Cearense desenvolve programa que acelera diagnóstico da esquizofrenia

AVANÇO

Cearense desenvolve programa que acelera diagnóstico da esquizofrenia

A pesquisa usa algoritmos computacionais para entender e antecipar o diagnóstico da esquizofrenia. Com o estudo, Natália Mota foi a 1ª brasileira indicada ao Nature Research Award

Por Vitória Barbosa em Saúde

19 de dezembro de 2019 às 07:00

Há 1 mês
Natália também tem uma linha de pesquisa sobre o desenvolvimento cognitivo de crianças para entender a esquizofrenia (FOTO: Arquivo Pessoal)

Natália também tem uma linha de pesquisa sobre o desenvolvimento cognitivo de crianças para entender a esquizofrenia (FOTO: José de Paiva Rebouças)

Conciliar as tarefas de mãe, psiquiatra e neurocientista é a grande missão de Natália Mota, cearense que está desenvolvendo um programa de computador capaz de acelerar o diagnóstico da esquizofrenia, que atualmente é concluído em dois anos. Com a pesquisa, Natália foi a primeira brasileira e única sul-americana indicada ao prêmio Nature Research Award, na categoria Ciência Inspiradora.

O trabalho da cearense, desenvolvido durante pesquisa de pós-doutorado na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), consiste em utilizar algoritmos computacionais para entender de forma objetiva o que a psiquiatria faz para diagnosticar um caso de esquizofrenia, a partir da observação de sintomas, comportamentos e evolução clínica.

A esquizofrenia acomete cerca de 1% da população e, basicamente, é uma desordem mental debilitante, caracterizada por delírios e alucinações. Natália explica que esses sintomas, porém, podem estar presentes em outras patologias, como o Transtorno Bipolar do Humor. Por isso, o paciente só recebe um diagnóstico preciso com dois anos. “É importante a gente pensar em um diagnóstico precoce, para diminuir perdas de cognição e oportunidades na vida da pessoa e fazer um trabalho de reabilitação o quanto antes”, relata.

De acordo com a neurocientista, no curso da doença, o sujeito com esquizofrenia tende a ter perdas cognitivas. A doença também causa isolamento social intenso e, com isso, os pacientes acabam perdendo perspectivas de vida, como concluir estudos ou trabalhar. “Ainda quando era estudante de Medicina, eu ficava compadecida com os pacientes com esquizofrenia e isso me motivava a entender o porquê a pessoa que perdia o contato com a realidade não queria se socializar”, justificou o interesse em estudar sobre o assunto.

Trajetória da fala

Um dos sintomas de uma pessoa com esquizofrenia é a desordem do pensamento, que pode ser observada na trajetória da fala do sujeito ao expressar algo que aconteceu. Em casos positivos da doença, há uma quebra da sequência lógica dessa trajetória de fala. Todo esse processo de avaliação, segundo Natália, é muito subjetivo e leva tempo. Pensando nisso, ela teve a ideia de usar a matemática.

“A gente, então, transformou essa trajetória de palavras do paciente ao contar um sonho, por exemplo, em uma trajetória matemática, chamada de ‘grafo’. Cada elemento dessa trajetória é uma palavra diferente, e a sequência das palavras é dada por setas”, descreve. Com a conversão feita em um programa, se consegue calcular como esses elementos ou palavras se relacionam entre si em uma sequência e o quanto o discurso está organizado.

Como o programa funciona?

Atualmente, o programa está em fase de testes e funciona em linguagem Java. Na prática, ele consegue fazer um upload de arquivo de texto com transcrição de um relato do paciente para produzir o grafo desse texto. A partir daí, ele calcula as medidas necessárias para caracterizar a conectividade de uma fala.

“Ele tem um potencial importante. Nos estudos com poucos pacientes, a gente conseguiu ver uma predição de 90% de eficácia e, apenas com padrões de fala, identificar quem tinha esquizofrenia”. O estudo foi realizado em 200 pessoas, número considerado pouco para poder generalizar a uma população global. Por isso ainda está em processo de validação.

Hoje, o programa está disponível apenas para pesquisadores e não uso clínico. Para um dia ser utilizado como uma ferramenta clínica dos médicos, o programa ainda precisa ser testado em mais pessoas. “A gente está em colaboração com outros grupos de pesquisa para ampliar essa amostra de pacientes e poder validá-lo em várias regiões do país”. A ideia é que ele seja utilizado na rede pública de saúde.

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Cearense desenvolve programa que acelera diagnóstico da esquizofrenia

A pesquisa usa algoritmos computacionais para entender e antecipar o diagnóstico da esquizofrenia. Com o estudo, Natália Mota foi a 1ª brasileira indicada ao Nature Research Award

Por Vitória Barbosa em Saúde

19 de dezembro de 2019 às 07:00

Há 1 mês
Natália também tem uma linha de pesquisa sobre o desenvolvimento cognitivo de crianças para entender a esquizofrenia (FOTO: Arquivo Pessoal)

Natália também tem uma linha de pesquisa sobre o desenvolvimento cognitivo de crianças para entender a esquizofrenia (FOTO: José de Paiva Rebouças)

Conciliar as tarefas de mãe, psiquiatra e neurocientista é a grande missão de Natália Mota, cearense que está desenvolvendo um programa de computador capaz de acelerar o diagnóstico da esquizofrenia, que atualmente é concluído em dois anos. Com a pesquisa, Natália foi a primeira brasileira e única sul-americana indicada ao prêmio Nature Research Award, na categoria Ciência Inspiradora.

O trabalho da cearense, desenvolvido durante pesquisa de pós-doutorado na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), consiste em utilizar algoritmos computacionais para entender de forma objetiva o que a psiquiatria faz para diagnosticar um caso de esquizofrenia, a partir da observação de sintomas, comportamentos e evolução clínica.

A esquizofrenia acomete cerca de 1% da população e, basicamente, é uma desordem mental debilitante, caracterizada por delírios e alucinações. Natália explica que esses sintomas, porém, podem estar presentes em outras patologias, como o Transtorno Bipolar do Humor. Por isso, o paciente só recebe um diagnóstico preciso com dois anos. “É importante a gente pensar em um diagnóstico precoce, para diminuir perdas de cognição e oportunidades na vida da pessoa e fazer um trabalho de reabilitação o quanto antes”, relata.

De acordo com a neurocientista, no curso da doença, o sujeito com esquizofrenia tende a ter perdas cognitivas. A doença também causa isolamento social intenso e, com isso, os pacientes acabam perdendo perspectivas de vida, como concluir estudos ou trabalhar. “Ainda quando era estudante de Medicina, eu ficava compadecida com os pacientes com esquizofrenia e isso me motivava a entender o porquê a pessoa que perdia o contato com a realidade não queria se socializar”, justificou o interesse em estudar sobre o assunto.

Trajetória da fala

Um dos sintomas de uma pessoa com esquizofrenia é a desordem do pensamento, que pode ser observada na trajetória da fala do sujeito ao expressar algo que aconteceu. Em casos positivos da doença, há uma quebra da sequência lógica dessa trajetória de fala. Todo esse processo de avaliação, segundo Natália, é muito subjetivo e leva tempo. Pensando nisso, ela teve a ideia de usar a matemática.

“A gente, então, transformou essa trajetória de palavras do paciente ao contar um sonho, por exemplo, em uma trajetória matemática, chamada de ‘grafo’. Cada elemento dessa trajetória é uma palavra diferente, e a sequência das palavras é dada por setas”, descreve. Com a conversão feita em um programa, se consegue calcular como esses elementos ou palavras se relacionam entre si em uma sequência e o quanto o discurso está organizado.

Como o programa funciona?

Atualmente, o programa está em fase de testes e funciona em linguagem Java. Na prática, ele consegue fazer um upload de arquivo de texto com transcrição de um relato do paciente para produzir o grafo desse texto. A partir daí, ele calcula as medidas necessárias para caracterizar a conectividade de uma fala.

“Ele tem um potencial importante. Nos estudos com poucos pacientes, a gente conseguiu ver uma predição de 90% de eficácia e, apenas com padrões de fala, identificar quem tinha esquizofrenia”. O estudo foi realizado em 200 pessoas, número considerado pouco para poder generalizar a uma população global. Por isso ainda está em processo de validação.

Hoje, o programa está disponível apenas para pesquisadores e não uso clínico. Para um dia ser utilizado como uma ferramenta clínica dos médicos, o programa ainda precisa ser testado em mais pessoas. “A gente está em colaboração com outros grupos de pesquisa para ampliar essa amostra de pacientes e poder validá-lo em várias regiões do país”. A ideia é que ele seja utilizado na rede pública de saúde.