"Precisamos ser mais sensíveis", diz nutricionista que ilustrou a dieta de uma paciente analfabeta

NUTRIÇÃO HUMANIZADA

“Precisamos ser mais sensíveis”, diz nutricionista que ilustrou a dieta de uma paciente analfabeta

Postagem do nutricionista viralizou nas redes sociais ao relembrar atendimento a uma idosa quando ainda era estagiário. Ele alerta para a necessidade de humanização dos profissionais

Por William Barros em Saúde

8 de novembro de 2019 às 07:00

Há 4 dias

Além da dieta, o nutricionista ilustrou a receita de um repelente para mosquitos (FOTO: Reprodução/Instagram)

Era 2017. Durante atendimentos domiciliares realizados no Barroso, em Fortaleza, Gabriel Oliveira tratou de Dona Francisca. Aos 84 anos, a idosa sofria com frequentes tonturas, devido à redução das taxas de glicose no sangue, a hipoglicemia.

Depois de elaborar uma dieta regrada para a paciente, surgia um obstáculo: como uma mulher não alfabetizada poderia entender o que estava no papel? A partir desse questionamento, veio a solução. Por meio de um plano alimentar ilustrado elaborado pelo então estudante de Nutrição, Dona Francisca resolveu seu problema.

Formado há pouco mais de um ano pela Universidade de Fortaleza (Unifor), o nutricionista já atende em um consultório. Mas o que ele nunca esquece é dessa experiência vivida ainda durante o período em que estagiou no posto de saúde que fica próximo à sua casa.

Nas redes sociais, ele relembrou a história em uma publicação que fez bastante sucesso e comoveu os internautas. Segundo ele, o principal aprendizado com Dona Francisca foi a necessidade da humanização do tratamento por parte de profissionais de saúde.

Gabriel ensinou o passo a passo para que Francisca e seu filho pudessem fazer o repelente em casa (FOTO: Reprodução/Instagram)

Se eu fosse fazer apenas o meu trabalho, o tratamento não teria dado resultados. Como a Dona Francisca é analfabeta, a dieta foi adaptada, feita de forma ilustrada, fez total diferença para que ela aderisse ao tratamento. Isso foi bom também para mostrar que a nutrição é muito mais do que prescrever dietas e que devemos ser mais sensíveis, se colocar no lugar do próximo”, avalia o jovem de 24 anos.

Além dele, o colega de estágio Lucas Carvalho e a professora Natália Carvalho contribuíram para o trabalho realizado com Dona Francisca. À época, a equipe atendia no Posto de Saúde Waldo Pessoa de Almeida. Eles também realizavam palestras sobre educação nutricional em escolas públicas do Barroso e organizavam reuniões com um grupo de idosos que moram no bairro.

Tudo nesse estágio foi especial para mim. Tive a felicidade de estagiar no posto de saúde do bairro onde nasci e fui criado“, define o nutricionista, que mora na mesma comunidade até hoje.

Outro produto

Depois de ser acionado pela agente de saúde e consultar Dona Francisca pela primeira vez, a preocupação tomou conta da cabeça de Gabriel. Além da necessidade de ilustrar a dieta, o profissional de saúde percebeu marcas de picadas de mosquito nas pernas da idosa. “Estava tendo inúmeros casos de Chikungunya. Moravam na casa apenas ela e o filho, e um depende muito do outro no dia a dia. Imagina se ela ou filho dela pegam Chikungunya. Fiquei bastante preocupado. Isso não saía da minha cabeça”, recorda o jovem.

Foi a partir dessa preocupação que ele desenvolveu outro produto: um repelente caseiro, simples e barato, que pudesse ser feito por Dona Francisca e seu filho. Depois de ensiná-los o passo a passo, veio o resultado. “Ao olhar as pernas dela, vi que as marcas de picada diminuíram bastante. Era sinal que ela estava usando o repelente direitinho e, o mais legal, que estava funcionando”, classifica.

Humanização

Entre Gabriel e Francisca, restou a amizade (FOTO: Reprodução/Instagram)

Para ele, esse olhar atento não deveria ser raridade quando o assunto é o trabalho de profissionais de saúde. “Outros profissionais precisam ter mais sensibilidade, interesse em realmente escutar e entender cada pessoa. As pessoas não são as doenças. Por trás de um diabético, hipertenso, obeso ou de qualquer outra enfermidade, existe um ser humano que precisa da nossa ajuda, que tem seus gostos, vontades, cultura e problemas”, alerta o nutricionista.

Gabriel sonha mais alto e pretende levar essa filosofia de trabalho para outros profissionais. Um de seus maiores sonhos é ser professor de Nutrição. “Quero ensinar, mas sempre mostrando para os estudantes e profissionais a importância de se ter um olhar amplo e humanizado sobre as pessoas. Quero mostrar que de nada vale conhecer as teorias, se não houver empatia”, pondera ele.

E esse trabalho não tem hora para começar. Aliás, já começou. Gabriel é um dos criadores do Grupo de Estudos e Ensino em Nutrição (Green), que é composto por seis nutricionistas. A equipe realiza reuniões científicas periódicas para estudar artigos científicos e trocar experiências.

“Temos vários projetos e objetivos para um futuro próximo, e um deles, como o próprio nome do grupo já diz, é ensinar nutrição para estudantes e profissionais. Logo, logo estaremos divulgando mais o nosso trabalho”, planeja o nutricionista, que já começa a espalhar seu humanismo entre os colegas.

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NUTRIÇÃO HUMANIZADA

“Precisamos ser mais sensíveis”, diz nutricionista que ilustrou a dieta de uma paciente analfabeta

Postagem do nutricionista viralizou nas redes sociais ao relembrar atendimento a uma idosa quando ainda era estagiário. Ele alerta para a necessidade de humanização dos profissionais

Por William Barros em Saúde

8 de novembro de 2019 às 07:00

Há 4 dias

Além da dieta, o nutricionista ilustrou a receita de um repelente para mosquitos (FOTO: Reprodução/Instagram)

Era 2017. Durante atendimentos domiciliares realizados no Barroso, em Fortaleza, Gabriel Oliveira tratou de Dona Francisca. Aos 84 anos, a idosa sofria com frequentes tonturas, devido à redução das taxas de glicose no sangue, a hipoglicemia.

Depois de elaborar uma dieta regrada para a paciente, surgia um obstáculo: como uma mulher não alfabetizada poderia entender o que estava no papel? A partir desse questionamento, veio a solução. Por meio de um plano alimentar ilustrado elaborado pelo então estudante de Nutrição, Dona Francisca resolveu seu problema.

Formado há pouco mais de um ano pela Universidade de Fortaleza (Unifor), o nutricionista já atende em um consultório. Mas o que ele nunca esquece é dessa experiência vivida ainda durante o período em que estagiou no posto de saúde que fica próximo à sua casa.

Nas redes sociais, ele relembrou a história em uma publicação que fez bastante sucesso e comoveu os internautas. Segundo ele, o principal aprendizado com Dona Francisca foi a necessidade da humanização do tratamento por parte de profissionais de saúde.

Gabriel ensinou o passo a passo para que Francisca e seu filho pudessem fazer o repelente em casa (FOTO: Reprodução/Instagram)

Se eu fosse fazer apenas o meu trabalho, o tratamento não teria dado resultados. Como a Dona Francisca é analfabeta, a dieta foi adaptada, feita de forma ilustrada, fez total diferença para que ela aderisse ao tratamento. Isso foi bom também para mostrar que a nutrição é muito mais do que prescrever dietas e que devemos ser mais sensíveis, se colocar no lugar do próximo”, avalia o jovem de 24 anos.

Além dele, o colega de estágio Lucas Carvalho e a professora Natália Carvalho contribuíram para o trabalho realizado com Dona Francisca. À época, a equipe atendia no Posto de Saúde Waldo Pessoa de Almeida. Eles também realizavam palestras sobre educação nutricional em escolas públicas do Barroso e organizavam reuniões com um grupo de idosos que moram no bairro.

Tudo nesse estágio foi especial para mim. Tive a felicidade de estagiar no posto de saúde do bairro onde nasci e fui criado“, define o nutricionista, que mora na mesma comunidade até hoje.

Outro produto

Depois de ser acionado pela agente de saúde e consultar Dona Francisca pela primeira vez, a preocupação tomou conta da cabeça de Gabriel. Além da necessidade de ilustrar a dieta, o profissional de saúde percebeu marcas de picadas de mosquito nas pernas da idosa. “Estava tendo inúmeros casos de Chikungunya. Moravam na casa apenas ela e o filho, e um depende muito do outro no dia a dia. Imagina se ela ou filho dela pegam Chikungunya. Fiquei bastante preocupado. Isso não saía da minha cabeça”, recorda o jovem.

Foi a partir dessa preocupação que ele desenvolveu outro produto: um repelente caseiro, simples e barato, que pudesse ser feito por Dona Francisca e seu filho. Depois de ensiná-los o passo a passo, veio o resultado. “Ao olhar as pernas dela, vi que as marcas de picada diminuíram bastante. Era sinal que ela estava usando o repelente direitinho e, o mais legal, que estava funcionando”, classifica.

Humanização

Entre Gabriel e Francisca, restou a amizade (FOTO: Reprodução/Instagram)

Para ele, esse olhar atento não deveria ser raridade quando o assunto é o trabalho de profissionais de saúde. “Outros profissionais precisam ter mais sensibilidade, interesse em realmente escutar e entender cada pessoa. As pessoas não são as doenças. Por trás de um diabético, hipertenso, obeso ou de qualquer outra enfermidade, existe um ser humano que precisa da nossa ajuda, que tem seus gostos, vontades, cultura e problemas”, alerta o nutricionista.

Gabriel sonha mais alto e pretende levar essa filosofia de trabalho para outros profissionais. Um de seus maiores sonhos é ser professor de Nutrição. “Quero ensinar, mas sempre mostrando para os estudantes e profissionais a importância de se ter um olhar amplo e humanizado sobre as pessoas. Quero mostrar que de nada vale conhecer as teorias, se não houver empatia”, pondera ele.

E esse trabalho não tem hora para começar. Aliás, já começou. Gabriel é um dos criadores do Grupo de Estudos e Ensino em Nutrição (Green), que é composto por seis nutricionistas. A equipe realiza reuniões científicas periódicas para estudar artigos científicos e trocar experiências.

“Temos vários projetos e objetivos para um futuro próximo, e um deles, como o próprio nome do grupo já diz, é ensinar nutrição para estudantes e profissionais. Logo, logo estaremos divulgando mais o nosso trabalho”, planeja o nutricionista, que já começa a espalhar seu humanismo entre os colegas.