Há 60 anos, estudante dava a própria vida para salvar vítimas de incêndio em hospital de Fortaleza

DIA DO ESTUDANTE-HERÓI

Há 60 anos, estudante dava a própria vida para salvar vítimas de incêndio em hospital de Fortaleza

Neste Dia do Estudante, relembre a história de João Nogueira Jucá, adolescente cearense que entrou para a história ao morrer após salvamento de recém-nascidos e parturientes em incêndio na então Casa de Saúde Dr. César Cals

Por William Barros em Perfil

11 de agosto de 2019 às 08:00

Há 2 semanas

Em homenagem a João, a Praça da Lagoinha recebeu um busto produzido por escultores (FOTO: William Barros/Tribuna do Ceará)

11 de agosto é o Dia do Estudante. Mas, em especial para alguns cearenses, esse também é o dia de relembrar um nome em particular. Trata-se de João Nogueira Jucá, aluno do antigo colégio São João, que mais tarde virou o colégio Farias Brito sede Aldeota.

Há 60 anos, o jovem foi responsável por salvar inúmeras vítimas de um incêndio na então Casa de Saúde Dr. César Cals, no Centro de Fortaleza. Num ato digno de herói, João deixou sua própria vida pelo caminho para salvar pessoas que nem conhecia.

Para recontar essa história, o Tribuna do Ceará conversou com familiares e amigos de João. Na data que também poderia ser o Dia do Estudante-Herói, convidamos você a relembrar como um jovem cearense se tornou mártir.

Veja abaixo a reportagem em vídeo e em texto.

Há 60 anos, estudante dava a própria vida para salvar vítimas de incêndio em hospital de Fortaleza

Neste Dia do Estudante, relembre a história de João Nogueira Jucá, adolescente cearense que entrou para a história ao morrer após salvamento de recém-nascidos e parturientes em incêndio na então Casa de Saúde Dr. César Cals. https://bit.ly/2TloG7w

Posted by Tribuna do Ceará on Sunday, August 11, 2019

Estudante-Herói
1/2

Estudante-Herói

João Nogueira Jucá é definido por familiares como um menino forte e dedicado à prática esportiva (FOTOS: Arquivo pessoal da família Jucá)

Estudante-Herói
2/2

Estudante-Herói

João Nogueira Jucá é definido por familiares como um menino forte e dedicado à prática esportiva (FOTOS: Arquivo pessoal da família Jucá)

Herói forjado no fogo

Nascido em Fortaleza, em 24 de novembro de 1941, João Nogueira Jucá mudou de endereço diversas vezes durante a infância, devido ao cargo de desembargador ocupado pelo pai. A família Jucá passou por Itapajé e Lavras da Mangabeira. Foi só em 1948 que fixou residência na capital novamente.

Nessas andanças, o que nunca mudava era o jeito educado do garoto que sonhava em ingressar na Marinha de Guerra do Brasil e que ostentava uma vasta coleção de livros sobre um mesmo assunto: o mar. Não mudava também a dedicação aos estudos e o gosto pela prática de esportes.

Às 14h do dia 4 de agosto, João, então com 17 anos, voltava de uma aula de halterofilismo. Quando chegou à Praça da Lagoinha, no Centro, uma aglomeração de pessoas no entorno da Casa de Saúde Dr. César Cals lhe chamou a atenção. Não demorou para que entendesse do que se tratava. Um incêndio atingia o prédio onde hoje funciona o Hospital Geral Dr. César Cals.

Segundo relata o livro Herói e Mártir (2002, Editora ABC), escrito por José Jucá Neto em homenagem ao irmão mais novo, as chamas tiveram início após uma explosão no depósito de tubos de éter, oxigênio e outros produtos inflamáveis. Funcionários lutavam para retirar dali substâncias que poderiam agravar a situação. Aos nervos, pacientes e seus acompanhantes tentavam sair do hospital.

Diante daquela situação, João não hesitou. “Vou entrar. Se quiserem ajudar também, me sigam”, anunciou aos amigos que o acompanhavam. Advertiram-lhe sobre os perigos, mas não bastou. Do interior do hospital, o estudante retirou inúmeros tubos de éter. Mas, acima de tudo, salvou as vidas de recém-nascidos e parturientes.

A então Casa de Saúde César Cals foi o cenário do heroísmo de João Nogueira Jucá (FOTO: Reprodução/Fortaleza Nobre)

Salvador incessante

Mesmo quando o Corpo de Bombeiros do Ceará já havia iniciado seus trabalhos, João não abandonou a missão que tomara para si. “Por favor, meu filho, não entre mais aí”, pedia uma das enfermeiras, segundo relataram testemunhas. “Mas ainda tem gente lá dentro”, justificava o garoto, referindo-se à chamada “ala dos indigentes”, setor onde ficavam os pacientes mais pobres ou sem documentos de identificação.

Na porta do hospital, João se deparou com uma mulher que chorava copiosamente. “O que você tem? Você já não está salva?”, questionou-a. “Mas não tive tempo de pegar o meu bebezinho”, lamentou a moça. Sem pensar muito, João retornou ao interior da casa de saúde e seguiu para o quarto indicado pela jovem. Ao sair, entregou o recém-nascido nos braços da mãe.

A pedido de uma das freiras que trabalhavam na casa, João adentrou mais uma vez, para retirar um tubo de oxigênio. Enquanto o estudante transportava o objeto, ocorreu a segunda explosão. Dessa vez, o garoto não saiu ileso. Sofreu queimaduras de primeiro, segundo e terceiro graus. Até mesmo órgãos internos foram atingidos.

Nos primeiros dias após o incêndio, João ocupou um leito na Assistência Municipal (FOTO: Arquivo pessoal da família Jucá)

Uma semana de internação

Depois disso, João começava a lutar para salvar sua própria vida. Lutava em silêncio. Sem reclamar das dores, aguardou pelo atendimento junto aos demais sobreviventes. Não valeu-se do fato de que seu pai era o desembargador José Jucá Filho, e foi um dos últimos a receber socorro.

Inicialmente, o garoto ficou internado na Unidade de Queimados da Assistência Municipal, atual Instituto Dr. José Frota (IJF). Dias depois, foi encaminhado para a Casa de Saúde César Cals, cenário de sua heroica atitude.

Dia a dia, sua internação foi alvo de intensa cobertura jornalística. Até mesmo o então governador Parsifal Barroso chegou a visitá-lo.

No quarto 42, foi acompanhado pelo pai e pela mãe, a professora Maria Nogueira de Menezes, conhecida como Dona Nenen. “Dói muito, meu filho?”, questionava, apontando para as queimaduras. “É uma brasa, mamãe”, respondia João. “Você não se arrepende do que fez?”, indagava o pai. “O que fiz ainda foi pouco. Se pudesse, teria feito mais, rebatia o menino, conforme relata sua biografia.

Os pais de João estiveram perto do filho até o fim dos dias do menino (FOTO: Arquivo pessoal da família Jucá)

Comoção na cidade

Durante o período na Casa de Saúde, João nem sempre esteve consciente, segundo familiares. Em delírio, imaginava-se oficial da Marinha e chegava a bater continência. Num momento, recebeu o perdão do pai por ter se arriscado. “Agora, eu morro satisfeito”, agonizou. E assim o fez às 5h20 do dia 11 de agosto.

Um cortejo acompanhou o corpo de João até o Cemitério São João Batista, no Centro de Fortaleza. À frente, o governador do Ceará. O menino, que ali já era tratado como herói, agora revelava-se mártir. Seu enterro virou um grande evento.

O governador Parsifal Barroso se manteve à frente do cortejo de João Nogueira Jucá (FOTO: Arquivo pessoal da família Jucá)

Marcas para a vida toda

João não foi o único a falecer em decorrência daquela tragédia. Registros históricos do Corpo de Bombeiros estimam que o saldo do incêndio tenha sido de quatro mortos, mais de 50 feridos e 20 hospitalizações de vítimas em estado grave, incluindo dois bombeiros.

Quem sobreviveu às chamas carregou marcas para a vida toda. É o caso de Raimundo Carvalho, um dos sobreviventes do incêndio. Ex-funcionário da Casa de Saúde, ele foi entrevistado pelos jornalistas João Moura Rocha Sobrinho e Thiago Araújo de Souza, no livro-reportagem Nascidos para salvar (2010).

Assim como João, Raimundo foi vitimado pela segunda explosão. O fogo atingiu as costas do rapaz, que sentiu sua pele ser consumida como um papel. Depois de reunir forças, deixar a Casa de Saúde e receber socorro, Raimundo começou a batalha por sua recuperação.

Pomadas, cirurgias e anos de tratamento não apagaram por completo as cicatrizes do homem. Ao longo da vida, sofreu com o estigma causado pela aparência. Mesmo se quisesse esquecer da tragédia, Raimundo não conseguiria, já que ficou mais conhecido por um apelido que remete diretamente ao episódio: “Seu Queimadinho”. O Tribuna do Ceará não conseguiu localizar o sobrevivente.

Estudante-Herói
1/3

Estudante-Herói

A morte de João foi destaque nos jornais O Povo, Correio do Ceará e Diário do Povo (FOTO: Arquivo pessoal da família Jucá)

Estudante-Herói
2/3

Estudante-Herói

A morte de João foi destaque nos jornais O Povo, Correio do Ceará e Diário do Povo (FOTO: Arquivo pessoal da família Jucá)

Estudante-Herói
3/3

Estudante-Herói

A morte de João foi destaque nos jornais O Povo, Correio do Ceará e Diário do Povo (FOTO: Arquivo pessoal da família Jucá)

Anos de lembranças

Terezinha Ponte Jucá começou seu namoro com José Jucá Neto, irmão mais velho de João, em dezembro de 1958. A convivência com o cunhado durou apenas 10 meses. No entanto, pelo resto da vida, Terezinha assistiu de perto o sofrimento da família pela ausência do ente querido.

“Foram anos de lembranças e choros. A morte do João trouxe um vazio muito grande para a família. Eu via o sofrimento do meu marido e sofria junto com ele. Meu sogro não saía mais para canto nenhum. Minha sogra teve mais força. Acho que toda mãe é mais forte. Ela foi quem conseguiu ajudar mais a família”, relembra.

Terezinha foi casada com o irmão de João por 48 anos (FOTO: Fábio Rabelo/Tribuna do Ceará)

Aos 80 anos, Terezinha é uma das poucas pessoas da família que chegaram a conviver com João e ainda estão vivas. Hoje viúva, ela foi casada por 48 anos com José Jucá Neto, advogado e professor do Departamento de Direito da Universidade Federal do Ceará (UFC). Segundo ela, o marido e o irmão eram “muito unidos, se queriam muito bem”.

José narrou a trajetória do irmão no livro Herói e Mártir (2002, Editora ABC). Além disso, o primeiro dos cinco filhos com Terezinha foi escolhido para receber o nome do que consideram “o maior exemplo de coragem” na família: João.

Terezinha e os filhos, João e Danielle, guardam com orgulho os exemplares da biografia do tio (FOTO: Fábio Rabelo/Tribuna do Ceará)

 

 

Um nome, uma história a repassar

“Eu me orgulho muito do nome que eu tenho, porque relembra uma pessoa que foi importante para a sociedade cearense. É um exemplo de um tio que eu queria muito ter conhecido”, reflete João Nogueira Ponte Jucá, o sobrinho mais velho de João Nogueira Jucá.

Já aposentado, o funcionário público cresceu ouvindo a história do tio e se preocupou em repassá-la aos que nasceram depois. “Meus filhos têm 32 e 30 anos. Sempre ouviram a história do meu tio. Já tenho uma neta de dois aninhos, que logo, logo, passará também a entender que teve um herói na família”, assegura.

Para o sobrinho, João seguiu os passos de Jesus Cristo. “Ele é exemplo de vida, doação, amor, caridade. Sem conhecer ninguém, entrou nas chamas ardentes e salvou desconhecidos. Ele deu a prova maior do amor ao próximo”, orgulha-se.

“Ele é exemplo de vida, doação, amor, caridade. Sem conhecer ninguém, entrou nas chamas ardentes e salvou desconhecidos”. (João Nogueira Ponte Jucá)

João acredita que é importante manter a história do tio viva. “Ele dá um exemplo de doação aos nossos jovens e – por que não dizer – à sociedade, de um modo geral. A sociedade é composta de pessoas boas e pessoas más. João Nogueira Jucá era uma pessoa boa”, avalia.

Barreira Nanan é o mobilizador oficial da solenidade que anualmente homenageia o estudante João Nogueira (FOTO:Tribuna do Ceará / Fábio Rabelo)

Barreira Nanan é o mobilizador da solenidade que anualmente homenageia João Nogueira (FOTO: Rábio Rabelo/Tribuna do Ceará)

Homenagem ininterrupta

Luiz Carlos Aires Barreira Nanan também não conheceu João Nogueira Jucá. O que sabe é que o menino foi seu contemporâneo no Colégio São João, onde estudava à época do incidente na Casa de Saúde Dr. César Cals. No entanto, uma cena fez com que o heroísmo de João jamais saísse da cabeça de Luiz.

“Lembro do professor Odilon Braveza contando do acontecido para o estudantes. O Braveza era muito duro, nunca tínhamos o visto tão comovido. Foi um choque para mim e para todos os colegas. Nunca esqueci disso”, relembra o aposentado do Ministério da Saúde.

Há quase 30 anos, quando estava à frente da Associação de Ex-alunos do Colégio São João, Nanan sugeriu a homenagem a João Nogueira Jucá. Segundo ele, o colega de escola é “o aluno mais importante da instituição”.

“O colégio teve grandes alunos, mas o João é o mais importante, porque ele é estudante até hoje. Nós já estamos velhos e ele continua sendo estudante, garoto, de 17 anos. E assim vai ficar eternamente”, reflete Nanan, que, desde a década de 1990, organiza homenagens a João Nogueira.

“O colégio teve grandes alunos, mas o João é o mais importante, porque ele é estudante até hoje”. (Luiz Carlos Aires Barreira Nanan)

O professor Odilon Gonzaga Braveza era o diretor da escola onde João Nogueira Jucá estudava (FOTO: Arquivo pessoal da família Jucá)

O professor Odilon Gonzaga Braveza era o diretor da escola onde João estudava (FOTO: Arquivo pessoal da família Jucá)

Quando o dia 11 de agosto se aproxima, Nanan começa a telefonar para os participantes da solenidade: a família Jucá; colegas de João; o Corpo de Bombeiros Militar do Ceará; a Organização Educacional Farias Brito, que hoje ocupa o prédio onde funcionava o Colégio São João; e o Hospital Geral Dr. César Cals.

A celebração começa com uma missa na capela do hospital. Em seguida, um café da manhã é servido para os convidados. Logo após, seguem para a Praça da Lagoinha, próximo ao busto de bronze que homenageia João.

Outras homenagens

Herói do Ceará, Membro Honorário da Associação dos Ex-Alunos do Estado do Ceará e Patrono da Campanha Contra a Pena de Morte no Ceará. Esses são alguns dos títulos que o estudante recebeu ao longo dos últimos anos, em reconhecimento à sua atitude heroica.

Numa homenagem justa, João Nogueira Jucá hoje dá nome a duas escolas públicas em Fortaleza, uma do município, no bairro Luciano Cavalcante, e outra do estado, na Sapiranga.

No Mucuripe, em 1964, o Padre José Nilson fundou o Colégio Aluno João Nogueira Jucá. Segundo ex-alunos, a farda da instituição exibia um desenho que representava João segurando um bebê dentro de uma chama de fogo. A instituição mudou de nome em 2009, homenageando agora o nome do fundador.

Já no bairro Serrinha, há a Rua Estudante Jucá. E depois de ter ficado conhecido em todo o Ceará, o adolescente também foi escolhido para nomear uma rua no bairro Herval, localizado no município de Quixadá, a 167 quilômetros da capital.

João Nogueira Jucá foi homenageado com um busto em frente ao hospital (FOTO: William Barros/Tribuna do Ceará)

Além da biografia escrita pelo irmão, a história do estudante também é contada no livro infantil João Nogueira Jucá – O menino bombeiro (2010, Edições Ideal), de Jansen & Baby Viana, e no livro-reportagem Nascidos para salvar (2010), dos jornalistas João Moura Rocha Sobrinho e Thiago Araújo de Souza.

“Ele merece ser lembrado com carinho. A juventude geralmente é espontânea e solidária, mas o João foi além disso. Nós não queremos mais que morra outro João Nogueira. Queremos que esse aí baste e sirva de exemplo para que se tenha mais cuidado com acidentes”, adverte Nanan.

Luciano Viana acredita que este carro de 1957 foi utilizado no resgate na Casa de Saúde (FOTO: Fábio Rabelo/Tribuna do Ceará)

Honorário colega

“João Nogueira Jucá não foi bombeiro por profissão, mas foi bombeiro de coração”, acredita o tenente Luciano Viana, do Corpo de Bombeiros Militar do Ceará (CBMCE). O historiador é autor de um livro que conta a trajetória da corporação no estado. Na obra, há um capítulo dedicado aos heróis do CBMCE. Jucá não poderia faltar.

“O João consegue mostrar a bravura que é preciso ter no trabalho de bombeiro. O ato dele inspira muito a mim e aos meus colegas como profissionais de bombeiros”, define o autor de História do Corpo de Bombeiros Militar do Ceará – Dos seus primórdios aos dias atuais (2018, Editora RDS).

“O João consegue mostrar a bravura que é preciso ter no trabalho de bombeiro”. (Luciano Viana)

João Nogueira Jucá recebeu o título de bombeiro honorário (FOTO: Arquivo pessoal da família Jucá)

Por esse motivo, o Corpo de Bombeiros e o Governo do Estado do Ceará instituíram a Medalha de Bravura João Nogueira Jucá, concedida a quem pratica atos heroicos. “O Corpo de Bombeiros tem esse trabalho de reconhecer quem colabora com o Estado ou com a instituição nessa parte operacional”, explica Luciano.

Em 1987, João Nogueira Jucá foi reconhecido como o Primeiro Bombeiro Honorário Cearense. O título, guardado pela família, atenta para uma ironia da vida: o menino que sonhava com o mar provou mesmo seu heroísmo em meio ao fogo.

Publicidade

Dê sua opinião

DIA DO ESTUDANTE-HERÓI

Há 60 anos, estudante dava a própria vida para salvar vítimas de incêndio em hospital de Fortaleza

Neste Dia do Estudante, relembre a história de João Nogueira Jucá, adolescente cearense que entrou para a história ao morrer após salvamento de recém-nascidos e parturientes em incêndio na então Casa de Saúde Dr. César Cals

Por William Barros em Perfil

11 de agosto de 2019 às 08:00

Há 2 semanas

Em homenagem a João, a Praça da Lagoinha recebeu um busto produzido por escultores (FOTO: William Barros/Tribuna do Ceará)

11 de agosto é o Dia do Estudante. Mas, em especial para alguns cearenses, esse também é o dia de relembrar um nome em particular. Trata-se de João Nogueira Jucá, aluno do antigo colégio São João, que mais tarde virou o colégio Farias Brito sede Aldeota.

Há 60 anos, o jovem foi responsável por salvar inúmeras vítimas de um incêndio na então Casa de Saúde Dr. César Cals, no Centro de Fortaleza. Num ato digno de herói, João deixou sua própria vida pelo caminho para salvar pessoas que nem conhecia.

Para recontar essa história, o Tribuna do Ceará conversou com familiares e amigos de João. Na data que também poderia ser o Dia do Estudante-Herói, convidamos você a relembrar como um jovem cearense se tornou mártir.

Veja abaixo a reportagem em vídeo e em texto.

Há 60 anos, estudante dava a própria vida para salvar vítimas de incêndio em hospital de Fortaleza

Neste Dia do Estudante, relembre a história de João Nogueira Jucá, adolescente cearense que entrou para a história ao morrer após salvamento de recém-nascidos e parturientes em incêndio na então Casa de Saúde Dr. César Cals. https://bit.ly/2TloG7w

Posted by Tribuna do Ceará on Sunday, August 11, 2019

Estudante-Herói
1/2

Estudante-Herói

João Nogueira Jucá é definido por familiares como um menino forte e dedicado à prática esportiva (FOTOS: Arquivo pessoal da família Jucá)

Estudante-Herói
2/2

Estudante-Herói

João Nogueira Jucá é definido por familiares como um menino forte e dedicado à prática esportiva (FOTOS: Arquivo pessoal da família Jucá)

Herói forjado no fogo

Nascido em Fortaleza, em 24 de novembro de 1941, João Nogueira Jucá mudou de endereço diversas vezes durante a infância, devido ao cargo de desembargador ocupado pelo pai. A família Jucá passou por Itapajé e Lavras da Mangabeira. Foi só em 1948 que fixou residência na capital novamente.

Nessas andanças, o que nunca mudava era o jeito educado do garoto que sonhava em ingressar na Marinha de Guerra do Brasil e que ostentava uma vasta coleção de livros sobre um mesmo assunto: o mar. Não mudava também a dedicação aos estudos e o gosto pela prática de esportes.

Às 14h do dia 4 de agosto, João, então com 17 anos, voltava de uma aula de halterofilismo. Quando chegou à Praça da Lagoinha, no Centro, uma aglomeração de pessoas no entorno da Casa de Saúde Dr. César Cals lhe chamou a atenção. Não demorou para que entendesse do que se tratava. Um incêndio atingia o prédio onde hoje funciona o Hospital Geral Dr. César Cals.

Segundo relata o livro Herói e Mártir (2002, Editora ABC), escrito por José Jucá Neto em homenagem ao irmão mais novo, as chamas tiveram início após uma explosão no depósito de tubos de éter, oxigênio e outros produtos inflamáveis. Funcionários lutavam para retirar dali substâncias que poderiam agravar a situação. Aos nervos, pacientes e seus acompanhantes tentavam sair do hospital.

Diante daquela situação, João não hesitou. “Vou entrar. Se quiserem ajudar também, me sigam”, anunciou aos amigos que o acompanhavam. Advertiram-lhe sobre os perigos, mas não bastou. Do interior do hospital, o estudante retirou inúmeros tubos de éter. Mas, acima de tudo, salvou as vidas de recém-nascidos e parturientes.

A então Casa de Saúde César Cals foi o cenário do heroísmo de João Nogueira Jucá (FOTO: Reprodução/Fortaleza Nobre)

Salvador incessante

Mesmo quando o Corpo de Bombeiros do Ceará já havia iniciado seus trabalhos, João não abandonou a missão que tomara para si. “Por favor, meu filho, não entre mais aí”, pedia uma das enfermeiras, segundo relataram testemunhas. “Mas ainda tem gente lá dentro”, justificava o garoto, referindo-se à chamada “ala dos indigentes”, setor onde ficavam os pacientes mais pobres ou sem documentos de identificação.

Na porta do hospital, João se deparou com uma mulher que chorava copiosamente. “O que você tem? Você já não está salva?”, questionou-a. “Mas não tive tempo de pegar o meu bebezinho”, lamentou a moça. Sem pensar muito, João retornou ao interior da casa de saúde e seguiu para o quarto indicado pela jovem. Ao sair, entregou o recém-nascido nos braços da mãe.

A pedido de uma das freiras que trabalhavam na casa, João adentrou mais uma vez, para retirar um tubo de oxigênio. Enquanto o estudante transportava o objeto, ocorreu a segunda explosão. Dessa vez, o garoto não saiu ileso. Sofreu queimaduras de primeiro, segundo e terceiro graus. Até mesmo órgãos internos foram atingidos.

Nos primeiros dias após o incêndio, João ocupou um leito na Assistência Municipal (FOTO: Arquivo pessoal da família Jucá)

Uma semana de internação

Depois disso, João começava a lutar para salvar sua própria vida. Lutava em silêncio. Sem reclamar das dores, aguardou pelo atendimento junto aos demais sobreviventes. Não valeu-se do fato de que seu pai era o desembargador José Jucá Filho, e foi um dos últimos a receber socorro.

Inicialmente, o garoto ficou internado na Unidade de Queimados da Assistência Municipal, atual Instituto Dr. José Frota (IJF). Dias depois, foi encaminhado para a Casa de Saúde César Cals, cenário de sua heroica atitude.

Dia a dia, sua internação foi alvo de intensa cobertura jornalística. Até mesmo o então governador Parsifal Barroso chegou a visitá-lo.

No quarto 42, foi acompanhado pelo pai e pela mãe, a professora Maria Nogueira de Menezes, conhecida como Dona Nenen. “Dói muito, meu filho?”, questionava, apontando para as queimaduras. “É uma brasa, mamãe”, respondia João. “Você não se arrepende do que fez?”, indagava o pai. “O que fiz ainda foi pouco. Se pudesse, teria feito mais, rebatia o menino, conforme relata sua biografia.

Os pais de João estiveram perto do filho até o fim dos dias do menino (FOTO: Arquivo pessoal da família Jucá)

Comoção na cidade

Durante o período na Casa de Saúde, João nem sempre esteve consciente, segundo familiares. Em delírio, imaginava-se oficial da Marinha e chegava a bater continência. Num momento, recebeu o perdão do pai por ter se arriscado. “Agora, eu morro satisfeito”, agonizou. E assim o fez às 5h20 do dia 11 de agosto.

Um cortejo acompanhou o corpo de João até o Cemitério São João Batista, no Centro de Fortaleza. À frente, o governador do Ceará. O menino, que ali já era tratado como herói, agora revelava-se mártir. Seu enterro virou um grande evento.

O governador Parsifal Barroso se manteve à frente do cortejo de João Nogueira Jucá (FOTO: Arquivo pessoal da família Jucá)

Marcas para a vida toda

João não foi o único a falecer em decorrência daquela tragédia. Registros históricos do Corpo de Bombeiros estimam que o saldo do incêndio tenha sido de quatro mortos, mais de 50 feridos e 20 hospitalizações de vítimas em estado grave, incluindo dois bombeiros.

Quem sobreviveu às chamas carregou marcas para a vida toda. É o caso de Raimundo Carvalho, um dos sobreviventes do incêndio. Ex-funcionário da Casa de Saúde, ele foi entrevistado pelos jornalistas João Moura Rocha Sobrinho e Thiago Araújo de Souza, no livro-reportagem Nascidos para salvar (2010).

Assim como João, Raimundo foi vitimado pela segunda explosão. O fogo atingiu as costas do rapaz, que sentiu sua pele ser consumida como um papel. Depois de reunir forças, deixar a Casa de Saúde e receber socorro, Raimundo começou a batalha por sua recuperação.

Pomadas, cirurgias e anos de tratamento não apagaram por completo as cicatrizes do homem. Ao longo da vida, sofreu com o estigma causado pela aparência. Mesmo se quisesse esquecer da tragédia, Raimundo não conseguiria, já que ficou mais conhecido por um apelido que remete diretamente ao episódio: “Seu Queimadinho”. O Tribuna do Ceará não conseguiu localizar o sobrevivente.

Estudante-Herói
1/3

Estudante-Herói

A morte de João foi destaque nos jornais O Povo, Correio do Ceará e Diário do Povo (FOTO: Arquivo pessoal da família Jucá)

Estudante-Herói
2/3

Estudante-Herói

A morte de João foi destaque nos jornais O Povo, Correio do Ceará e Diário do Povo (FOTO: Arquivo pessoal da família Jucá)

Estudante-Herói
3/3

Estudante-Herói

A morte de João foi destaque nos jornais O Povo, Correio do Ceará e Diário do Povo (FOTO: Arquivo pessoal da família Jucá)

Anos de lembranças

Terezinha Ponte Jucá começou seu namoro com José Jucá Neto, irmão mais velho de João, em dezembro de 1958. A convivência com o cunhado durou apenas 10 meses. No entanto, pelo resto da vida, Terezinha assistiu de perto o sofrimento da família pela ausência do ente querido.

“Foram anos de lembranças e choros. A morte do João trouxe um vazio muito grande para a família. Eu via o sofrimento do meu marido e sofria junto com ele. Meu sogro não saía mais para canto nenhum. Minha sogra teve mais força. Acho que toda mãe é mais forte. Ela foi quem conseguiu ajudar mais a família”, relembra.

Terezinha foi casada com o irmão de João por 48 anos (FOTO: Fábio Rabelo/Tribuna do Ceará)

Aos 80 anos, Terezinha é uma das poucas pessoas da família que chegaram a conviver com João e ainda estão vivas. Hoje viúva, ela foi casada por 48 anos com José Jucá Neto, advogado e professor do Departamento de Direito da Universidade Federal do Ceará (UFC). Segundo ela, o marido e o irmão eram “muito unidos, se queriam muito bem”.

José narrou a trajetória do irmão no livro Herói e Mártir (2002, Editora ABC). Além disso, o primeiro dos cinco filhos com Terezinha foi escolhido para receber o nome do que consideram “o maior exemplo de coragem” na família: João.

Terezinha e os filhos, João e Danielle, guardam com orgulho os exemplares da biografia do tio (FOTO: Fábio Rabelo/Tribuna do Ceará)

 

 

Um nome, uma história a repassar

“Eu me orgulho muito do nome que eu tenho, porque relembra uma pessoa que foi importante para a sociedade cearense. É um exemplo de um tio que eu queria muito ter conhecido”, reflete João Nogueira Ponte Jucá, o sobrinho mais velho de João Nogueira Jucá.

Já aposentado, o funcionário público cresceu ouvindo a história do tio e se preocupou em repassá-la aos que nasceram depois. “Meus filhos têm 32 e 30 anos. Sempre ouviram a história do meu tio. Já tenho uma neta de dois aninhos, que logo, logo, passará também a entender que teve um herói na família”, assegura.

Para o sobrinho, João seguiu os passos de Jesus Cristo. “Ele é exemplo de vida, doação, amor, caridade. Sem conhecer ninguém, entrou nas chamas ardentes e salvou desconhecidos. Ele deu a prova maior do amor ao próximo”, orgulha-se.

“Ele é exemplo de vida, doação, amor, caridade. Sem conhecer ninguém, entrou nas chamas ardentes e salvou desconhecidos”. (João Nogueira Ponte Jucá)

João acredita que é importante manter a história do tio viva. “Ele dá um exemplo de doação aos nossos jovens e – por que não dizer – à sociedade, de um modo geral. A sociedade é composta de pessoas boas e pessoas más. João Nogueira Jucá era uma pessoa boa”, avalia.

Barreira Nanan é o mobilizador oficial da solenidade que anualmente homenageia o estudante João Nogueira (FOTO:Tribuna do Ceará / Fábio Rabelo)

Barreira Nanan é o mobilizador da solenidade que anualmente homenageia João Nogueira (FOTO: Rábio Rabelo/Tribuna do Ceará)

Homenagem ininterrupta

Luiz Carlos Aires Barreira Nanan também não conheceu João Nogueira Jucá. O que sabe é que o menino foi seu contemporâneo no Colégio São João, onde estudava à época do incidente na Casa de Saúde Dr. César Cals. No entanto, uma cena fez com que o heroísmo de João jamais saísse da cabeça de Luiz.

“Lembro do professor Odilon Braveza contando do acontecido para o estudantes. O Braveza era muito duro, nunca tínhamos o visto tão comovido. Foi um choque para mim e para todos os colegas. Nunca esqueci disso”, relembra o aposentado do Ministério da Saúde.

Há quase 30 anos, quando estava à frente da Associação de Ex-alunos do Colégio São João, Nanan sugeriu a homenagem a João Nogueira Jucá. Segundo ele, o colega de escola é “o aluno mais importante da instituição”.

“O colégio teve grandes alunos, mas o João é o mais importante, porque ele é estudante até hoje. Nós já estamos velhos e ele continua sendo estudante, garoto, de 17 anos. E assim vai ficar eternamente”, reflete Nanan, que, desde a década de 1990, organiza homenagens a João Nogueira.

“O colégio teve grandes alunos, mas o João é o mais importante, porque ele é estudante até hoje”. (Luiz Carlos Aires Barreira Nanan)

O professor Odilon Gonzaga Braveza era o diretor da escola onde João Nogueira Jucá estudava (FOTO: Arquivo pessoal da família Jucá)

O professor Odilon Gonzaga Braveza era o diretor da escola onde João estudava (FOTO: Arquivo pessoal da família Jucá)

Quando o dia 11 de agosto se aproxima, Nanan começa a telefonar para os participantes da solenidade: a família Jucá; colegas de João; o Corpo de Bombeiros Militar do Ceará; a Organização Educacional Farias Brito, que hoje ocupa o prédio onde funcionava o Colégio São João; e o Hospital Geral Dr. César Cals.

A celebração começa com uma missa na capela do hospital. Em seguida, um café da manhã é servido para os convidados. Logo após, seguem para a Praça da Lagoinha, próximo ao busto de bronze que homenageia João.

Outras homenagens

Herói do Ceará, Membro Honorário da Associação dos Ex-Alunos do Estado do Ceará e Patrono da Campanha Contra a Pena de Morte no Ceará. Esses são alguns dos títulos que o estudante recebeu ao longo dos últimos anos, em reconhecimento à sua atitude heroica.

Numa homenagem justa, João Nogueira Jucá hoje dá nome a duas escolas públicas em Fortaleza, uma do município, no bairro Luciano Cavalcante, e outra do estado, na Sapiranga.

No Mucuripe, em 1964, o Padre José Nilson fundou o Colégio Aluno João Nogueira Jucá. Segundo ex-alunos, a farda da instituição exibia um desenho que representava João segurando um bebê dentro de uma chama de fogo. A instituição mudou de nome em 2009, homenageando agora o nome do fundador.

Já no bairro Serrinha, há a Rua Estudante Jucá. E depois de ter ficado conhecido em todo o Ceará, o adolescente também foi escolhido para nomear uma rua no bairro Herval, localizado no município de Quixadá, a 167 quilômetros da capital.

João Nogueira Jucá foi homenageado com um busto em frente ao hospital (FOTO: William Barros/Tribuna do Ceará)

Além da biografia escrita pelo irmão, a história do estudante também é contada no livro infantil João Nogueira Jucá – O menino bombeiro (2010, Edições Ideal), de Jansen & Baby Viana, e no livro-reportagem Nascidos para salvar (2010), dos jornalistas João Moura Rocha Sobrinho e Thiago Araújo de Souza.

“Ele merece ser lembrado com carinho. A juventude geralmente é espontânea e solidária, mas o João foi além disso. Nós não queremos mais que morra outro João Nogueira. Queremos que esse aí baste e sirva de exemplo para que se tenha mais cuidado com acidentes”, adverte Nanan.

Luciano Viana acredita que este carro de 1957 foi utilizado no resgate na Casa de Saúde (FOTO: Fábio Rabelo/Tribuna do Ceará)

Honorário colega

“João Nogueira Jucá não foi bombeiro por profissão, mas foi bombeiro de coração”, acredita o tenente Luciano Viana, do Corpo de Bombeiros Militar do Ceará (CBMCE). O historiador é autor de um livro que conta a trajetória da corporação no estado. Na obra, há um capítulo dedicado aos heróis do CBMCE. Jucá não poderia faltar.

“O João consegue mostrar a bravura que é preciso ter no trabalho de bombeiro. O ato dele inspira muito a mim e aos meus colegas como profissionais de bombeiros”, define o autor de História do Corpo de Bombeiros Militar do Ceará – Dos seus primórdios aos dias atuais (2018, Editora RDS).

“O João consegue mostrar a bravura que é preciso ter no trabalho de bombeiro”. (Luciano Viana)

João Nogueira Jucá recebeu o título de bombeiro honorário (FOTO: Arquivo pessoal da família Jucá)

Por esse motivo, o Corpo de Bombeiros e o Governo do Estado do Ceará instituíram a Medalha de Bravura João Nogueira Jucá, concedida a quem pratica atos heroicos. “O Corpo de Bombeiros tem esse trabalho de reconhecer quem colabora com o Estado ou com a instituição nessa parte operacional”, explica Luciano.

Em 1987, João Nogueira Jucá foi reconhecido como o Primeiro Bombeiro Honorário Cearense. O título, guardado pela família, atenta para uma ironia da vida: o menino que sonhava com o mar provou mesmo seu heroísmo em meio ao fogo.