Maioria dos policiais assassinados no Ceará estava de folga e reagiu em assaltos


Maioria dos policiais assassinados no Ceará estava de folga e reagiu em assaltos

Dos 18 policiais mortos desde 2015, 12 estavam de folga e, ao reagir a assaltos, acabaram mortos. Seria hora de uma orientação aos agentes?

Por Roberta Tavares em Segurança Pública

17 de fevereiro de 2016 às 06:00

Há 4 anos
Corporações recomendam que os policiais reajam quando estiverem em vantagem em relação aos assaltantes (FOTO: Reprodução/TV Jangadeiro)

Corporações recomendam que os policiais reajam quando estiverem em vantagem na situação (FOTO: Reprodução/TV Jangadeiro)

Apenas em 2016, quatro policiais foram assassinados no Ceará. Três deles estavam de folga e morreram ao serem vítimas de ações criminosas. Em 2015, dos 14 agentes de segurança pública mortos, nove estavam de folga. A maior parte deles foi vítima de disparo de arma de fogo, decorrente de homicídio doloso ou latrocínio.

Em casos de assalto, a recomendação do Sindicato dos Policiais Civis do Ceará (Sinpol) é que os profissionais reajam. “Só não deve reagir em casos extremos. Se tiver a chance de reagir, reaja. Porque, quando os bandidos veem que é um policial, tendem a matá-lo”, afirma o presidente Gustavo Simplício.

Para a Polícia Militar, a indicação é que os policiais sejam cautelosos e reajam quando se sentirem em vantagem em relação ao assaltante. “A recomendação é que não reaja a nenhuma ação, a não ser que esteja em vantagem, obedecendo a sua própria segurança. Se o policial, com a formação que tem, estiver dentro do seu limite de segurança, ele pode e deve agir”, diz o Relações Públicas da PM, coronel Andrade Mendonça.

A Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) informa que os policiais têm, por força de ofício, uma tendência natural de intervir em qualquer ocorrência. Dessa forma, algumas vezes o policial está fora de serviço ou sem reforços e, mesmo assim, se sente levado a defender a sociedade e a si mesmo. Em consequência, pode acabar sendo atingido letalmente.

“A SSPDS, em geral, recomenda que não haja reação a assaltos. O agente de segurança, pela sua função e treinamento, deve fazer uma avaliação sobre a viabilidade de reação dependendo da situação, levando em consideração que a prioridade é preservar a vida antes de preservar o patrimônio”, informa a assessoria por meio de nota.

Mesmo assim, os policiais acabam tendo obrigação de reagir a qualquer situação que coloque em risco a segurança pública. Independente das orientações, o instinto fala mais alto. “É o instinto policial. Ele é treinado para isso. Então, tem a tendência de interferir em assalto de terceiros, de lutar pela segurança”, admite o presidente do Sinpol.

24 horas por dia

Os números mostram que os policiais ‘trabalham’ 24 horas por dia, até quando estão de folga. Segundo Gustavo Simplício, os bandidos agem de forma mais violenta quando descobrem que a vítima é policial. Por isso, algumas orientações são feitas, como evitar utilizar qualquer objeto que o caracterize como agente de segurança.

“Com a entrada de organizações criminosas no nosso estado, a gente orienta que os policiais não andem com farda, em caso de militares, e escondam a carteira, no caso de civis, porque a ordem desses grupos é matar mesmo, assim como já é rotina no Rio de Janeiro”, alerta.

Último caso

A morte mais recente de um agente de segurança registrada no Ceará aconteceu na manhã de sexta-feira (12). O Soldado do Ronda de Ações Intensivas e Ostensivas (Raio) Augusto Herbert Félix foi assassinado a tiros durante tentativa de assalto no Bairro Planalto Pici, em Fortaleza.

A vítima estava de folga e seguia de motocicleta na Rua Santo Amaro, por volta das 6h, quando foi surpreendido por dois homens, também em uma moto, que anunciaram o assalto enquanto o PM aguardava no semáforo fechado. Ele reagiu e trocou tiros com os suspeitos. A perícia constatou nove lesões a bala no corpo do PM (uma no braço, uma nas costas e sete no rosto).

Na segunda-feira (15), um subtenente da Polícia Militar foi baleado durante tentativa de assalto no município de Caucaia, na Região Metropolitana de Fortaleza. Três homens em duas motocicletas anunciaram o assalto no Bairro Garrote. José Bezerra da Silva, de 50 anos, da Reserva Remunerada da PM, teria reagido e sido baleado na lateral do abdômen.

Desabafo

Diante do alto índice de violência, a indignação é visível no rosto dos policiais. O subtenente Mardônio, da Polícia Militar, está há 30 anos na corporação e admitiu estar cansado de enterrar colegas de trabalho. “Estou ficando esgotado de tanto vir ao cemitério enterrar ‘irmão de farda’. São 30 anos trabalhando na rua, no dia a dia, saindo de casa sem ter a certeza de que vou voltar. Tudo isso para defender a vida de pessoas que eu não conheço, mas é meu dever e minha obrigação”, desabafou.

Para os militares, é necessário mudar as leis do Brasil, com punições mais severas aos que cometem crimes. “Eu nunca vi mudarem as leis. Nós estamos prendendo bandido que, com poucos dias, vamos ver novamente nas ruas, assaltando, matando, traficando, estuprando. Um maior de idade ainda passa um ou dois meses na cadeia. Mas um adolescente, passa um dia ou dois e está na rua de novo, praticando as mesmas barbaridades que cometeu antes de ser apreendido”, conclui o subtenente.

Assista à matéria exibida no programa Barra Pesada, da TV Jangadeiro/SBT:

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Maioria dos policiais assassinados no Ceará estava de folga e reagiu em assaltos

Dos 18 policiais mortos desde 2015, 12 estavam de folga e, ao reagir a assaltos, acabaram mortos. Seria hora de uma orientação aos agentes?

Por Roberta Tavares em Segurança Pública

17 de fevereiro de 2016 às 06:00

Há 4 anos
Corporações recomendam que os policiais reajam quando estiverem em vantagem em relação aos assaltantes (FOTO: Reprodução/TV Jangadeiro)

Corporações recomendam que os policiais reajam quando estiverem em vantagem na situação (FOTO: Reprodução/TV Jangadeiro)

Apenas em 2016, quatro policiais foram assassinados no Ceará. Três deles estavam de folga e morreram ao serem vítimas de ações criminosas. Em 2015, dos 14 agentes de segurança pública mortos, nove estavam de folga. A maior parte deles foi vítima de disparo de arma de fogo, decorrente de homicídio doloso ou latrocínio.

Em casos de assalto, a recomendação do Sindicato dos Policiais Civis do Ceará (Sinpol) é que os profissionais reajam. “Só não deve reagir em casos extremos. Se tiver a chance de reagir, reaja. Porque, quando os bandidos veem que é um policial, tendem a matá-lo”, afirma o presidente Gustavo Simplício.

Para a Polícia Militar, a indicação é que os policiais sejam cautelosos e reajam quando se sentirem em vantagem em relação ao assaltante. “A recomendação é que não reaja a nenhuma ação, a não ser que esteja em vantagem, obedecendo a sua própria segurança. Se o policial, com a formação que tem, estiver dentro do seu limite de segurança, ele pode e deve agir”, diz o Relações Públicas da PM, coronel Andrade Mendonça.

A Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) informa que os policiais têm, por força de ofício, uma tendência natural de intervir em qualquer ocorrência. Dessa forma, algumas vezes o policial está fora de serviço ou sem reforços e, mesmo assim, se sente levado a defender a sociedade e a si mesmo. Em consequência, pode acabar sendo atingido letalmente.

“A SSPDS, em geral, recomenda que não haja reação a assaltos. O agente de segurança, pela sua função e treinamento, deve fazer uma avaliação sobre a viabilidade de reação dependendo da situação, levando em consideração que a prioridade é preservar a vida antes de preservar o patrimônio”, informa a assessoria por meio de nota.

Mesmo assim, os policiais acabam tendo obrigação de reagir a qualquer situação que coloque em risco a segurança pública. Independente das orientações, o instinto fala mais alto. “É o instinto policial. Ele é treinado para isso. Então, tem a tendência de interferir em assalto de terceiros, de lutar pela segurança”, admite o presidente do Sinpol.

24 horas por dia

Os números mostram que os policiais ‘trabalham’ 24 horas por dia, até quando estão de folga. Segundo Gustavo Simplício, os bandidos agem de forma mais violenta quando descobrem que a vítima é policial. Por isso, algumas orientações são feitas, como evitar utilizar qualquer objeto que o caracterize como agente de segurança.

“Com a entrada de organizações criminosas no nosso estado, a gente orienta que os policiais não andem com farda, em caso de militares, e escondam a carteira, no caso de civis, porque a ordem desses grupos é matar mesmo, assim como já é rotina no Rio de Janeiro”, alerta.

Último caso

A morte mais recente de um agente de segurança registrada no Ceará aconteceu na manhã de sexta-feira (12). O Soldado do Ronda de Ações Intensivas e Ostensivas (Raio) Augusto Herbert Félix foi assassinado a tiros durante tentativa de assalto no Bairro Planalto Pici, em Fortaleza.

A vítima estava de folga e seguia de motocicleta na Rua Santo Amaro, por volta das 6h, quando foi surpreendido por dois homens, também em uma moto, que anunciaram o assalto enquanto o PM aguardava no semáforo fechado. Ele reagiu e trocou tiros com os suspeitos. A perícia constatou nove lesões a bala no corpo do PM (uma no braço, uma nas costas e sete no rosto).

Na segunda-feira (15), um subtenente da Polícia Militar foi baleado durante tentativa de assalto no município de Caucaia, na Região Metropolitana de Fortaleza. Três homens em duas motocicletas anunciaram o assalto no Bairro Garrote. José Bezerra da Silva, de 50 anos, da Reserva Remunerada da PM, teria reagido e sido baleado na lateral do abdômen.

Desabafo

Diante do alto índice de violência, a indignação é visível no rosto dos policiais. O subtenente Mardônio, da Polícia Militar, está há 30 anos na corporação e admitiu estar cansado de enterrar colegas de trabalho. “Estou ficando esgotado de tanto vir ao cemitério enterrar ‘irmão de farda’. São 30 anos trabalhando na rua, no dia a dia, saindo de casa sem ter a certeza de que vou voltar. Tudo isso para defender a vida de pessoas que eu não conheço, mas é meu dever e minha obrigação”, desabafou.

Para os militares, é necessário mudar as leis do Brasil, com punições mais severas aos que cometem crimes. “Eu nunca vi mudarem as leis. Nós estamos prendendo bandido que, com poucos dias, vamos ver novamente nas ruas, assaltando, matando, traficando, estuprando. Um maior de idade ainda passa um ou dois meses na cadeia. Mas um adolescente, passa um dia ou dois e está na rua de novo, praticando as mesmas barbaridades que cometeu antes de ser apreendido”, conclui o subtenente.

Assista à matéria exibida no programa Barra Pesada, da TV Jangadeiro/SBT:

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