"Houve demora em todas as esferas",diz feminista sobre caso do prefeito

"SHOW DE HORRORES"

“Houve demora em todas as esferas”, critica militante feminista sobre o caso do prefeito

O Tribuna do Ceará conversou com Lola Aronovich e Maria da Penha, ativistas pelos direitos das mulheres, sobre o caso do prefeito de Uruburetama, acusado de abusos sexuais

Por Vitória Barbosa em Ceará

18 de julho de 2019 às 07:00

Há 4 meses
Para Lola, a o caso todo é um "verdadeiro show de horrores" (FOTO: Divulgação)

Para Lola, a o caso todo é um “verdadeiro show de horrores”. (FOTO: Divulgação)

“É um absurdo! Não tem explicação como pode demorar tanto”. Essa é a opinião de Lola Aronovich, feminista e professora da Universidade Federal do Ceará (UFC), sobre a demora por parte das instituições em apurar o caso do médico e prefeito de Uruburetama, acusado de abusar sexualmente de pacientes durante consultas ginecológicas.

Para ela, foi preciso que os crimes tivessem repercussão nacional para que autoridades responsáveis tomassem providências. “A gente viu uma demora em todos os níveis possíveis. Na expulsão do partido, no Ministério Público fazer alguma coisa, na Câmara de Vereadores…”, enfatizou.

Desde a década de 1980, denúncias contra José Hilson estão sendo feitas. Pelo menos 63 vídeos, que mostram 23 mulheres, das quais 17 podem ter sido abusadas, foram entregues ao Ministério Público do Ceará. O próprio médico fazia as gravações com câmera escondida. A denúncia que deu início à investigação foi feita por um morador da cidade.

A professora e feminista acredita que isso é um exemplo do que acontece com muitas mulheres abusadas, que denunciam e não são levadas a sério. “Muitos outros abusos poderiam ter sido evitados se já, pelo menos em 1994, essas duas vítimas que denunciaram tivessem sido levadas a sério”.

Ela também relembrou que, em 2018, outras quatro mulheres denunciaram os abusos, mas José Hilson Paiva processou as mulheres por calúnia e difamação. Das quatro mulheres, três tiveram que pedir desculpas para não serem processadas. “Isso é uma coisa absurda e acontece direto. As vítimas denunciam, são processadas e têm que pedir desculpas ao agressor”, lamentou.

O posicionamento da esposa do prefeito também é assustador para Lola. “Ela dizendo que foi só uma traição e não ver a gravidade dessas denúncias é uma coisa assustadora. É um verdadeiro show de horrores essa história”, destacou.

Agora, Lola acredita que é preciso indenizar as mulheres. “Eu acho que tem que indenizar todas essas mulheres. Eu não sei a condição patrimonial desse prefeito, mas ele tem que perder tudo. Ele tem que ser cassado, perder o mandato, perder o registro no Conselho de Medicina e tem que ser preso. Tem que ser punido!”

Em nota, o Tribunal de Justiça do Estado do Ceará (TJCE) explicou que é preciso o Ministério Público protocolar a denúncia na Justiça. “A investigação é de responsabilidade da Polícia, a acusação fica a cargo do Ministério Público. E, ao Judiciário, cabe o julgamento com base nas provas materiais e testemunhais produzidas em juízo”.

O TJCE também falou sobre o processo envolvendo José Hilson de Paiva e quatro mulheres que o acusaram de estupro, em 2018. O órgão disse que o prefeito é o autor da ação, processando as mulheres por calúnia e difamação. Sendo assim, não houve absolvição dele.

“Nesse caso específico, foi realizada em 24 de abril de 2019 audiência de conciliação, conforme a lei, entre José Hilson e as quatro mulheres. Na audiência, três delas pediram desculpas e o caso ficou arquivado para elas, de acordo com previsão da lei. A quarta não aceitou pedir desculpas e a ação segue no Judiciário”.

José Hilson de Paiva, foi afastado do cargo de prefeito nesta segunda-feira (15). (FOTO: Reprodução/TV Jangadeiro)

O cargo de Prefeito

Maria da Penha, farmacêutica e ativista pelos direitos da mulher, também conversou com o Tribuna do Ceará e acredita que, agora, cada vez mais denúncias serão feitas. “Eu acho que, antes, faltou encorajamento, faltaram pessoas mais responsáveis para denunciar e mais conhecedoras que isso é violência contra a mulher. E, agora, no momento em que essa corrente aumenta, outras mulheres que foram vítimas se encorajam a denunciar também”.

Para ela, o cargo de prefeito do acusado contribuiu para que denúncias não fossem realizadas antes. “Com certeza essas vítimas ficaram temerosas e devem ter sido alertadas por alguém, ligado a ele, dizendo que, se elas denunciassem, poderiam ser prejudicadas”, observou.

Nesta segunda-feira (15), o PCdoB decidiu pela expulsão do então prefeito filiado ao partido, baseado nos termos 39, parágrafo 6° do seu Estatuto. Em nota oficial, o PCdoB disse que “repudia os atos que afrontam a dignidade humana cometidos por José Hilson”.

Uma sessão extraordinária da Câmara de Uruburetama, também nesta segunda-feira, foi realizada para discutir a situação de José Hilson. Nove dos onze vereadores do município estavam presentes na sessão e decidiram, por unanimidade, afastar o então prefeito de suas atividades administrativas.

O Tribuna do Ceará tentou contato com a Câmara de Vereadores do município, mas não recebeu retorno.

Sobre a investigação

Em coletiva de imprensa realizada nesta terça-feira (16), o Conselho Regional de Medicina do Ceará (Cremec) anunciou a interdição cautelar de José Hilson de Paiva. Pela decisão, ele fica proibido de exercer a medicina por seis meses.

Caso não seja julgado durante esse período, o prazo se estenderá por mais seis meses. A sindicância aberta para apurar as denúncias contra José Hilson de Paiva pode demorar de um a dois anos.

Em nota, o Ministério Público do Estado do Ceará (MPCE) disse que a investigação contra José Hilson de Paiva, por suspeita de crimes sexuais é coordenada pelo Núcleo de Investigação Criminal (Nuinc), com o apoio da Promotoria de Justiça de Uruburetama.

O MPCE informou que algumas das vítimas que denunciaram o caso à Polícia já foram ouvidas pelos promotores de Justiça. “Medidas judiciais serão tomadas visando elucidar todas as condutas delitivas e punir rigorosamente o responsável”, dizia a declaração.

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"SHOW DE HORRORES"

“Houve demora em todas as esferas”, critica militante feminista sobre o caso do prefeito

O Tribuna do Ceará conversou com Lola Aronovich e Maria da Penha, ativistas pelos direitos das mulheres, sobre o caso do prefeito de Uruburetama, acusado de abusos sexuais

Por Vitória Barbosa em Ceará

18 de julho de 2019 às 07:00

Há 4 meses
Para Lola, a o caso todo é um "verdadeiro show de horrores" (FOTO: Divulgação)

Para Lola, a o caso todo é um “verdadeiro show de horrores”. (FOTO: Divulgação)

“É um absurdo! Não tem explicação como pode demorar tanto”. Essa é a opinião de Lola Aronovich, feminista e professora da Universidade Federal do Ceará (UFC), sobre a demora por parte das instituições em apurar o caso do médico e prefeito de Uruburetama, acusado de abusar sexualmente de pacientes durante consultas ginecológicas.

Para ela, foi preciso que os crimes tivessem repercussão nacional para que autoridades responsáveis tomassem providências. “A gente viu uma demora em todos os níveis possíveis. Na expulsão do partido, no Ministério Público fazer alguma coisa, na Câmara de Vereadores…”, enfatizou.

Desde a década de 1980, denúncias contra José Hilson estão sendo feitas. Pelo menos 63 vídeos, que mostram 23 mulheres, das quais 17 podem ter sido abusadas, foram entregues ao Ministério Público do Ceará. O próprio médico fazia as gravações com câmera escondida. A denúncia que deu início à investigação foi feita por um morador da cidade.

A professora e feminista acredita que isso é um exemplo do que acontece com muitas mulheres abusadas, que denunciam e não são levadas a sério. “Muitos outros abusos poderiam ter sido evitados se já, pelo menos em 1994, essas duas vítimas que denunciaram tivessem sido levadas a sério”.

Ela também relembrou que, em 2018, outras quatro mulheres denunciaram os abusos, mas José Hilson Paiva processou as mulheres por calúnia e difamação. Das quatro mulheres, três tiveram que pedir desculpas para não serem processadas. “Isso é uma coisa absurda e acontece direto. As vítimas denunciam, são processadas e têm que pedir desculpas ao agressor”, lamentou.

O posicionamento da esposa do prefeito também é assustador para Lola. “Ela dizendo que foi só uma traição e não ver a gravidade dessas denúncias é uma coisa assustadora. É um verdadeiro show de horrores essa história”, destacou.

Agora, Lola acredita que é preciso indenizar as mulheres. “Eu acho que tem que indenizar todas essas mulheres. Eu não sei a condição patrimonial desse prefeito, mas ele tem que perder tudo. Ele tem que ser cassado, perder o mandato, perder o registro no Conselho de Medicina e tem que ser preso. Tem que ser punido!”

Em nota, o Tribunal de Justiça do Estado do Ceará (TJCE) explicou que é preciso o Ministério Público protocolar a denúncia na Justiça. “A investigação é de responsabilidade da Polícia, a acusação fica a cargo do Ministério Público. E, ao Judiciário, cabe o julgamento com base nas provas materiais e testemunhais produzidas em juízo”.

O TJCE também falou sobre o processo envolvendo José Hilson de Paiva e quatro mulheres que o acusaram de estupro, em 2018. O órgão disse que o prefeito é o autor da ação, processando as mulheres por calúnia e difamação. Sendo assim, não houve absolvição dele.

“Nesse caso específico, foi realizada em 24 de abril de 2019 audiência de conciliação, conforme a lei, entre José Hilson e as quatro mulheres. Na audiência, três delas pediram desculpas e o caso ficou arquivado para elas, de acordo com previsão da lei. A quarta não aceitou pedir desculpas e a ação segue no Judiciário”.

José Hilson de Paiva, foi afastado do cargo de prefeito nesta segunda-feira (15). (FOTO: Reprodução/TV Jangadeiro)

O cargo de Prefeito

Maria da Penha, farmacêutica e ativista pelos direitos da mulher, também conversou com o Tribuna do Ceará e acredita que, agora, cada vez mais denúncias serão feitas. “Eu acho que, antes, faltou encorajamento, faltaram pessoas mais responsáveis para denunciar e mais conhecedoras que isso é violência contra a mulher. E, agora, no momento em que essa corrente aumenta, outras mulheres que foram vítimas se encorajam a denunciar também”.

Para ela, o cargo de prefeito do acusado contribuiu para que denúncias não fossem realizadas antes. “Com certeza essas vítimas ficaram temerosas e devem ter sido alertadas por alguém, ligado a ele, dizendo que, se elas denunciassem, poderiam ser prejudicadas”, observou.

Nesta segunda-feira (15), o PCdoB decidiu pela expulsão do então prefeito filiado ao partido, baseado nos termos 39, parágrafo 6° do seu Estatuto. Em nota oficial, o PCdoB disse que “repudia os atos que afrontam a dignidade humana cometidos por José Hilson”.

Uma sessão extraordinária da Câmara de Uruburetama, também nesta segunda-feira, foi realizada para discutir a situação de José Hilson. Nove dos onze vereadores do município estavam presentes na sessão e decidiram, por unanimidade, afastar o então prefeito de suas atividades administrativas.

O Tribuna do Ceará tentou contato com a Câmara de Vereadores do município, mas não recebeu retorno.

Sobre a investigação

Em coletiva de imprensa realizada nesta terça-feira (16), o Conselho Regional de Medicina do Ceará (Cremec) anunciou a interdição cautelar de José Hilson de Paiva. Pela decisão, ele fica proibido de exercer a medicina por seis meses.

Caso não seja julgado durante esse período, o prazo se estenderá por mais seis meses. A sindicância aberta para apurar as denúncias contra José Hilson de Paiva pode demorar de um a dois anos.

Em nota, o Ministério Público do Estado do Ceará (MPCE) disse que a investigação contra José Hilson de Paiva, por suspeita de crimes sexuais é coordenada pelo Núcleo de Investigação Criminal (Nuinc), com o apoio da Promotoria de Justiça de Uruburetama.

O MPCE informou que algumas das vítimas que denunciaram o caso à Polícia já foram ouvidas pelos promotores de Justiça. “Medidas judiciais serão tomadas visando elucidar todas as condutas delitivas e punir rigorosamente o responsável”, dizia a declaração.