Pesquisa premiada faz um estudo sobre os jangadeiros nas pinturas do cearense Raimundo Cela

JANGADAS NO MAR

Pesquisa premiada faz um estudo sobre os jangadeiros nas pinturas do cearense Raimundo Cela

Raimundo Cela, nascido em Sobral no século 19, foi um dos maiores pintores da história do Brasil, e frequentemente retratava os jangadeiros cearenses

Por Crisneive Silveira em Educação

6 de outubro de 2019 às 07:00

Há 5 meses

Rachel Lopes, estudante de História da UECE, recebeu menção honrosa pelo trabalho. (FOTO: Arquivo Pessoal)

“Minha jangada vai sair pro mar! Vou trabalhar, meu bem-querer!” Aposto que você cantarolou aí também. “Suíte do Pescador”, um clássico da música popular brasileira, composta pelo baiano Dorival Caymmi, foi a inspiração para o título do trabalho premiado da estudante cearense Raquel Lopes da Silva.

“Minha jangada vai sair para pescar: os trabalhadores do mar na arte de Raimundo Cela” recebeu Menção Honrosa no 30º Simpósio Nacional de História, maior evento da área no país, realizado em Pernambuco. Nele, a aluna da Universidade Estadual do Ceará (Uece) busca entender o modo que o reconhecido artista cearense representou os jangadeiros em suas telas. Jangada no Mar (1940), Vencendo o Escarcéu (1942) e Jangada rolando para o Mar (1941) foram as obras estudadas pela jovem.

“Sempre que estou escrevendo escuto as canções praieiras do Caymmi como inspiração. É como se a música me ajudasse a ver melhor os quadros do Raimundo Cela. E receber essa menção honrosa foi maravilhoso e significou muito para mim. Esse evento é muito importante para os historiadores e historiadoras. Quando chamaram meu nome senti que todo o esforço e todas as dificuldades enfrentadas tinham valido a pena. Tive a certeza que é isso que eu quero fazer na minha vida, ser historiadora e professora de história”, conta a estudante de 27 anos.

“Jangada no Mar”

Pintura Jangada no Mar (1940), de Raimundo Cela. (FOTO: Reprodução)

Raquel diz que a pesquisa surgiu durante a experiência de Iniciação Científica na Estadual, sob coordenação da professora Berenice Abreu, que já trabalhava no estudo da representação deste homem do mar nos mais variados espaços, como: notícias de jornal, imagens e músicas.

Foi aí que o olhar sobre Raimundo Cela se ampliou, pois o artista plástico tem vasta obra retratando a vida dos jangadeiros, e virou tema do trabalho apresentado no evento realizado pela Associação Nacional de História, entre os dias 14 e 19 de julho.

Após exposição do artista no Dragão do Mar, em 2017, e pesquisas no Museu de Arte da UFC (Mauc) onde lhe é dedicada uma sala permanente e onde também repousa o maior acervo do artista em uma instituição pública, ela levou o tema para o Trabalho de Conclusão de Curso. Foi a hora de lançar a “jangada no mar.”

“Com todo o contato que tive com as telas de Raimundo Cela e sua história, decidi fazer minha pesquisa de conclusão do curso sobre a representação que Cela construiu dos jangadeiros cearenses. Em 2018, continuamos a pesquisa, agora com uma bolsa financiada pela Funcap em parceria com a Uece, em um projeto que tinha como objetivo principal a pesquisa da representação dos jangadeiros nas imagens, principalmente em obras de arte”, relembrou a estudante.

“Vencendo o Escarcéu”

Vencendo o Escarcéu (1942), pintura de Raimundo Cela. (FOTO: Reprodução)

Veio a necessidade de um mergulho mais aprofundado na pesquisa. A orientadora sugeriu viajar para o Rio de Janeiro, em 2018. Lá, ficam o Museu Nacional de Belas Artes, que guarda a documentação da Escola Nacional de Belas Artes, lugar onde Cela estudou na década de 1910, além do Arquivo Histórico do Exército, todas fontes para pesca de informações. Foi também a hora de aproveitar a oportunidade “Vencendo o Escarcéu.”

“Essa viagem foi muito importante para minha formação acadêmica, pois moro no bairro Jereissati, em Pacatuba, e nunca tinha pensado em viajar para o Rio para pesquisar. Foi a realização de um sonho. Minha mãe é diarista e sempre me disse que a única coisa que poderia me oferecer era estudo e, quando fiz essa viagem, vi como estudar era importante, principalmente para quem é mulher, pobre e negra. Vi que era através do estudo que eu conseguiria vencer as barreiras sociais”, avaliou a futura historiadora.

“Jangada rolando para o mar”

Jangada rolando para o mar, de Raimundo Cela, foi uma das obras analisadas. (FOTO: Reprodução fotográfica Raul Lima/Itaú Cultural)

“Se Deus quiser, quando eu voltar do mar, um peixe bom eu vou trazer”, versa a letra de Caymmi. E Raquel trouxe. Ao deixar a “jangada rolando para o mar” da pesquisa, além da Menção Honrosa que reconhece o trabalho feito, ela criou mais uma oportunidade de discutir e ampliar a voz dos homens que enfrentam as ondas da rotina no mar, em um realidade que parece, às vezes, esquecida, mas que é profunda em significado e história.

“Falar dos jangadeiros é falar de trabalhadores fortes e corajosos que enfrentam o mar todos os dias em busca do sustento de suas famílias e isso lembra muito minha mãe. Os jangadeiros de Raimundo Cela são destemidos e conscientes do contexto social e político que viviam e é por isso que é tão importante falar desses trabalhadores pintados por Cela. Fazer a pesquisa sobre ele, é poder contar um pouco da história de um cearense que saiu de Camocim para o Rio de Janeiro em busca do sonho de estudar arte e que ganhou o mundo”, refletiu a estudante.

Raimundo Cela

Raimundo Brandão Cela nasceu na cidade de Sobral, em 19 de julho de 1820. No Liceu do Ceará, formou-se em Ciências e Letras. Mudou-se para o Rio de Janeiro no ano de 1910, estudou na Escola Nacional de Belas Artes.

O cearense morou em Paris entre 1917 e 1922 e viajou por diversos países da Europa, onde também estudou gravura em metal. De volta ao Brasil, foi morar em Camocim, no interior do Estado, e começou a trabalhar como engenheiro.

Pintor, desenhista e gravador, Cela é autor do quadro “Abolição dos Escravos”, do Palácio do Governo do Ceará. Além disso, participou do I Salão Cearense de Pintura, do I Salão de Abril, no Ceará; do IX Salão Paulista de Belas Artes, em SP; do Salão Nacional de Belas Artes, no RJ. Foi em terras fluminenses que ele recebeu a Medalha de Ouro em Pintura, além da Medalha de Ouro em Gravura. Estas informações são do portal do Museu de Arte da UFC.

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JANGADAS NO MAR

Pesquisa premiada faz um estudo sobre os jangadeiros nas pinturas do cearense Raimundo Cela

Raimundo Cela, nascido em Sobral no século 19, foi um dos maiores pintores da história do Brasil, e frequentemente retratava os jangadeiros cearenses

Por Crisneive Silveira em Educação

6 de outubro de 2019 às 07:00

Há 5 meses

Rachel Lopes, estudante de História da UECE, recebeu menção honrosa pelo trabalho. (FOTO: Arquivo Pessoal)

“Minha jangada vai sair pro mar! Vou trabalhar, meu bem-querer!” Aposto que você cantarolou aí também. “Suíte do Pescador”, um clássico da música popular brasileira, composta pelo baiano Dorival Caymmi, foi a inspiração para o título do trabalho premiado da estudante cearense Raquel Lopes da Silva.

“Minha jangada vai sair para pescar: os trabalhadores do mar na arte de Raimundo Cela” recebeu Menção Honrosa no 30º Simpósio Nacional de História, maior evento da área no país, realizado em Pernambuco. Nele, a aluna da Universidade Estadual do Ceará (Uece) busca entender o modo que o reconhecido artista cearense representou os jangadeiros em suas telas. Jangada no Mar (1940), Vencendo o Escarcéu (1942) e Jangada rolando para o Mar (1941) foram as obras estudadas pela jovem.

“Sempre que estou escrevendo escuto as canções praieiras do Caymmi como inspiração. É como se a música me ajudasse a ver melhor os quadros do Raimundo Cela. E receber essa menção honrosa foi maravilhoso e significou muito para mim. Esse evento é muito importante para os historiadores e historiadoras. Quando chamaram meu nome senti que todo o esforço e todas as dificuldades enfrentadas tinham valido a pena. Tive a certeza que é isso que eu quero fazer na minha vida, ser historiadora e professora de história”, conta a estudante de 27 anos.

“Jangada no Mar”

Pintura Jangada no Mar (1940), de Raimundo Cela. (FOTO: Reprodução)

Raquel diz que a pesquisa surgiu durante a experiência de Iniciação Científica na Estadual, sob coordenação da professora Berenice Abreu, que já trabalhava no estudo da representação deste homem do mar nos mais variados espaços, como: notícias de jornal, imagens e músicas.

Foi aí que o olhar sobre Raimundo Cela se ampliou, pois o artista plástico tem vasta obra retratando a vida dos jangadeiros, e virou tema do trabalho apresentado no evento realizado pela Associação Nacional de História, entre os dias 14 e 19 de julho.

Após exposição do artista no Dragão do Mar, em 2017, e pesquisas no Museu de Arte da UFC (Mauc) onde lhe é dedicada uma sala permanente e onde também repousa o maior acervo do artista em uma instituição pública, ela levou o tema para o Trabalho de Conclusão de Curso. Foi a hora de lançar a “jangada no mar.”

“Com todo o contato que tive com as telas de Raimundo Cela e sua história, decidi fazer minha pesquisa de conclusão do curso sobre a representação que Cela construiu dos jangadeiros cearenses. Em 2018, continuamos a pesquisa, agora com uma bolsa financiada pela Funcap em parceria com a Uece, em um projeto que tinha como objetivo principal a pesquisa da representação dos jangadeiros nas imagens, principalmente em obras de arte”, relembrou a estudante.

“Vencendo o Escarcéu”

Vencendo o Escarcéu (1942), pintura de Raimundo Cela. (FOTO: Reprodução)

Veio a necessidade de um mergulho mais aprofundado na pesquisa. A orientadora sugeriu viajar para o Rio de Janeiro, em 2018. Lá, ficam o Museu Nacional de Belas Artes, que guarda a documentação da Escola Nacional de Belas Artes, lugar onde Cela estudou na década de 1910, além do Arquivo Histórico do Exército, todas fontes para pesca de informações. Foi também a hora de aproveitar a oportunidade “Vencendo o Escarcéu.”

“Essa viagem foi muito importante para minha formação acadêmica, pois moro no bairro Jereissati, em Pacatuba, e nunca tinha pensado em viajar para o Rio para pesquisar. Foi a realização de um sonho. Minha mãe é diarista e sempre me disse que a única coisa que poderia me oferecer era estudo e, quando fiz essa viagem, vi como estudar era importante, principalmente para quem é mulher, pobre e negra. Vi que era através do estudo que eu conseguiria vencer as barreiras sociais”, avaliou a futura historiadora.

“Jangada rolando para o mar”

Jangada rolando para o mar, de Raimundo Cela, foi uma das obras analisadas. (FOTO: Reprodução fotográfica Raul Lima/Itaú Cultural)

“Se Deus quiser, quando eu voltar do mar, um peixe bom eu vou trazer”, versa a letra de Caymmi. E Raquel trouxe. Ao deixar a “jangada rolando para o mar” da pesquisa, além da Menção Honrosa que reconhece o trabalho feito, ela criou mais uma oportunidade de discutir e ampliar a voz dos homens que enfrentam as ondas da rotina no mar, em um realidade que parece, às vezes, esquecida, mas que é profunda em significado e história.

“Falar dos jangadeiros é falar de trabalhadores fortes e corajosos que enfrentam o mar todos os dias em busca do sustento de suas famílias e isso lembra muito minha mãe. Os jangadeiros de Raimundo Cela são destemidos e conscientes do contexto social e político que viviam e é por isso que é tão importante falar desses trabalhadores pintados por Cela. Fazer a pesquisa sobre ele, é poder contar um pouco da história de um cearense que saiu de Camocim para o Rio de Janeiro em busca do sonho de estudar arte e que ganhou o mundo”, refletiu a estudante.

Raimundo Cela

Raimundo Brandão Cela nasceu na cidade de Sobral, em 19 de julho de 1820. No Liceu do Ceará, formou-se em Ciências e Letras. Mudou-se para o Rio de Janeiro no ano de 1910, estudou na Escola Nacional de Belas Artes.

O cearense morou em Paris entre 1917 e 1922 e viajou por diversos países da Europa, onde também estudou gravura em metal. De volta ao Brasil, foi morar em Camocim, no interior do Estado, e começou a trabalhar como engenheiro.

Pintor, desenhista e gravador, Cela é autor do quadro “Abolição dos Escravos”, do Palácio do Governo do Ceará. Além disso, participou do I Salão Cearense de Pintura, do I Salão de Abril, no Ceará; do IX Salão Paulista de Belas Artes, em SP; do Salão Nacional de Belas Artes, no RJ. Foi em terras fluminenses que ele recebeu a Medalha de Ouro em Pintura, além da Medalha de Ouro em Gravura. Estas informações são do portal do Museu de Arte da UFC.