada. Além das ideias, veio junto o relato de uma experiência única nas suas vidas. O Tribuna do Ceará convida os jovens cientistas a abrirem a mala para compartilhar as vivências proporcionadas por suas boas ideias.

Um piso feito com restos de coco

Estudantes de Bela Cruz descobriram que quengas de coco descartadas nas ruas poderiam virar um piso de alta resistência (FOTO: Marcos Studart)

Uma pesquisa despretensiosa levou as cearenses Cibele Furtado, de 17 anos, e Nicolly Menezes, 16, a realizarem o sonho de participar da maior feira de ciências do mundo. Movidas pela curiosidade, as estudantes descobriram que quengas de coco descartadas nas ruas de Bela Cruz poderiam virar um piso de alta resistência.

Com o chamado endopiso, as moradoras do município localizado a 245 quilômetros de Fortaleza representaram o Brasil no evento ocorrido em Phoenix. A experiência parecia inalcançável até então, como conta Cibele.

“Tinha muita vontade de participar, mas achava que nunca aconteceria. Já faz um tempo que voltei de lá e ainda não caiu a ficha de que participei. Foi a melhor experiência da minha vida”, define a aluna da Escola Estadual de Educação Profissional Júlio França.

Cibele e Nicolly vestiram o uniforme verde e amarelo para fazer parte da “Seleção Brasileira” na Intel Isef (FOTOS: Arquivo Pessoal)

Cibele e Nicolly vestiram o uniforme verde e amarelo para fazer parte da “Seleção Brasileira” na Intel Isef (FOTOS: Arquivo Pessoal)

Entre línguas e culturas diferentes, o que mais marcou Cibele foi a percepção de que a educação brasileira “não está tão atrás” do que é visto no exterior.

“Pude ver que a educação do Ceará é referência. Dá vontade de pegar todos os estudantes e levar para essa feira, para que eles possam perceber como a educação é transformadora”, descreve a jovem.

As criadoras do endopiso consideravam a Febrace um sonho distante, mas saíram vitoriosas (FOTO: Acervo da EEEP Júlio França)

A mala voltou pesada

Na Febrace, as estudantes de Bela Cruz alcançaram o 1º lugar na categoria de Engenharia. A colocação coroou o momento que Cibele define como “inigualável”. “Fomos avaliadas por doutores, graduados e graduandos, que falavam que nossa ideia é incrível. A sensação que tenho é que fomos levando uma mala vazia e trouxemos ela super pesada, cheia de experiências e de vontade de mudar a realidade aqui da cidade”, comenta a autora do projeto.

Durante o evento nacional, o projeto também recebeu o Prêmio Petrobras, que ofereceu a elas a oportunidade de conhecer o Centro de Pesquisa e Desenvolvimento Leopoldo Américo Miguez de Mello (Cenpes), no Rio de Janeiro.

“Podemos ver como, quando e qual a quantidade de petróleo é extraído. A gente conseguiu desvendar pequenos detalhes e mitos que a gente tinha sobre a extração. Conversamos com os próprios produtores”, anima-se Cibele ao recordar a visita.

Pude ver que a educação do Ceará
é referência. Dá vontade de pegar
todos os estudantes e levar para
essa feira, para que eles possam
perceber como a educação é transformadora.

Cibele Furtado, estudante da Escola
Estadual de Educação Profissional
Júlio França, de Bela Cruz.

A ideia de Cibele e Nicolly surgiu despretensiosamente (FOTO: Acervo da EEEP Júlio França)

Das caminhadas, uma descoberta

Quando passavam pelas ruas de Bela Cruz, os muitos cocos jogados nas calçadas de bares e feiras chamavam a atenção da dupla. Também pudera, o município está inserido no Vale do Acaraú, que é um dos maiores produtores de coco no Brasil.

Da observação, as estudantes partiram para a pesquisa, em dezembro de 2017, e descobriram o composto químico que permitiu o desenvolvimento do projeto: a lignina.

“Esse composto químico é o que dá resistência ao coco. Descobrimos quando fomos pesquisar, por pura curiosidade”, explica a estudante.

As quengas de coco são trituradas e moldadas num suporte de madeira (FOTOS: Acervo da EEEP Júlio França e Marcos Studart)

As quengas de coco são trituradas e moldadas num suporte de madeira (FOTOS: Acervo da EEEP Júlio França e Marcos Studart)

As quengas de coco são trituradas e moldadas num suporte de madeira (FOTOS: Acervo da EEEP Júlio França e Marcos Studart)

As quengas de coco são trituradas e moldadas num suporte de madeira (FOTOS: Acervo da EEEP Júlio França e Marcos Studart)

As quengas de coco são trituradas e moldadas num suporte de madeira (FOTOS: Acervo da EEEP Júlio França e Marcos Studart)

A substância está presente no endocarpo lenhoso, nome científico dado à quenga do coco, que é a matéria prima para o endopiso. Durante o processo de produção, o material também recebe alguns aditivos.

“Nós misturamos essa matéria prima com alguns aglomerantes e temos como resultado um piso ecossustentável, de baixo custo, com aplicabilidade na construção civil”, destaca.

Até o produto atingir a funcionalidade, as estudantes precisaram encontrar soluções para as dificuldades técnicas surgidas no decorrer do processo. No entanto, Cibele e Nicolly persistiram, movidas pela vontade de transformar sua comunidade.

“A gente viu que muitas casas não tinham piso e isso mexeu com a gente demais. Tiveram problemas técnicos, mas o que realmente importa no fim do dia é que a gente está mudando a realidade do município, das pessoas, da nossa família,” destaca.

A independência das alunas é a principal característica destacada pelo orientador do trabalho (FOTO: Marcos Studart)

Autonomia e inspiração

Cibele e Nicolly contaram com a orientação de Francigleison Pontes, professor de Física. Segundo ele, a autonomia das alunas foi preponderante na execução do projeto.

“Sempre foram muito independentes, estavam à frente de todo o processo, desde a trituração do material até a aplicação do piso. Me procuravam para ouvir uma sugestão ou outra, mas acabaram resolvendo a maior parte dos problemas sozinhas”, avalia o docente.

Francigleison destaca que o endopiso é mais resistente do que outros materiais, como o porcelanato. No entanto, para ele, o principal resultado do projeto está na própria educação, já que o sucesso das alunas tem inspirado outros alunos da mesma escola.

A EEEP Júlio França integra o Ensino Médio à formação técnica (FOTO: Raylanderson Araújo)

“Muitos estudantes estão despertando o olhar para a iniciação científica. É o melhor resultado que estou podendo ver. Isso é muito satisfatório para mim, como professor”, afirma.

Essa não é a primeira vez que um projeto da EEEP Júlio França participa de feiras científicas. A instituição já recebeu o título de destaque em Gestão Escolar.

“Temos a pesquisa como princípio pedagógico, instrumento de ensino, de aprendizagem e de avaliação, sendo o ponto de partida e de chegada no processo de ensino-aprendizagem”, justifica Girliane Teixeira, diretora da escola.

As estudantes guardam, com orgulho, os troféus e medalhas conquistados com o endopiso (FOTO: Marcos Studart)

Cidade orgulhosa

Filha de um motorista e uma agente de saúde, Cibele tem notado o orgulho no rosto dos pais. Tanto eles quanto os de Nicolly assistiram à premiação pelo celular, por meio de uma transmissão ao vivo.

“Nossos pais estão orgulhosos, porque era o nosso sonho. A mãe da Nicole quase chorou quando chegamos. Ver os nossos nomes serem chamados deve ter sido uma sensação sem igual para eles”, reflete a estudante.

Durante a produção do piso, Cibele e Nicolly contaram com o auxílio de amigos, professores, colegas de escola e outros profissionais da cidade. Por isso, a satisfação pela conquista das jovens se estendeu também a essas pessoas.

“Quando chegamos e vimos o orgulho deles, foi uma sensação que não dá para pagar nem medir”, relembra.

Depois de tantas conquistas, Cibele e Nicolly não sentem mais medo de sonhar alto. Nos próximos passos, pretendem patentear o endopiso e abrir uma cooperativa. O que começou como uma pesquisa despretensiosa poderá se transformar em um empreendimento de sucesso.

Fala aí

Doenças neurológicas têm relação com agrotóxicos

Dois estudantes ajudaram a investigar o aparecimento de doenças neurológicas na Chapada do Apodi (FOTO: Arquivo pessoal)

Que relação poderia existir entre doenças neurodegenerativas e uso excessivo de agrotóxicos? Ao responder essa pergunta, Yanne Lara Gurgel e José Guilherme Oliveira, ambos com 17 anos, carimbaram passaporte para a principal mostra científica internacional.

Da ida de Iracema, na mesorregião do Jaguaribe, para terras norte-americanas, os alunos da Escola de Ensino Médio Joaquim de Figueiredo Correia destacam o contato com outras culturas e a oportunidade de representar o Brasil na feira.

“A Isef é o sonho de qualquer cientista. Sem dúvidas, foi uma experiência única em minha vida. Me acrescentou em muita coisa, foi surreal. Viajar representando o Brasil superou todas as minhas expectativas”, classifica Yanne.

Ainda na etapa nacional, os estudantes alcançaram a primeira colocação na categoria de Ciências Biológicas, além do título de melhor trabalho em Bioquímica e Biologia Molecular pela Sociedade Brasileira de Bioquímica e Biologia Molecular (SBBq).

Para Yanne, a Febrace foi a oportunidade de adquirir ainda mais conhecimento. “Foi uma das melhores feiras que participei. Ela preserva muito as raízes do que é uma feira de ciências. A equipe é maravilhosa e tem pessoas incríveis”, analisa.

A Isef é o sonho de qualquer
cientista. Sem dúvidas, foi uma
experiência única em minha
vida. Foi surreal.

Yanne Lara Gurgel, estudante da Escola
de Ensino Médio Joaquim de Figueiredo
Correia, de Iracema.

Yanne e Guilherme foram destaques na feira nacional em 2019 (FOTO: Arquivo pessoal)

A resposta

Na região do Vale do Jaguaribe, doenças como Alzheimer, Parkinson e depressão de longo prazo apareciam com frequência, até mesmo quando não havia histórico familiar. A explicação encontrada pelos jovens iracemenses veio depois de diversas análises.

“13 defensivos agrícolas encontrados nas águas subterrâneas de 20 poços do Vale do Jaguaribe têm relação direta com a formação de doenças neurológicas altamente degenerativas”, conclui a dupla no texto de sua pesquisa.

Para chegar a essa constatação, Guilherme e Yanne não se limitaram ao pequeno laboratório de sua escola. Quando precisavam realizar testes maiores, recorriam a Helyson Lucas, graduando em Química pela Universidade Estadual do Ceará (Uece) e ex-aluno da EEM Joaquim de Figueiredo Correia.

“Biotecnologia aqui é algo novo e escasso, então, tivemos que aprender com nossas próprias tentativas. Assim, conseguimos fazer a interação de agrotóxicos com as principais proteínas que causam doenças degenerativas”, explica a estudante.

Em maio, Yanne e Guilherme se apresentaram na Isef (FOTO: Arquivo pessoal)

Pelo olhar de quem orientou

Para Sebastiana Vicente Bezerra, orientadora da pesquisa, o desempenho dos alunos foi satisfatório, apesar de não terem sido premiados pela Intel Isef.

“Defenderam muito bem este grande trabalho. Mesmo não sendo premiados, a experiência incentivou ainda mais a participação em eventos científicos. Foi a realização do sonho de todo pesquisador e amante da ciência”, classifica a docente.

De acordo com ela, o sucesso do projeto tem incentivado outros alunos a trilharem o mesmo caminho. “É muito enriquecedor conhecer novas ideias, partilhar experiências e vivenciar diferentes culturas”, argumenta.

A iniciativa dos jovens de Iracema é o segundo projeto da EEM Joaquim de Figueiredo Correia a representar o Brasil na Intel Isef, como destaca o diretor Antonio Marcos Lima.

“É uma tremenda satisfação. Me sinto representado e muito orgulhoso em ver nossa bandeira, de uma pequena escola da periferia de Iracema, ser hasteada em solo americano”, comenta o profissional, que está à frente da gestão há mais de 15 anos.

Yanne promete não abandonar o projeto, mesmo depois de formada (FOTO: Arquivo pessoal)

Repercussão

Desde que voltou dos Estados Unidos, Yanne responde às perguntas sobre sua experiência no exterior. “As pessoas estão muito curiosas e estão sempre perguntando como foi e o que aconteceu por lá. Minha família está muito orgulhosa e meus amigos também”, revela.

Mesmo depois de tanto sucesso, a pesquisa não para. Segundo Yanne, a dupla deve começar em breve a fazer testes físicos. Para quem pretende ser biotecnóloga ou biomédica, a estudante já pode se considerar, de fato, uma cientista.

Fala aí

Uma solução para casas de taipa

Duas estudantes decidiram criar tijolos de baixo custo em Caponga, distrito de Cascavel (FOTO: Acervo pessoal)

Preocupadas com a saúde dos moradores de casas feitas com barro, Maria Eduarda Oliveira e Cássia Xavier, de 17 anos, decidiram criar tijolos de baixo custo em Caponga, distrito de Cascavel, cidade localizada a 62 quilômetros de Fortaleza.

O Projeto SOS Casa, desenvolvido pelas então alunas da Escola de Ensino Médio Ronaldo Caminha Barbosa, recebeu na Febrace o selo de Destaque em Tecnologia e Desenvolvimento Social.

“Vimos projetos excelentes, conhecemos pessoas, aprendemos bastante, e lidamos com vários profissionais, que acrescentaram bastante no nosso projeto. Foi uma experiência inesquecível”, define Eduarda.

Cássia e Eduarda encontraram uma alternativa para o uso de barro em casas de taipa (FOTO: Acervo pessoal)

Da preocupação com o barbeiro, uma solução

Mais uma aula de Biologia. À medida que a professora falava sobre o inseto conhecido como barbeiro, Eduarda e Cássia ficavam mais preocupadas. O animal é vetor da doença de Chagas e pode ser encontrado com facilidade em casas de taipa, feitas com barro e varas de bambu.

“Bem perto da escola existem algumas residências assim e nós conhecíamos pessoas que moravam nesse tipo de casa. Tivemos o interesse de saber se nós, como cidadãos, podíamos fazer algo por essas pessoas”, relembra Eduarda.

Assim, começaram a estudar como resíduos de coco, borracha, madeira e vidro descartados na comunidade poderiam se transformar em um tijolo ecológico e de baixo custo, pronto para ser aplicada nas casas de taipa. O resultado foi o projeto SOS Casa.

“Trituramos esses materiais, que são encontrados com abundância na comunidade, misturamos, moldamos em formas de madeira e deixamos secar ao sol por sete dias, dependendo do clima”, descreve a autora do projeto.

Cássia e Eduarda realizam um processo dividido em pelo menos cinco etapas para chegar ao produto final (FOTOS: Acervo pessoal)

Cássia e Eduarda realizam um processo dividido em pelo menos cinco etapas para chegar ao produto final (FOTOS: Acervo pessoal)

Cássia e Eduarda realizam um processo dividido em pelo menos cinco etapas para chegar ao produto final (FOTOS: Acervo pessoal)

Cássia e Eduarda realizam um processo dividido em pelo menos cinco etapas para chegar ao produto final (FOTOS: Acervo pessoal)

Para chegar a esse método, as alunas enfrentaram a falta de recursos. Em parceria com a Universidade Federal do Ceará (UFC), elas puderam realizar testes mais elaborados. No entanto, durante a aplicação dos tijolos, outra questão surgia.

“Estávamos mexendo com a intimidade dessas pessoas, estávamos nas casas delas. Mas conversamos muito com os moradores e fomos bem acolhidos”, revela Eduarda.

“Bem perto da escola existem algumas residências assim. Tivemos o interesse de saber se nós, como cidadãos, podíamos fazer algo por essas pessoas”. Maria Eduarda Oliveira, estudante da Escola de Ensino Médio Ronaldo Caminha Barbosa, de Cascavel.

Cássia e Eduarda realizam um processo dividido em pelo menos cinco etapas para chegar ao produto final (FOTOS: Acervo pessoal)

Protagonismo

Na visão de Joseline Maria Sousa, orientadora do projeto, a ideia já revela o lado consciente e atuante das jovens cidadãs.

“Tiveram um papel de protagonismo e empreendedorismo juvenil, porque foram as primeiras a trazer o problema para a sala, motivaram a turma e reuniram a equipe de pesquisa para ir ao campo”, justifica a professora de Biologia.

Recebendo mais de 400 alunos, a Escola de Ensino Médio Ronaldo Caminha Barbosa acumula participações em eventos científicos ao longo de sua existência.

Além da Febrace, a instituição ganhou por duas vezes consecutivas o prêmio Respostas para o Amanhã e representou o Ceará na Feira Nordestina de Ciências e Tecnologia (Fenecit).

“Incentivamos a pesquisa científica durante todo o ano letivo, com uma feira de ciências a cada semestre. Nossos projetos, além do rigor científico, estão conectados ao contexto local”, destaca Maria Amélia Sampaio, diretora da instituição.

Eduarda e Cássia se dizem gratificadas com a repercussão positiva do projeto (FOTO: Acervo pessoal)

Sucesso

Eduarda afirma se sentir gratificada com a repercussão positiva do projeto. Além dos amigos e familiares, ela cita o orgulho de seus conterrâneos.

“Vejo o brilho nos olhos deles. Isso é indescritível. Meus amigos e familiares falam do projeto a todo instante. Sinto gratidão e felicidade de poder contribuir para a comunidade”, comemora a agora graduanda em Terapia Ocupacional pela Uece.

Hoje, SOS Casa conta com aproximadamente 15 alunos. Além de engenharia, parte da equipe estuda políticas públicas específicas para a população.

Mesmo depois de formada no Ensino Médio, Eduarda garante que continuará acompanhando e dando suporte ao projeto.

“Sempre vamos estar por dentro de tudo. Nesse ano, pretendemos fazer novas análises e parcerias, além de desenvolver um impermeabilizante com isopor para os compósitos”, revela uma das autoras do projeto que tem gerado positivos impactos sociais.

Fala aí

Inspiração que viaja o mundo

Myllena seguiu o que diz o slogan da Intel Isef e “pensou além” (FOTO: Acervo pessoal)

De Iracema, no interior do Ceará, para Irvine, na Califórnia. Foi esse o caminho que Myllena Cristina Braz fez há cinco meses. Depois de duas participações consecutivas na Intel Isef, a cearense recebeu propostas para estudar em duas universidades americanas, teve sua história contada em documentário e foi convidada a palestrar na maior feira de ciências do mundo.

Desde que chegou aos Estados Unidos, ela tem aulas de inglês na Hancock International College e se prepara para iniciar a faculdade, com bolsa de 100%. Enquanto a graduação não começa, a jovem já dá os primeiros passos para a continuidade de suas pesquisas.

Ao Tribuna do Ceará, Myllena contou sobre a adaptação aos costumes norte-americanos, avaliou a educação cearense, descreveu a sensação de participar da Intel Isef como convidada especial e revelou detalhes sobre projetos científicos futuros. Confira a entrevista abaixo.

Myllena participou da Intel Isef como estudante em 2017 e 2018 (FOTO: Acervo pessoal)

Tribuna do Ceará - Como está sendo o processo de adaptação aos Estados Unidos?

Myllena Cristina Braz - Minha principal dificuldade foi em relação à alimentação. Eu não era muito de comer verdura, legumes, não gostava dessas coisas. Agora, já como.

Quando vim morar aqui, sentia muita saudade da comida do Brasil. Eu não sabia nem o que comer. Acho que já estou adaptada ao país, sim. Claro que todos os dias, quando a gente está morando em um país novo, você aprende uma coisa nova. Mas sempre tive a mente muito aberta para o novo e vim sabendo que eu veria coisas que são diferentes do Brasil.

Tribuna - Como está lidando com a distância da família?

Myllena - Sinto muita saudade da minha família, dos meus pais e dos meus avós, principalmente, porque eu sou uma menina muito família. Cresci muito apegada à minha família, muito apegada aos meus avós, brincando com meus primos, com meus tios. Acabei me separando deles por um motivo muito bom, mas a saudade continua. A todo momento, estou pensando neles. Falo com eles todos os dias pelo Whatsapp, faço chamadas de vídeo, ligações, mando fotos.

Tribuna - Você conseguiu participar duas vezes da maior mostra científica escolar do mundo. Na sua opinião, que características o estudante precisa ter para conseguir conquistar essa chance pelo menos uma vez?

Myllena - O que eu mais percebo nos alunos que vão para a Intel Isef é a questão do protagonismo. A gente não espera muito do professor ou de alguém. A gente vai atrás de tudo que precisar para o projeto. O projeto é nosso, a ideia é nossa, então, a gente vai defender. Uma outra questão que vi é que esses alunos têm muito poder de persuasão. Por mais que o avaliador tenha uma crítica negativa ao meu projeto, não vou ter medo dele. Vou defender meu projeto com unhas e dentes.

Myllena palestrou na edição mais recente da Intel Isef (FOTOS: Acervo pessoal)

Myllena palestrou na edição mais recente da Intel Isef (FOTOS: Acervo pessoal)

Tribuna - Em 2019, você participou como convidada especial da Isef. Como foi esse momento?

Myllena - Imagine que, em 2015 ou 2016, meu maior sonho era participar dessa feira como finalista e, logo em seguida, eu estava no mesmo evento como convidada especial. Meu crachá era do mesmo jeito de quem ganhou Prêmio Nobel. Minha cadeira era do lado dele e de professores de Harvard, do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts). Tem meu rosto estampado no livro do evento. Recebi várias pessoas para dar autógrafo, tirar fotos, dar entrevistas. Sei que vivi isso, vejo fotos, vídeos, mas não caiu minha ficha ainda.

Tribuna - Dos projetos apresentados em 2019, teve algum que chamou sua atenção?

Myllena - Conheci alguns projetos. Não tive tempo de assistir às apresentações completas, porque eu tinha algumas obrigações como convidada, mas três projetos me chamaram muita atenção. Teve o da Juliana Stradioto, que ficou em 1º lugar no evento. Vi o do Guilherme e da Yanne, que são dois estudantes de Iracema e estudaram na mesma escola que eu. O projeto deles era de Biotecnologia, mesma área que trabalhei na minha primeira vez na Intel Isef. O projeto da Karine, do Rio Grande do Norte, também me chamou atenção.

Myllena teve sua história retratada no documentário Science Fair (2018), da National Geographic (FOTOS: Acervo pessoal)

Myllena teve sua história retratada no documentário Science Fair (2018), da National Geographic (FOTOS: Acervo pessoal)

Tribuna - E como é a sensação de ver outros estudantes seguindo o seu caminho?

Myllena - Não tenho palavras para descrever a sensação de saber que a minha história consegue motivar outros jovens. Todos os dias, recebo mensagens nas minhas redes sociais de jovens de todo o mundo, falando que conheceram a minha história por alguém, que me viu em alguma feira de ciências, que eu sou uma inspiração para eles. Só desejo que, cada vez mais, jovens com histórias como a minha não se desmotivem, não desistam dos seus sonhos.

Tribuna - Como é que você avalia a educação cearense atualmente?

Myllena - Nem sei se eu posso responder isso, porque sou uma das pessoas que mais defendem a educação cearense. Na minha visão, a educação cearense está entre as melhores do Brasil. Se você for pegar índices de olimpíadas ou feiras de ciências, vai ver que o Ceará está sempre em destaque. Mas, claro, sempre podemos melhorar. Temos muito o que melhorar. Mas somos destaques? Somos.

Confira o trailer do documentário Science Fair:

Tribuna - Uma coisa que chama atenção é que, apesar do maior investimento das escolas particulares na educação de seus alunos, quem tem representado o Brasil em feiras internacionais são estudantes de escolas públicas. A que você acha que isso se deve?

Myllena - Acredito que as escolas particulares focam muito em preparar os estudantes apenas para vestibulares. Essas escolas querem que, ao final do ensino médio, os estudantes sejam aprovados no vestibular. E isso é sensacional. Qualquer estudante que pensa no seu futuro quer ingressar na universidade. Mas isso tem muitos pontos negativos, porque muitas vezes os estudantes não sabem o que querem fazer da vida, não se conhecem de verdade, acabam escolhendo um curso sob pressão. Nas escolas públicas, a rotina é muito grande e a gente acaba procurando alguma coisa nova, diferente. As olimpíadas e feiras são muito divulgadas nas nossas escolas. Como isso é diferente do nosso cotidiano, uma coisa nova, a gente acaba entrando nesse meio, descobrindo coisas novas, descobrindo alguma paixão.

Tribuna - Nos dois anos em que participou da Isef como estudante, você apresentou pesquisas sobre zika vírus e reciclagem de isopor. Tem dado continuidade a algum desses estudos?

Myllena - Nos últimos meses, estou entrando em contato com laboratórios aqui dos Estados Unidos, um de Nova York e outro aqui mesmo da Califórnia. Estou tentando apresentar minhas ideias e ver se eu consigo uma parceria com eles para colocar os projetos para frente. Estou correndo atrás para desenvolver minhas ideias, porque não quero deixá-las apenas no papel ou apenas nas feiras de ciências. Quero colocá-las no mercado.

Myllena pretende levar suas ideias para o mercado (FOTO: Acervo pessoal)

Tribuna - Além disso, você tem outros planos para o futuro como cientista?

Myllena - Estou com muitos planos. Não apenas para a minha vida como cientista, mas para várias áreas da minha vida. Quero colocar minhas ideias e projetos para frente, para o mercado, conseguir realizar mais testes, conseguir as patentes. Quero começar a desenvolver isso daqui para o próximo ano. Estou com um monte de ideias de projetos científicos na cabeça, mas quero desenvolver como cientista. Não quero mandar mais para feiras de ciências, mas para o mercado. Por isso, estou correndo atrás de apoio dos laboratórios daqui, tanto para colocar no mercado as ideias que já tenho prontas quanto para desenvolver as ideias novas.

O estagiário William Barros produziu esta reportagem sob supervisão do jornalista Rafael Luis Azevedo.