Autodidata, professor se destaca com aulas criativas de Física e é convocado pelo Google


Autodidata, professor se destaca com aulas criativas de Física e é convocado pelo Google

Idelfrânio Moreira nunca cursou faculdade de Física, mas leciona há 20 anos em Fortaleza. Com o sucesso em sala de aula, enveredou pela internet, onde virou referência

Por Rosana Romão em Educação

4 de outubro de 2014 às 08:00

Há 5 anos
Aulas de Idelfrânio Moreira farão parte de uma sessão dentro do site Youtube sinalizada pelo Google como as melhores videoaulas em língua portuguesa. (FOTO: Chico Célio)

Aulas de Idelfrânio Moreira farão parte de uma sessão dentro do site Youtube sinalizada pelo Google como as melhores videoaulas em língua portuguesa. (FOTO: Chico Célio)

“Você sabe Física, só não sabe que sabe!” É assim que Idelfrânio Moreira convence seus alunos a estudarem a disciplina, sem resistência ou preconceito. Mesmo sem ter cursado faculdade, ele leciona há 20 anos e desenvolve um novo método de estudar a Física. Com a divulgação de vídeoaulas criativas no Youtube há cinco anos, ele foi um dos 40 educadores selecionados em todo o Brasil para participar de um treinamento em tecnologias educacionais no Google.

Em seu canal, é possível acessar sessões específicas para Escolas Militares, Academia Enem, Fenômenos Físicos e Vestibulares tradicionais. Além de explicar o conteúdo, ele também responde a questões de Física e comenta o resultado, como estão nas sessões: “Eu sei o que vocês erraram na questão passada”, “Simulando Enem”, “Se essa questão fosse minha”, “Plantão da física marginal” e “As questões (de Física) mais legais do mundo”.

Uma das sessões mais irreverentes é nomeada pelo jargão do professor: “Você sabe física, só não sabe que sabe”. Nela, Idelfrânio utiliza cenas do cotidiano para mostrar que a Física é aplicável e que na maioria das vezes o aluno entende o processo físico, mas não parou para pensar nos termos técnicos. Além de explicar, ele costuma usar frases da literatura brasileira para contextualizar os assuntos.

Convite do Google

A publicação dos vídeos na internet chamou a atenção de uma das maiores empresas multinacionais de serviços online, o Google, que convidou o professor a fazer parte da seleção de um time de 40 educadores do Brasil para participar de um treinamento na sede do Google no Brasil, onde eles seriam capacitados para utilizar o potencial de seu canal no Youtube e acelerar o processo de tecnologia educacional via internet.

“Eu fiquei muito feliz e surpreso, pois eu persisto muito na Física Marginal. Meus vídeos nem tinham tanta repercussão assim, eu tinha, no máximo, 300 assinantes. Isso prova que a curadoria da Fundação Lemann não escolhe pela quantidade, e sim pelo conteúdo. Ratifica o trabalho que eu tô fazendo e mostra que estou indo no caminho certo”, conclui.

Todos os 40 educadores selecionados explicaram como trabalham, e receberam treinamento do Google para aprimorar educação e tecnologia via internet. Eles farão parte de uma sessão dentro do site Youtube sinalizada pelo Google como as melhores videoaulas em língua portuguesa.

“Eu queria ser Einstein, descobrir várias coisas. Buscava entender a teoria e tinha que explicar na prática pro meu pa. A ciência popular que eu aprendi em casa me fez estudar a física de forma contextualizada, e assim eu passei a ensiná-la contando histórias”.
Escolha da profissão

Antes mesmo de cursar o ensino médio, período em que a Física é inserida na grade curricular, Idelfrânio já estudava a disciplina. Recebeu livros doados por sua prima e começou a estudar e resolver exercícios sozinho. “Quando era mais novo, assistia aquele seriado do MacGyver e lembrava do meu pai e meu avô, que trabalhavam consertando objetos. Aquilo que eu via no seriado justificava tudo que o meu pai e meu avô faziam, então passei a me interessar pela Física. Mas além da prática, eu também queria entender a teoria”, relembra.

Ao cursar o ensino médio, aprimorou os conhecimentos e ganhou uma bolsa de estudos em uma escola particular de Fortaleza. Lá, participou da 1ª Olimpíada Cearense de Ciências e obteve nota 10. Logo, os diretores da escola perceberam o seu potencial e o convidaram para ser monitor da disciplina. Também dava aula particular aos colegas de sala que tinham dificuldade em resolver os exercícios.

Devido ao seu desempenho, foi contratado pela escola para ser professor substituto e depois como professor oficial da disciplina para turmas especiais e pré-vestibular. Em seus 20 anos de carreira já ensinou em três grandes escolas de Fortaleza e em cursos preparatórios para concursos. “Eu acho que o meu diferencial é ensinar a Física contando histórias. E isso vem do meu pai, porque à medida em que eu explicava a teoria, ele pedia que eu ensinasse como funcionava na prática. Então, eu tentava explicar de uma forma mais didática e próxima do universo dele”.

Física marginal

Professor utiliza a literatura e cenas do cotidiano para ensinar Física. (FOTO: Arquivo pessoal)

Professor utiliza a literatura e cenas do cotidiano para ensinar Física. (FOTO: Arquivo pessoal)

Apesar de ter alunos campeões de olimpíadas cearense, brasileira e mundial, Idelfrânio decidiu avançar. Em 2009 começou a desenvolver seu conceito de Física Marginal, que busca estudar a disciplina de forma dinâmica, contextualizada e interdisciplinar. Saiu de seu emprego, onde era professor exclusivo, e dedicou-se à educação pela internet. Criou um canal no Youtube, onde há cinco anos dá aulas, e possui um site com questões de sua autoria que seguem todos os padrões do Enem.

A resposta foi imediata: os alunos passaram a acompanhar as aulas e manter contato com o professor. “Eles usam momentos do seu cotidiano e me enviam dizendo: ‘Professor, isso aqui dá uma questão, dá uma aula’. E a ideia é justamente essa, fazer com que a pessoa se encante pela Física”. Como estava desempregado, e as videoaulas eram de iniciativa própria, ele teve que vender alguns bens materiais, por ter diminuído seu padrão de vida, e pediu ajuda aos amigos que possuíam estúdio para gravar as aulas.

Futuro

 Após voltar a dar aula em escolas particulares, Idelfrânio segue com as videoaulas da Física Marginal. Está desenvolvendo uma adaptação em seu site para que possa rastrear o tempo que o aluno passou online e quais questões foram resolvidas, para dar um retorno a esse aluno avaliando o seu desempenho. Também apresenta a Física Marginal em palestras e através de desafios, como o LiterArte, evento organizado pelo Sesc Fortaleza, que tem o objetivo de mostrar quando a arte dialoga com o Enem.

Para participar do projeto, o professor se propôs a falar sobre a Física Marginal contada, cantada e ilustrada por Roberto Carlos, Patativa do Assaré, Lulu Santos, Michael Jackson, João Ubaldo Ribeiro, Shakespeare, Seu Jorge, Geraldo Amâncio, Ary Barroso e Clarice Lispector. Na próxima apresentação pretende falar sobre Período Barroco, Bel Canto e os Castratti. E ainda pretende dar uma aula contextualizando os 50 anos da Ditadura Militar com a Física. Antes de qualquer estranhamento, ele garante: “Tem Física nisso sim!”.

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Autodidata, professor se destaca com aulas criativas de Física e é convocado pelo Google

Idelfrânio Moreira nunca cursou faculdade de Física, mas leciona há 20 anos em Fortaleza. Com o sucesso em sala de aula, enveredou pela internet, onde virou referência

Por Rosana Romão em Educação

4 de outubro de 2014 às 08:00

Há 5 anos
Aulas de Idelfrânio Moreira farão parte de uma sessão dentro do site Youtube sinalizada pelo Google como as melhores videoaulas em língua portuguesa. (FOTO: Chico Célio)

Aulas de Idelfrânio Moreira farão parte de uma sessão dentro do site Youtube sinalizada pelo Google como as melhores videoaulas em língua portuguesa. (FOTO: Chico Célio)

“Você sabe Física, só não sabe que sabe!” É assim que Idelfrânio Moreira convence seus alunos a estudarem a disciplina, sem resistência ou preconceito. Mesmo sem ter cursado faculdade, ele leciona há 20 anos e desenvolve um novo método de estudar a Física. Com a divulgação de vídeoaulas criativas no Youtube há cinco anos, ele foi um dos 40 educadores selecionados em todo o Brasil para participar de um treinamento em tecnologias educacionais no Google.

Em seu canal, é possível acessar sessões específicas para Escolas Militares, Academia Enem, Fenômenos Físicos e Vestibulares tradicionais. Além de explicar o conteúdo, ele também responde a questões de Física e comenta o resultado, como estão nas sessões: “Eu sei o que vocês erraram na questão passada”, “Simulando Enem”, “Se essa questão fosse minha”, “Plantão da física marginal” e “As questões (de Física) mais legais do mundo”.

Uma das sessões mais irreverentes é nomeada pelo jargão do professor: “Você sabe física, só não sabe que sabe”. Nela, Idelfrânio utiliza cenas do cotidiano para mostrar que a Física é aplicável e que na maioria das vezes o aluno entende o processo físico, mas não parou para pensar nos termos técnicos. Além de explicar, ele costuma usar frases da literatura brasileira para contextualizar os assuntos.

Convite do Google

A publicação dos vídeos na internet chamou a atenção de uma das maiores empresas multinacionais de serviços online, o Google, que convidou o professor a fazer parte da seleção de um time de 40 educadores do Brasil para participar de um treinamento na sede do Google no Brasil, onde eles seriam capacitados para utilizar o potencial de seu canal no Youtube e acelerar o processo de tecnologia educacional via internet.

“Eu fiquei muito feliz e surpreso, pois eu persisto muito na Física Marginal. Meus vídeos nem tinham tanta repercussão assim, eu tinha, no máximo, 300 assinantes. Isso prova que a curadoria da Fundação Lemann não escolhe pela quantidade, e sim pelo conteúdo. Ratifica o trabalho que eu tô fazendo e mostra que estou indo no caminho certo”, conclui.

Todos os 40 educadores selecionados explicaram como trabalham, e receberam treinamento do Google para aprimorar educação e tecnologia via internet. Eles farão parte de uma sessão dentro do site Youtube sinalizada pelo Google como as melhores videoaulas em língua portuguesa.

“Eu queria ser Einstein, descobrir várias coisas. Buscava entender a teoria e tinha que explicar na prática pro meu pa. A ciência popular que eu aprendi em casa me fez estudar a física de forma contextualizada, e assim eu passei a ensiná-la contando histórias”.
Escolha da profissão

Antes mesmo de cursar o ensino médio, período em que a Física é inserida na grade curricular, Idelfrânio já estudava a disciplina. Recebeu livros doados por sua prima e começou a estudar e resolver exercícios sozinho. “Quando era mais novo, assistia aquele seriado do MacGyver e lembrava do meu pai e meu avô, que trabalhavam consertando objetos. Aquilo que eu via no seriado justificava tudo que o meu pai e meu avô faziam, então passei a me interessar pela Física. Mas além da prática, eu também queria entender a teoria”, relembra.

Ao cursar o ensino médio, aprimorou os conhecimentos e ganhou uma bolsa de estudos em uma escola particular de Fortaleza. Lá, participou da 1ª Olimpíada Cearense de Ciências e obteve nota 10. Logo, os diretores da escola perceberam o seu potencial e o convidaram para ser monitor da disciplina. Também dava aula particular aos colegas de sala que tinham dificuldade em resolver os exercícios.

Devido ao seu desempenho, foi contratado pela escola para ser professor substituto e depois como professor oficial da disciplina para turmas especiais e pré-vestibular. Em seus 20 anos de carreira já ensinou em três grandes escolas de Fortaleza e em cursos preparatórios para concursos. “Eu acho que o meu diferencial é ensinar a Física contando histórias. E isso vem do meu pai, porque à medida em que eu explicava a teoria, ele pedia que eu ensinasse como funcionava na prática. Então, eu tentava explicar de uma forma mais didática e próxima do universo dele”.

Física marginal

Professor utiliza a literatura e cenas do cotidiano para ensinar Física. (FOTO: Arquivo pessoal)

Professor utiliza a literatura e cenas do cotidiano para ensinar Física. (FOTO: Arquivo pessoal)

Apesar de ter alunos campeões de olimpíadas cearense, brasileira e mundial, Idelfrânio decidiu avançar. Em 2009 começou a desenvolver seu conceito de Física Marginal, que busca estudar a disciplina de forma dinâmica, contextualizada e interdisciplinar. Saiu de seu emprego, onde era professor exclusivo, e dedicou-se à educação pela internet. Criou um canal no Youtube, onde há cinco anos dá aulas, e possui um site com questões de sua autoria que seguem todos os padrões do Enem.

A resposta foi imediata: os alunos passaram a acompanhar as aulas e manter contato com o professor. “Eles usam momentos do seu cotidiano e me enviam dizendo: ‘Professor, isso aqui dá uma questão, dá uma aula’. E a ideia é justamente essa, fazer com que a pessoa se encante pela Física”. Como estava desempregado, e as videoaulas eram de iniciativa própria, ele teve que vender alguns bens materiais, por ter diminuído seu padrão de vida, e pediu ajuda aos amigos que possuíam estúdio para gravar as aulas.

Futuro

 Após voltar a dar aula em escolas particulares, Idelfrânio segue com as videoaulas da Física Marginal. Está desenvolvendo uma adaptação em seu site para que possa rastrear o tempo que o aluno passou online e quais questões foram resolvidas, para dar um retorno a esse aluno avaliando o seu desempenho. Também apresenta a Física Marginal em palestras e através de desafios, como o LiterArte, evento organizado pelo Sesc Fortaleza, que tem o objetivo de mostrar quando a arte dialoga com o Enem.

Para participar do projeto, o professor se propôs a falar sobre a Física Marginal contada, cantada e ilustrada por Roberto Carlos, Patativa do Assaré, Lulu Santos, Michael Jackson, João Ubaldo Ribeiro, Shakespeare, Seu Jorge, Geraldo Amâncio, Ary Barroso e Clarice Lispector. Na próxima apresentação pretende falar sobre Período Barroco, Bel Canto e os Castratti. E ainda pretende dar uma aula contextualizando os 50 anos da Ditadura Militar com a Física. Antes de qualquer estranhamento, ele garante: “Tem Física nisso sim!”.

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