Fortaleza que mata, Fortaleza que morre


Fortaleza que mata, Fortaleza que morre

Oficialmente, a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará divulga que, em janeiro de 2013 foram registrados 163 homicídios em Fortaleza e 74 na Região Metropolitana, totalizando 237

Por Daniel Herculano em Segurança Pública

10 de março de 2013 às 19:59

Há 7 anos
Mais um homicídio em Fortaleza (FOTO: Reprodução/Barra Pesada)

Mais um homicídio em Fortaleza (FOTO: Reprodução/Barra Pesada)

Os números são alarmantes e dignos de uma guerra civil. Apenas nos primeiros cinco dias de março já são 69 homicídios registrados em Fortaleza e na Região Metropolitana. Comparado com o mesmo período de 2012, o aumento chega a 72.5%.

Os dados estão disponíveis no site da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará (SSPDS), por meio da Coordenadoria de Medicina Legal (Comel), que divulga ainda que dos 69 homicídios, 60 foram por bala, oito por faca e um com barra de ferro.

O fundador do Laboratório de Estudos da Violência (LEV) da Universidade Federal do Ceará (UFC), César Barreira, levanta questões que vão muito além do ato violento em si. O pesquisador afirma que os dados de vulnerabilidade no setor mais jovem, aliado ao alto índice de desigualdade social no Ceará, além da sensação de insegurança, são indicativos que atestam nossa atual condição.

Números divergentes

Oficialmente, a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará divulga que, em janeiro de 2013 foram registrados 163 homicídios em Fortaleza e 74 na Região Metropolitana, totalizando 237. Já a Comel/IML divulga um total de 342 homicídios, apenas em janeiro.

“Às vezes, uma lesão em uma pessoa pode se transformar em homicídio. Acreditamos que a diferença pode acontecer quanto a isso. Mas mesmo assim, a Secretaria de Segurança Pública do Estado do Ceará não mascara a realidade”, afirma o comandante-geral da Polícia Miliar, coronel Werisleik Pontes Matias.

Em comparação com 2012, a soma dos meses de janeiro, fevereiro e dos primeiros cinco dias de março faz com que o número total de homicídios em 2013 suba de 641 para 688. Isso sem levar em consideração as mortes catalogadas pela Comel como causa “desconhecida”, que totalizam mais 141, apenas em 2013.

Conforme o analista de sistemas e responsável pelos dados da COMEL, Roberto Félix, a dita ‘morte indeterminada’ acontece quando o corpo dá entrada, mas é necessário fazer um exame necropsial para identificar a causa da morte. “Entre 24 e 48 horas, quando a causa é identificada, a ficha sai da estatística de ‘indeterminada’ e entra para uma das especificações, se é suicídio, morte acidental ou homicídio”, explica Félix, mas que não soube justificar porque, por exemplo, os números de 2012 ainda constam como indeterminadas, ou seja, sem classificação.

13ª cidade mais violenta do mundo

De acordo com o relatório de 2012 do Conselho Cidadão para a Segurança Pública e Justiça Penal, uma Organização Não Governamental (ONG) mexicana, fundada em 2002 e que analisa dados de segurança, narcotráfico, sequestro e políticas públicas, Fortaleza é hoje a 13ª cidade mais violenta do mundo. Na pesquisa foram consideradas apena cidades selecionadas com mais de 300 mil habitantes.

O Governo do Estado não comenta sobre a pesquisa da ONG mexicana, mas garante que medidas de policiamento ostensivo são aplicadas na tentativa de reduzir os índices de violência de Fortaleza. Depois de uma troca de telefonemas, e-mails foram enviados para a assessoria de comunicação da Secretaria de Segurança e para o coronel Fernando Albano, relações públicas da Polícia Militar, solicitando quais seriam as ações de combate à violência. Porém, as mensagens não foram respondidas.

O coronel Werisleik Pontes Matias admite que a violência aumentou em Fortaleza, mas não por falta de ação da polícia. “Para você mensurar, nos primeiros dois meses desse ano, já apreendemos mais de mil armas. Mais precisamente, 1.016 armas de fogo. Esse número já perpassa o quantitativo do ano passado”, afirma.

Investimentos

Para 2013 existem programados mais de R$ 1,5 bilhão de investimento em segurança pública e até o início de março já foram investidos mais de R$ 205 milhões. O deputado estadual Heitor Férrer apresentou dados do Portal da Transparência e afirmou que nunca um governo investiu tanto em segurança no Ceará. Mesmo assim, durante uma sessão na Assembleia Legislativa, o deputado fez uma indagação importante: “mesmo com tanto investimento, por que a violência continua a crescer?”.

O deputado terminou sua fala apresentando um requerimento de audiência pública para debater a atual situação convidando o Secretário da Segurança Pública e Defesa Social, o Comandante da Polícia Militar do Estado do Ceará, o Superintendente da Polícia Civil, membros do Conselho Estadual de Segurança Pública, um representante do Ministério Público do Estado do Ceará, um representante da OAB-CE, um representante do Laboratório de Estudos da Violência (LEV), da Universidade Federal do Ceará (UFC) e um representante do Laboratório de Estudos da Conflitualidade e da Violência da Universidade Estadual do Ceará (UECE). No mesmo documento ele justifica a audiência pública com a afirmação de que “ao longo das gestões do governo Cid Gomes e com a criação do Programa Ronda do Quarteirão, que seria modelo de combate à violência no Estado, o resultado foi um redundante fracasso em termos de solução dos problemas da violência pública”.

Índices no Nordeste

Outras capitais do Nordeste também divulgaram seus números de homicídios, referentes a janeiro de 2013. Em Recife, capital de Pernambuco, foram registrados 42 homicídios. São Luiz (MA) e João Pessoa (PB) divulgaram 64, cada um. Em Teresina (PI) são 23 homicídios, enquanto Sergipe, capital de Aracaju, registrou o menor número, com 19. Já Maceió, capital de Alagoas, tem o maior índice, com 87 homicídios, mas ainda bem distante dos três números diferentes divulgados pelo Governo do Estado do Ceará. Todos os dados são referentes às capitais e suas respectivas cidades e regiões metropolitanas.

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Fortaleza que mata, Fortaleza que morre

Oficialmente, a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará divulga que, em janeiro de 2013 foram registrados 163 homicídios em Fortaleza e 74 na Região Metropolitana, totalizando 237

Por Daniel Herculano em Segurança Pública

10 de março de 2013 às 19:59

Há 7 anos
Mais um homicídio em Fortaleza (FOTO: Reprodução/Barra Pesada)

Mais um homicídio em Fortaleza (FOTO: Reprodução/Barra Pesada)

Os números são alarmantes e dignos de uma guerra civil. Apenas nos primeiros cinco dias de março já são 69 homicídios registrados em Fortaleza e na Região Metropolitana. Comparado com o mesmo período de 2012, o aumento chega a 72.5%.

Os dados estão disponíveis no site da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará (SSPDS), por meio da Coordenadoria de Medicina Legal (Comel), que divulga ainda que dos 69 homicídios, 60 foram por bala, oito por faca e um com barra de ferro.

O fundador do Laboratório de Estudos da Violência (LEV) da Universidade Federal do Ceará (UFC), César Barreira, levanta questões que vão muito além do ato violento em si. O pesquisador afirma que os dados de vulnerabilidade no setor mais jovem, aliado ao alto índice de desigualdade social no Ceará, além da sensação de insegurança, são indicativos que atestam nossa atual condição.

Números divergentes

Oficialmente, a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará divulga que, em janeiro de 2013 foram registrados 163 homicídios em Fortaleza e 74 na Região Metropolitana, totalizando 237. Já a Comel/IML divulga um total de 342 homicídios, apenas em janeiro.

“Às vezes, uma lesão em uma pessoa pode se transformar em homicídio. Acreditamos que a diferença pode acontecer quanto a isso. Mas mesmo assim, a Secretaria de Segurança Pública do Estado do Ceará não mascara a realidade”, afirma o comandante-geral da Polícia Miliar, coronel Werisleik Pontes Matias.

Em comparação com 2012, a soma dos meses de janeiro, fevereiro e dos primeiros cinco dias de março faz com que o número total de homicídios em 2013 suba de 641 para 688. Isso sem levar em consideração as mortes catalogadas pela Comel como causa “desconhecida”, que totalizam mais 141, apenas em 2013.

Conforme o analista de sistemas e responsável pelos dados da COMEL, Roberto Félix, a dita ‘morte indeterminada’ acontece quando o corpo dá entrada, mas é necessário fazer um exame necropsial para identificar a causa da morte. “Entre 24 e 48 horas, quando a causa é identificada, a ficha sai da estatística de ‘indeterminada’ e entra para uma das especificações, se é suicídio, morte acidental ou homicídio”, explica Félix, mas que não soube justificar porque, por exemplo, os números de 2012 ainda constam como indeterminadas, ou seja, sem classificação.

13ª cidade mais violenta do mundo

De acordo com o relatório de 2012 do Conselho Cidadão para a Segurança Pública e Justiça Penal, uma Organização Não Governamental (ONG) mexicana, fundada em 2002 e que analisa dados de segurança, narcotráfico, sequestro e políticas públicas, Fortaleza é hoje a 13ª cidade mais violenta do mundo. Na pesquisa foram consideradas apena cidades selecionadas com mais de 300 mil habitantes.

O Governo do Estado não comenta sobre a pesquisa da ONG mexicana, mas garante que medidas de policiamento ostensivo são aplicadas na tentativa de reduzir os índices de violência de Fortaleza. Depois de uma troca de telefonemas, e-mails foram enviados para a assessoria de comunicação da Secretaria de Segurança e para o coronel Fernando Albano, relações públicas da Polícia Militar, solicitando quais seriam as ações de combate à violência. Porém, as mensagens não foram respondidas.

O coronel Werisleik Pontes Matias admite que a violência aumentou em Fortaleza, mas não por falta de ação da polícia. “Para você mensurar, nos primeiros dois meses desse ano, já apreendemos mais de mil armas. Mais precisamente, 1.016 armas de fogo. Esse número já perpassa o quantitativo do ano passado”, afirma.

Investimentos

Para 2013 existem programados mais de R$ 1,5 bilhão de investimento em segurança pública e até o início de março já foram investidos mais de R$ 205 milhões. O deputado estadual Heitor Férrer apresentou dados do Portal da Transparência e afirmou que nunca um governo investiu tanto em segurança no Ceará. Mesmo assim, durante uma sessão na Assembleia Legislativa, o deputado fez uma indagação importante: “mesmo com tanto investimento, por que a violência continua a crescer?”.

O deputado terminou sua fala apresentando um requerimento de audiência pública para debater a atual situação convidando o Secretário da Segurança Pública e Defesa Social, o Comandante da Polícia Militar do Estado do Ceará, o Superintendente da Polícia Civil, membros do Conselho Estadual de Segurança Pública, um representante do Ministério Público do Estado do Ceará, um representante da OAB-CE, um representante do Laboratório de Estudos da Violência (LEV), da Universidade Federal do Ceará (UFC) e um representante do Laboratório de Estudos da Conflitualidade e da Violência da Universidade Estadual do Ceará (UECE). No mesmo documento ele justifica a audiência pública com a afirmação de que “ao longo das gestões do governo Cid Gomes e com a criação do Programa Ronda do Quarteirão, que seria modelo de combate à violência no Estado, o resultado foi um redundante fracasso em termos de solução dos problemas da violência pública”.

Índices no Nordeste

Outras capitais do Nordeste também divulgaram seus números de homicídios, referentes a janeiro de 2013. Em Recife, capital de Pernambuco, foram registrados 42 homicídios. São Luiz (MA) e João Pessoa (PB) divulgaram 64, cada um. Em Teresina (PI) são 23 homicídios, enquanto Sergipe, capital de Aracaju, registrou o menor número, com 19. Já Maceió, capital de Alagoas, tem o maior índice, com 87 homicídios, mas ainda bem distante dos três números diferentes divulgados pelo Governo do Estado do Ceará. Todos os dados são referentes às capitais e suas respectivas cidades e regiões metropolitanas.