Família de bebê que não acordou desde que nasceu gasta R$ 280 por dia para ter UTI em casa


Família de bebê que não acordou desde que nasceu gasta R$ 280 por dia para ter UTI em casa

Antigo quarto da mãe foi transformado em mini-hospital para atender Laurinha, menina que recebe orações de 100 mil pessoas há 2 anos

Por Roberta Tavares em Cotidiano

5 de fevereiro de 2016 às 06:00

Há 4 anos
Laurinha já tem 2 anos e não acordou desde o nascimento (FOTO: Reprodução/Facebook)

Laurinha já tem 2 anos e não acordou desde o nascimento (FOTO: Reprodução/Facebook)

Laurinha mobilizou a oração de mais de 100 mil pessoas ao redor do mundo, mas, até agora, não acordou. A família, no entanto, não perde as esperanças e, desde que a menina nasceu, em 6 de fevereiro de 2014, vive em função da fé. Já são dois anos de luta – da menina e dos familiares. Laurinha mostra força no simples gesto de apertar o dedo de alguém, enquanto os familiares garantem valer a pena o esforço para sustentar uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) montada dentro de casa.

Ela abre os olhos, mas não se orienta. Está gordinha, chora e faz xixi. Traz alegria aos familiares com qualquer sinal de vitalidade. Viver, de fato, Laurinha ainda não conseguiu. Todos ao redor dela tentam reverter esse quadro seja qual for a dificuldade ou a probabilidade, mesmo sem ajuda alguma dos supostos culpados pela perda da mãe e do quadro da bebê.

A avó Julita Teixeira Praciano tornou-se um anjo da guarda da menina. Dedica as 24 horas do dia aos cuidados da neta. E são 24 horas mesmo, porque Dona Julita mal dorme. “Ela é linda, toda perfeita, desenvolvimento além da medida. Mas você passar o dia inteiro olhando para uma criança que poderia estar correndo, começando a falar, estudando, é muito complicado. Ela já perdeu a primeira fase da vida”, lamenta.

Na tentativa de dar à criança as novas fases da vida que virão, a família gasta diariamente R$ 280, de domingo a domingo, para manter uma UTI na residência, localizada no Bairro Meireles, em Fortaleza. O antigo quarto da mãe foi transformado em um mini-hospital para atender as necessidades da Laurinha.

Os custos não incluem alimentação, medicamentos, energia (que já ultrapassa os R$ 700 mensais) e as consultas médicas particulares com os nove profissionais de saúde que acompanham Laurinha: terapeuta ocupacional, oftalmologista, urologista, neurologista, dentista, pediatra, fisioterapeuta e pneumologista.

“Se o dia tivesse 40 horas, em todas elas estaria com a Laurinha. Dou o que tiver de melhor, porque Deus vai ajudar” (Julita Praciano, avó)

“A despesa é muito alta. As consultas variam de R$ 500 a R$ 700, cada médico. Se a gente somar o que gasta por mês, não sabe como está dando para pagar. Não recebemos nenhum tipo de ajuda, vamos nos ‘rebolando’ de todo jeito. Tem o salário do pai dela, o meu, o da tia dela e o de alguns familiares, que ajudam como podem”, conta Julita.

Mesmo assim, a avó garante não se incomodar com os gastos nem com as horas que precisa dedicar à neta. Tudo vale a pena para alimentar a esperança de, um dia, ver a neta respirando sem a ajuda de aparelhos. “Estou atrás de tudo, não quero saber o que é ou quanto é. Quem precisa, na íntegra, de mim, é ela. Se o dia tivesse 40 horas, em todas elas estaria com a Laurinha. Dou o que tiver de melhor, porque Deus vai ajudar”, desabafa emocionada.

‘Respira, Laurinha’

A avó, o pai de Laurinha, Ádamo Cruz, e a tia Rafaela fazem revezamento nos cuidados. A bebê só consegue se alimentar por meio de uma sonda e respirar com a ajuda de aparelhos, o que dificulta os exercícios de fisioterapia e as ações básicas que poderiam ser feitas pela família, como colocar Laurinha no braço, deitar em uma rede ou até mesmo dormir ao lado dela.

Bebê recebe vigília virtual de mais de 100 mil pessoas ao redor do mundo (FOTO: Reprodução/Facebook)

Bebê recebe vigília virtual de mais de 100 mil pessoas ao redor do mundo (FOTO: Reprodução/Facebook)

O desejo é conseguir, aos poucos, retirar o traqueóstomo [recurso usado para facilitar a chegada de ar aos pulmões] e fazer com que a criança respire sem a necessidade do equipamento. Para isso, é feito o chamado ‘desmame’. O tratamento segue o lema de ‘um dia de cada vez’, e Laurinha já atinge 39 minutos respirando sozinha.

O desligamento da bebê ao aparelho ajudaria nos movimentos, nas terapias e possibilitaria também a ida ao hospital para as consultas. “Ela fica na cama direto. Para dar banho, é preciso colocar a banheira ao lado do berço. É bem limitado”, explica o tio Romeu Praciano.

Agora, a mobilização passou a ser “Respira, Laurinha”. “A gente conseguir isso seria um presente, porque poderíamos colocá-la no braço, deitar com ela. Seria bom demais. Ela ia sentir mais, conseguir interagir com a gente”, completa.

Laurinha chora, abre os olhos e faz as necessidades fisiológicas. São o suficiente para a família já comemorar. “A gente comemora no xixi, no cocô, nos poucos reflexos que ela tem. Tudo que a gente vê a gente comemora, porque isso tudo é vida”.

Mobilização na internet

O despertar seria um verdadeiro milagre, reconhece a família. Milagre esse esperado por mais de 100 mil pessoas no grupo do Facebook “Acorda, Laurinha”. Internautas tocados pela história demonstram amor, por meio de palavras de conforto e mensagens repletas de energias positivas e, principalmente, de fé. A força dada por eles tem ajudado a família na convivência com a situação.

O nascimento de Laura Praciano Cruz veio junto à morte da mãe, Paula Praciano. A família, no entanto, não teve tempo de viver o luto. Por mais que tente esquecer o que houve, constantemente relembra o que aconteceu e revive toda a história, dia a dia.

“Eu não me animo para fazer nada. Sinto muita saudade da minha filha. A Laurinha é um pedaço da Paula que ficou aqui. Peço que ela continue morando dentro de mim para que eu consiga cuidar da filha dela. Nada que faço é um sacrifício para mim: eu vivo pela Laurinha”, assegura Julita.

A situação de Laurinha, segundo os parentes, teria sido provocada por um erro médico. Paula teria sofrido um choque anafilático devido à alergia a uma medicação aplicada horas antes do procedimento. Em razão disso, Laurinha não recebeu oxigênio da mãe e teve um edema cerebral.

“Todo dia, acordo com a sensação de que é um pesadelo, e lembro que é verdade. Muitas vezes, a gente não entende o porquê de passar por isso, mas Deus segura a mão da gente. Penso que temos dois anjos: um no céu, que é a minha irmã, e um na terra, que é a Laurinha”, conclui o tio.

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Família de bebê que não acordou desde que nasceu gasta R$ 280 por dia para ter UTI em casa

Antigo quarto da mãe foi transformado em mini-hospital para atender Laurinha, menina que recebe orações de 100 mil pessoas há 2 anos

Por Roberta Tavares em Cotidiano

5 de fevereiro de 2016 às 06:00

Há 4 anos
Laurinha já tem 2 anos e não acordou desde o nascimento (FOTO: Reprodução/Facebook)

Laurinha já tem 2 anos e não acordou desde o nascimento (FOTO: Reprodução/Facebook)

Laurinha mobilizou a oração de mais de 100 mil pessoas ao redor do mundo, mas, até agora, não acordou. A família, no entanto, não perde as esperanças e, desde que a menina nasceu, em 6 de fevereiro de 2014, vive em função da fé. Já são dois anos de luta – da menina e dos familiares. Laurinha mostra força no simples gesto de apertar o dedo de alguém, enquanto os familiares garantem valer a pena o esforço para sustentar uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) montada dentro de casa.

Ela abre os olhos, mas não se orienta. Está gordinha, chora e faz xixi. Traz alegria aos familiares com qualquer sinal de vitalidade. Viver, de fato, Laurinha ainda não conseguiu. Todos ao redor dela tentam reverter esse quadro seja qual for a dificuldade ou a probabilidade, mesmo sem ajuda alguma dos supostos culpados pela perda da mãe e do quadro da bebê.

A avó Julita Teixeira Praciano tornou-se um anjo da guarda da menina. Dedica as 24 horas do dia aos cuidados da neta. E são 24 horas mesmo, porque Dona Julita mal dorme. “Ela é linda, toda perfeita, desenvolvimento além da medida. Mas você passar o dia inteiro olhando para uma criança que poderia estar correndo, começando a falar, estudando, é muito complicado. Ela já perdeu a primeira fase da vida”, lamenta.

Na tentativa de dar à criança as novas fases da vida que virão, a família gasta diariamente R$ 280, de domingo a domingo, para manter uma UTI na residência, localizada no Bairro Meireles, em Fortaleza. O antigo quarto da mãe foi transformado em um mini-hospital para atender as necessidades da Laurinha.

Os custos não incluem alimentação, medicamentos, energia (que já ultrapassa os R$ 700 mensais) e as consultas médicas particulares com os nove profissionais de saúde que acompanham Laurinha: terapeuta ocupacional, oftalmologista, urologista, neurologista, dentista, pediatra, fisioterapeuta e pneumologista.

“Se o dia tivesse 40 horas, em todas elas estaria com a Laurinha. Dou o que tiver de melhor, porque Deus vai ajudar” (Julita Praciano, avó)

“A despesa é muito alta. As consultas variam de R$ 500 a R$ 700, cada médico. Se a gente somar o que gasta por mês, não sabe como está dando para pagar. Não recebemos nenhum tipo de ajuda, vamos nos ‘rebolando’ de todo jeito. Tem o salário do pai dela, o meu, o da tia dela e o de alguns familiares, que ajudam como podem”, conta Julita.

Mesmo assim, a avó garante não se incomodar com os gastos nem com as horas que precisa dedicar à neta. Tudo vale a pena para alimentar a esperança de, um dia, ver a neta respirando sem a ajuda de aparelhos. “Estou atrás de tudo, não quero saber o que é ou quanto é. Quem precisa, na íntegra, de mim, é ela. Se o dia tivesse 40 horas, em todas elas estaria com a Laurinha. Dou o que tiver de melhor, porque Deus vai ajudar”, desabafa emocionada.

‘Respira, Laurinha’

A avó, o pai de Laurinha, Ádamo Cruz, e a tia Rafaela fazem revezamento nos cuidados. A bebê só consegue se alimentar por meio de uma sonda e respirar com a ajuda de aparelhos, o que dificulta os exercícios de fisioterapia e as ações básicas que poderiam ser feitas pela família, como colocar Laurinha no braço, deitar em uma rede ou até mesmo dormir ao lado dela.

Bebê recebe vigília virtual de mais de 100 mil pessoas ao redor do mundo (FOTO: Reprodução/Facebook)

Bebê recebe vigília virtual de mais de 100 mil pessoas ao redor do mundo (FOTO: Reprodução/Facebook)

O desejo é conseguir, aos poucos, retirar o traqueóstomo [recurso usado para facilitar a chegada de ar aos pulmões] e fazer com que a criança respire sem a necessidade do equipamento. Para isso, é feito o chamado ‘desmame’. O tratamento segue o lema de ‘um dia de cada vez’, e Laurinha já atinge 39 minutos respirando sozinha.

O desligamento da bebê ao aparelho ajudaria nos movimentos, nas terapias e possibilitaria também a ida ao hospital para as consultas. “Ela fica na cama direto. Para dar banho, é preciso colocar a banheira ao lado do berço. É bem limitado”, explica o tio Romeu Praciano.

Agora, a mobilização passou a ser “Respira, Laurinha”. “A gente conseguir isso seria um presente, porque poderíamos colocá-la no braço, deitar com ela. Seria bom demais. Ela ia sentir mais, conseguir interagir com a gente”, completa.

Laurinha chora, abre os olhos e faz as necessidades fisiológicas. São o suficiente para a família já comemorar. “A gente comemora no xixi, no cocô, nos poucos reflexos que ela tem. Tudo que a gente vê a gente comemora, porque isso tudo é vida”.

Mobilização na internet

O despertar seria um verdadeiro milagre, reconhece a família. Milagre esse esperado por mais de 100 mil pessoas no grupo do Facebook “Acorda, Laurinha”. Internautas tocados pela história demonstram amor, por meio de palavras de conforto e mensagens repletas de energias positivas e, principalmente, de fé. A força dada por eles tem ajudado a família na convivência com a situação.

O nascimento de Laura Praciano Cruz veio junto à morte da mãe, Paula Praciano. A família, no entanto, não teve tempo de viver o luto. Por mais que tente esquecer o que houve, constantemente relembra o que aconteceu e revive toda a história, dia a dia.

“Eu não me animo para fazer nada. Sinto muita saudade da minha filha. A Laurinha é um pedaço da Paula que ficou aqui. Peço que ela continue morando dentro de mim para que eu consiga cuidar da filha dela. Nada que faço é um sacrifício para mim: eu vivo pela Laurinha”, assegura Julita.

A situação de Laurinha, segundo os parentes, teria sido provocada por um erro médico. Paula teria sofrido um choque anafilático devido à alergia a uma medicação aplicada horas antes do procedimento. Em razão disso, Laurinha não recebeu oxigênio da mãe e teve um edema cerebral.

“Todo dia, acordo com a sensação de que é um pesadelo, e lembro que é verdade. Muitas vezes, a gente não entende o porquê de passar por isso, mas Deus segura a mão da gente. Penso que temos dois anjos: um no céu, que é a minha irmã, e um na terra, que é a Laurinha”, conclui o tio.