Futebol

Futebol é coisa de mulher, sim!

Cada vez mais mulheres estão inseridas no meio esportivo, historicamente machista

As mulheres estão nos estádios, nas redações, nas cabines de transmissão e nos campos. (Foto: Mauro Horita/CBF)
As mulheres estão nos estádios, nas redações, nas cabines de transmissão e nos campos. (Foto: Mauro Horita/CBF)

“Futebol é coisa de homem”. “Você assiste futebol? Mas você é mulher!”. “Nossa, como você entende de futebol”. “Nunca tinha conhecido uma mulher que gosta de futebol”. Essas e outras frases fazem parte da vida de mulheres que amam, assistem e acompanham o esporte mais popular do mundo. Popularidade essa que se deve, principalmente, ao fato do futebol ser acessível. Mas para quem? Por que por anos esse esporte foi tão estigmatizado como algo exclusivamente masculino?

Eu poderia buscar uma resposta histórica. Talvez falar sobre como na época que surgiu o futebol, as mulheres tinham papéis muito bem definidos na sociedade, e nenhum deles envolvia acompanhar esportes. Mas, na verdade, isso já mudou há muito tempo. Nossa realidade já não é mais a mesma. Infelizmente, nem tudo evoluiu como deveria.

INCLUSÃO

Hoje, vemos cada vez mais mulheres nos estádios e na imprensa esportiva. Que orgulho! Repórteres, comentaristas, apresentadoras, narradoras, produtoras, assessoras. Um exemplo aqui do nosso estado é a Karine Nascimento. Jornalista e comentarista da TV da Federação Cearense de Futebol, Karine escreveu um livro sobre o futebol feminino cearense, que já está em pré-venda.

Assim como eu, Karine é apaixonada por futebol e percebeu que ele poderia ser seu instrumento de trabalho. “Quando estava no Ensino Médio, me dei conta que eu podia usar isso como uma profissão, já que eu gostava tanto. Eu entrei no Jornalismo por causa do Jornalismo Esportivo”, contou.

Para falar a verdade, não é uma decisão fácil a de entrar no mundo do futebol. Sabemos das histórias de abuso, assédio, descaso e comentários negativos contra mulheres envolvidas nesse meio. Não preciso dar exemplos muito distantes. Em uma das lives que faço no Instagram do Futebolês, recebi um comentário que perguntava o que eu estava fazendo ali, porque segundo o rapaz que comentou, “mulher não entende de futebol”. Um detalhe importante é que eu e meus colegas estávamos falando a mesma coisa sobre determinado jogador. Mas o comentário não se destinou a eles, e sim a mim.

ASSISTIR OK, MAS COMENTAR…

Como repórter, já vemos algumas jornalistas na televisão. Mas, como comentarista em partidas, ainda são raras exceções. Karine Nascimento está atuando nessa função pela FCF, mas não era uma possibilidade até pouco tempo, afinal, falta referência no meio. “Eu sempre me imaginei como repórter ou apresentadora. Sempre me imaginei em várias funções dentro dessa área maior, que seria o jornalismo esportivo, mas eu nunca me imaginei como comentarista”, falou.

Essa ainda é uma “área de risco”. Comentaristas são alvos de duras críticas, mas há um agravante com mulheres. “A gente sabe que essa questão do machismo no futebol ainda é muito forte, mas eu tento ignorar mesmo. É tentar pensar em não deixar que isso afete os comentários e o meu trabalho de modo geral”, disse Karine.

A VERDADEIRA REGRA DO IMPEDIMENTO

Este é o nome do livro de Karine Nascimento. “Para as mulheres, a regra é, realmente, esse impedimento diário, de contestação, que tenta afastar a mulher do ambiente esportivo. O nome parte dessa questão”.

Por muitos anos, as mulheres foram proibidas por lei de jogar futebol no Brasil. O decreto valeu de 1941 até 1979. Isso explica bastante o atraso que o futebol feminino sofre aqui no país. Com a derrubada do decreto, as mulheres podia praticar o esporte, mas não tinham nenhum incentivo.

Aqui no Ceará, a história do futebol feminino só aparecia de 2008 em diante. Porém, no site do Ferroviário constava um título feminino de 1983. Ao entrar em contato com pessoas ligadas ao clube, ninguém tinha conhecimento sobre. “Eu cheguei até o seu César Bastos, que era diretor do Ferroviário na época e ele disse que esse campeonato realmente existiu”.

No livro, Karine conta essa história inédita e fala sobre muitas outras coisas que envolvem esse universo feminino no futebol, não só do Ceará, mas de vários outros estados. A obra, que mostra a difícil trajetória da mulher no esporte, tem o lançamento previsto para novembro.

MUITO A EVOLUIR

A mulher no futebol já é uma realidade. O preconceito e agressões precisam ser combatidos. Não é “mi mi mi” ou vitimização, é um direito de exercer a profissão que é violado. Como mulher, torcedora e jornalista esportiva, sei das dificuldades enfrentadas por outras mulheres que estão na mesma situação.

Os veículos de comunicação podem, e devem, dar mais espaço para nós. Não por sermos mulheres, mas por sermos capacitadas para estar aqui. Já para as atletas, o investimento precisa ser feito. O futebol feminino não é inferior ao masculino, e sim um esporte como qualquer outro, e precisa ser tratado como tal. E quanto as torcedoras, marquem presença no estádio, torçam, falem, comentem.

“Qual é, qual é! Futebol não é pra mulher?” É sim. O futebol é para todos!

 

Flávia Gouveia

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