Professor da UFC se diz traumatizado após agressão de jovem com camisa de Bolsonaro

TENSÃO NA ACADEMIA

Professor da UFC se diz traumatizado após agressão de jovem com camisa de Bolsonaro

Júlio Araújo, professor do curso de Letras, conta que o caso de racismo e homofobia que sofreu dentro do campus da UFC deixou marcas

Por Tribuna do Ceará em Eleições 2018

23 de outubro de 2018 às 07:01

Há 10 meses
bosque-da-letras

No Bosque da Letras, alunos e colegas de Júlio Araújo organizaram um ato de solidariedade ao professor. (FOTO: Arquivo Pessoal)

“Queria compartilhar algo bem ruim e triste que me aconteceu. Como vocês sabem, sou professor da universidade. E o que aconteceu comigo foi dentro do campus. No início desta semana, na UFC, sofri agressão de um rapaz (não sei se ele é aluno). Evitei olhá-lo no rosto! Mas, de relance, deu para perceber que é alto, branco e usa barba. Não olhei para o rosto porque fiquei com medo.”

É assim que começa o relato de Júlio Araújo, professor do curso de Letras da Universidade Federal do Ceará. No Facebook, ele contou sobre o último 9 de outubro, numa tarde de terça-feira, quando foi agredido enquanto transitava no Bosque da Letras, no campus do Benfica, em Fortaleza.

Ele conta que foi intimidado por um grupo de homens que foram homofóbicos e racistas, todos trajados com blusas de Jair Bolsonaro. Um Boletim de Ocorrência foi registrado.

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Comunidade acadêmica vive clima de tensão na UFC graças ao acirramento político nas eleições

Aluno hostilizado na UFC em 2016 por vestir blusa de Bolsonaro deixou faculdade por “falta de clima”

No relato publicado, Júlio conta como foi intimidado. O depoimento teve mais de 1500 compartilhamentos na rede.

“Ele deve saber quem eu sou porque disse em voz alta ao me ver passar pelo bosque do Curso de Letras: ‘Quero só ver como ficarão os professores viados e negros dessa porcaria de universidade! Deixe meu presidente assumir, sua bicha preta’. Nem olhei pra trás, mas isso não me impediu de ouvir as risadas debochadas dele e de outros que estavam com ele! Todos estavam vestindo uma blusa preta com o nome do coiso. Apesar de eu ter ficado muito assustado, caminhei em frente sem jamais olhar pra trás. Gente, eu cheguei em meu carro me tremendo e lá dentro chorei muito antes de vir pra casa. Eu, realmente, senti muito medo”, relata o professor.

“Pensei no mestre Moa, assassinado recentemente, e em tantos outros casos de violência e agressão que estão se espalhando Brasil a fora! Todos vinculados ao bolsonarismo odiento que está infectando tanta gente. Por favor, vamos vibrar para que esse arauto do ódio não chegue à presidência do Brasil. Mais do que nunca, pessoas como eu precisamos de vocês. Nos protejam. Não votem em branco! Não votem nulo. E, por amor, não votem no fascismo. Votar em Haddad e Manuela agora não é mais uma mera questão ideológico-partidária e sim uma preciosa chance de proteger a nossa democracia e proteger as pessoas dessa onda violenta de intolerância”, finalizou.

Doutor em Linguística

Nascido em Banabuiú, no interior do estado, Júlio Araújo é doutor em Linguística pela UFC e pós-doutor pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). De volta ao estado, ele foi aprovado para professor efetivo em 2006. Durante as aulas, discute práticas discursivas em ambientes digitais, questões do discurso de ódio e fake news. Após o depoimento viralizar nas redes, o professor conta que tem recebido muito apoio.

“Um oceano de mensagens de apoio foi chegando, e meio que não tenho conseguido dar conta de responder a todo mundo. Na própria Universidade houve um ato público em solidariedade a mim, no qual reuniu muitos professores e estudantes, então isso ameniza um pouco aquele trauma que fica, o medo de ficar andando, olhando sempre para os lados, sempre achando que alguém vai aparecer com aquele tipo de agressão que sofri.”

O ato em apoio a Júlio ocorreu na última quarta-feira (17) e foi organizado pelos colegas professores e por alunos. A UFC também lançou uma nota comentando o caso e repudiando qualquer tipo de violência.

“Foi um gesto simbólico, como quem dissesse fique tranquilo, estamos com você. E de fato uma rede de afetos diversos se constituiu de forma muito natural. Em nenhum momento a nota oficial que a UFC soltou em solidariedade a mim e esse ato, soaram como uma mera formalidade. Senti muito mais que a mobilização tanto para a nota como para o ato foi de afeto e não é por causa do Júlio, professor, mas em função dos muitos Júlios que existem e, pela condição que têm, podem sofrer coisas desse tipo”, revelou.

Discussão política

Sobre o clima de discussão política na Universidade, também espaço para discutir ideias divergentes, Júlio diz que o clima amistoso e de respeito se mantém.

“Ele continua amistoso, respeitoso, muito polido, muito respeito às ideias. E diante dessa polarização de extrema direita e uma perspectiva, não de extrema esquerda, mas uma perspectiva humanitária de tentar proteger o Brasil de institucionalizar o fascismo. Existe um posicionamento bem ponderado. Eu observo entre meus colegas e estudantes, no sentido de dizer que o voto, agora, ele anda muito longe de uma questão ideológico-partidária, ele é muito mais uma manifestação solidária, humanitária, de salvar o país, de proteger a democracia, as democracias”, avaliou.

O professor registrou um Boletim de Ocorrência no 4º Distrito Policial. Apesar da rede de apoio, ele revela que continua com medo de transitar pelo campus do Benfica.

“Fiz um B.O, oficialmente registrado. As autoridades acadêmicas têm a cópia do B.O. E sim, eu fiquei com muito medo de entrar e sair do campus, sobretudo se o campus estiver deserto. Aqueles momentos que não é de intervalo, que tem pouca gente no bosque. Mas, por outro lado, tive uma galáxia inteira de amor do meu lado”, concluiu.

Por meio de nota, a Comissão de Direitos Humanos da instituição se manifestou em “solidariedade ao Prof. Júlio Araújo, bem como aos demais membros da comunidade universitária, pela agressão moral e discriminatória sofrida no âmbito desta Instituição.” A Reitoria da UFC lançou nota ressaltando a vocação da Universidade para a luta democrática.

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Professor da UFC se diz traumatizado após agressão de jovem com camisa de Bolsonaro

Júlio Araújo, professor do curso de Letras, conta que o caso de racismo e homofobia que sofreu dentro do campus da UFC deixou marcas

Por Tribuna do Ceará em Eleições 2018

23 de outubro de 2018 às 07:01

Há 10 meses
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No Bosque da Letras, alunos e colegas de Júlio Araújo organizaram um ato de solidariedade ao professor. (FOTO: Arquivo Pessoal)

“Queria compartilhar algo bem ruim e triste que me aconteceu. Como vocês sabem, sou professor da universidade. E o que aconteceu comigo foi dentro do campus. No início desta semana, na UFC, sofri agressão de um rapaz (não sei se ele é aluno). Evitei olhá-lo no rosto! Mas, de relance, deu para perceber que é alto, branco e usa barba. Não olhei para o rosto porque fiquei com medo.”

É assim que começa o relato de Júlio Araújo, professor do curso de Letras da Universidade Federal do Ceará. No Facebook, ele contou sobre o último 9 de outubro, numa tarde de terça-feira, quando foi agredido enquanto transitava no Bosque da Letras, no campus do Benfica, em Fortaleza.

Ele conta que foi intimidado por um grupo de homens que foram homofóbicos e racistas, todos trajados com blusas de Jair Bolsonaro. Um Boletim de Ocorrência foi registrado.

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Aluno hostilizado na UFC em 2016 por vestir blusa de Bolsonaro deixou faculdade por “falta de clima”

No relato publicado, Júlio conta como foi intimidado. O depoimento teve mais de 1500 compartilhamentos na rede.

“Ele deve saber quem eu sou porque disse em voz alta ao me ver passar pelo bosque do Curso de Letras: ‘Quero só ver como ficarão os professores viados e negros dessa porcaria de universidade! Deixe meu presidente assumir, sua bicha preta’. Nem olhei pra trás, mas isso não me impediu de ouvir as risadas debochadas dele e de outros que estavam com ele! Todos estavam vestindo uma blusa preta com o nome do coiso. Apesar de eu ter ficado muito assustado, caminhei em frente sem jamais olhar pra trás. Gente, eu cheguei em meu carro me tremendo e lá dentro chorei muito antes de vir pra casa. Eu, realmente, senti muito medo”, relata o professor.

“Pensei no mestre Moa, assassinado recentemente, e em tantos outros casos de violência e agressão que estão se espalhando Brasil a fora! Todos vinculados ao bolsonarismo odiento que está infectando tanta gente. Por favor, vamos vibrar para que esse arauto do ódio não chegue à presidência do Brasil. Mais do que nunca, pessoas como eu precisamos de vocês. Nos protejam. Não votem em branco! Não votem nulo. E, por amor, não votem no fascismo. Votar em Haddad e Manuela agora não é mais uma mera questão ideológico-partidária e sim uma preciosa chance de proteger a nossa democracia e proteger as pessoas dessa onda violenta de intolerância”, finalizou.

Doutor em Linguística

Nascido em Banabuiú, no interior do estado, Júlio Araújo é doutor em Linguística pela UFC e pós-doutor pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). De volta ao estado, ele foi aprovado para professor efetivo em 2006. Durante as aulas, discute práticas discursivas em ambientes digitais, questões do discurso de ódio e fake news. Após o depoimento viralizar nas redes, o professor conta que tem recebido muito apoio.

“Um oceano de mensagens de apoio foi chegando, e meio que não tenho conseguido dar conta de responder a todo mundo. Na própria Universidade houve um ato público em solidariedade a mim, no qual reuniu muitos professores e estudantes, então isso ameniza um pouco aquele trauma que fica, o medo de ficar andando, olhando sempre para os lados, sempre achando que alguém vai aparecer com aquele tipo de agressão que sofri.”

O ato em apoio a Júlio ocorreu na última quarta-feira (17) e foi organizado pelos colegas professores e por alunos. A UFC também lançou uma nota comentando o caso e repudiando qualquer tipo de violência.

“Foi um gesto simbólico, como quem dissesse fique tranquilo, estamos com você. E de fato uma rede de afetos diversos se constituiu de forma muito natural. Em nenhum momento a nota oficial que a UFC soltou em solidariedade a mim e esse ato, soaram como uma mera formalidade. Senti muito mais que a mobilização tanto para a nota como para o ato foi de afeto e não é por causa do Júlio, professor, mas em função dos muitos Júlios que existem e, pela condição que têm, podem sofrer coisas desse tipo”, revelou.

Discussão política

Sobre o clima de discussão política na Universidade, também espaço para discutir ideias divergentes, Júlio diz que o clima amistoso e de respeito se mantém.

“Ele continua amistoso, respeitoso, muito polido, muito respeito às ideias. E diante dessa polarização de extrema direita e uma perspectiva, não de extrema esquerda, mas uma perspectiva humanitária de tentar proteger o Brasil de institucionalizar o fascismo. Existe um posicionamento bem ponderado. Eu observo entre meus colegas e estudantes, no sentido de dizer que o voto, agora, ele anda muito longe de uma questão ideológico-partidária, ele é muito mais uma manifestação solidária, humanitária, de salvar o país, de proteger a democracia, as democracias”, avaliou.

O professor registrou um Boletim de Ocorrência no 4º Distrito Policial. Apesar da rede de apoio, ele revela que continua com medo de transitar pelo campus do Benfica.

“Fiz um B.O, oficialmente registrado. As autoridades acadêmicas têm a cópia do B.O. E sim, eu fiquei com muito medo de entrar e sair do campus, sobretudo se o campus estiver deserto. Aqueles momentos que não é de intervalo, que tem pouca gente no bosque. Mas, por outro lado, tive uma galáxia inteira de amor do meu lado”, concluiu.

Por meio de nota, a Comissão de Direitos Humanos da instituição se manifestou em “solidariedade ao Prof. Júlio Araújo, bem como aos demais membros da comunidade universitária, pela agressão moral e discriminatória sofrida no âmbito desta Instituição.” A Reitoria da UFC lançou nota ressaltando a vocação da Universidade para a luta democrática.