Violência em Fortaleza: não curto e não compartilho


Violência em Fortaleza: não curto e não compartilho

“São narrativas de pessoas que se veem no meio da violência e não sabem o que fazer, mas que encontram na página um meio de desabafarem os seus medos e suas angústias”

Por Daniel Herculano em Segurança Pública

13 de março de 2013 às 13:15

Há 7 anos

Tenho certeza de que você já leu em sua timeline das redes sociais, a história de algum amigo (ou amigo de um amigo) que foi assaltado numa esquina qualquer da cidade. #QuemNunca contou a sua própria experiência de terror particular vivenciada em Fortaleza, cheias de indignação e corroídas pelo medo? Talvez só quem ainda não tenha passado por isso… Pois é, já faz algum tempo que a internet aderiu ao viés das denúncias, testemunhos de crimes, alertas de assaltos em engarrafamentos ou até mesmo campo aberto para o desabafo para amigos e seguidores.

Criado pelos profissionais de marketing, Elias Hissa e Bosco Couto, a página do Facebook, ‘Fortaleza Sem Medo’ já conta com mais de 4 mil curtidores/participantes e é uma iniciativa que se autodenomina apartidária, que habita o terreno do ativismo digital como um grito de paz, a base de curtidas e compartilhamentos.

“A violência está em todo lugar”

Diariamente são republicadas matérias policiais pinçadas da imprensa e, principalmente, relatos (autorizados) de pessoas que são vítimas ou testemunham atos violentos, vindo de todos os lugares de Fortaleza. “São narrativas de pessoas que se veem no meio da violência e não sabem o que fazer, mas que encontram na página um meio de desabafarem os seus medos e suas angústias” explica Hissa.

As pessoas têm procurado compartilhar situações de violência nas diversas redes sociais (ARTE: Divulgação)

As pessoas têm procurado compartilhar situações de violência nas diversas redes sociais (ARTE: Divulgação)

César Barreira, fundador do Laboratório de Estudos da Violência (LEV) da Universidade Federal do Ceará (UFC), alerta que os dados mostram que não existe mais um local em que os fortalezenses se sintam seguros. “A violência está em todo lugar, em todos os bairros da capital”, e adiciona que “se na periferia ocorrem mais homicídios, nas áreas mais nobres de Fortaleza acontecem mais assaltos, sequestros e outras ocorrências”.

Bosco garante que criou a página antes mesmo do próprio filho e esposa serem vítimas da violência em Fortaleza, num assalto a mão armada, que culminou em prejuízo material e abalo psicológico. “As pessoas só gritam quando elas são atingidas. Até o pior acontecer, nada existe”, desabafa e complementa que a estratégia de expor as histórias aterrorizantes, quase sempre carregadas de muita revolta, faz com que as pessoas não precisem necessariamente passar por um ato de violência para se compadecer da dor alheia.

Online X Offline

O sociólogo do LEV, Ricardo Moura, vê o ativismo digital como uma ação capaz de despertar questões que sensibilizam a sociedade. “O ativismo digital é importante para alertar a população sobre o que está acontecendo na cidade, até porque o perfil ‘Fortaleza Sem Medo’ é uma compilação da violência. No entanto, o movimento não pode ficar somente na denúncia e na divulgação dos fatos, isso é apenas o primeiro passo. É preciso pensar em ações, que saiam do virtual, para pressionar os políticos. Essa indignação não deve ficar só em um comentário, mas sim, ir para o mundo offline”.

Ciente da capacidade de alcance do mundo online, a iniciativa ‘Fortaleza Sem Medo’ tem a intenção formar uma massa crítica capaz de dar os três passos necessários para a mudança: a conscientização, o engajamento e depois a ação. “Todo movimento tem de ter um despertar e isso, infelizmente, só ocorre com uma crise, com um choque” diz Bosco, que projeta para breve uma ação de rua que convocará os curtidores/participantes da página para um ato de paz por acreditar na sua importância como alerta às autoridades.

O não B.O.

Tanto Hissa quanto Bosco acreditam que há um número muito grande de pessoas que preferem evitar o Boletim de Ocorrência (B.O.), por vários motivos: seja por medo da denúncia e eventualmente ter de identificar o criminoso, ou por precisar perder horas e até o dia para registrá-lo ou até por achar que não vai dar em nada mesmo.

A universitária Ketyllen Almeida, de certa forma, concorda com os dois. “Nunca acontece nada! Você perde um tempo enorme para registrar uma coisa que não trará vantagem nenhuma pra você, pois nunca vai ter o que é seu de volta, os bandidos que te assaltaram continuarão livres”. Ela crê que a polícia só usa os B.O.s por puro senso de estatística, e arremata que “segurança se faz nas ruas, já que um policial dentro da delegacia nunca levantou da cadeira pra ir atrás de bandido”.

Já o delegado titular do Departamento de Policia Especializada do Estado do Ceará, Dr. Jairo Pequeno, alerta para a importância de se registrar um B.O., exatamente para o cidadão de bem se resguardar, “principalmente em relação a documentos e cheques roubados” exemplifica. O delegado crê que aquelas pessoas que não registram a ocorrência são “desinformados” e lamenta essa condição.

Do mesmo lado está o professor Vicente Olsen, ao afirmar que quando se registra um B.O., a ocorrência se transforma em dado, e, por mais que ela não venha a ser resolvida de imediato, se transforma no principal meio de informação do Estado e dos órgãos de segurança pública. “De posse dos dados concretos, o Estado e os órgãos de segurança podem tomar medidas mais precisas para o combate à violência”, finaliza Olsen.

Ideias para uma Fortaleza de paz

César Barreira vê o estado com capacidade e condições de mudar a atual situação. “Não acredito apenas em equipamentos, nem somente aumento de efetivo policial”, diz, lembrando que outras cidades violentas possuem exemplos práticos para tal mudança.

Na visão do pesquisador, a resolução perpassaria pela articulação da polícia do estado: a começar pela guarda municipal, passando pelo Ronda do Quarteirão e depois às policias especiais. Depois de articulada, a ação se daria além do âmbito da segurança com base no policiamento, mas em um conjunto de ações. Estariam envolvidas as áreas do trabalho social, a saúde, a educação e a inclusão da cultura no dia a dia da população, gerando assim políticas mais específicas para a juventude e o combate às drogas, além de utilizar escolas públicas em tempo integral.

A dupla do ‘Fortaleza Sem Medo’ também acredita que investir apenas por investir não é a solução e pontua que “o problema da violência é de sempre e não surgiu de oitos anos para cá, mas é importante observar o aumento do número de crimes nos últimos anos”. Em sinergia com o comentário, o sociólogo Ricardo Moura afirma que “o alto índice de homicídios que a capital registra mostra a necessidade de pensar em um programa específico de combate a esses crimes”.

Moura diz que existem programas bem sucedidos em outros países que podem ser usados como inspiração para minimizar o problema da violência na capital “Há muita gente capacitada nas secretarias, que podem pensar em soluções. Apesar de saber que cada experiência é única, ainda assim Fortaleza pode usar o exemplo de outras cidades”.

Na página do ‘Fortaleza Sem Medo’ há 45 ideias para uma cidade mais segura. “Nós compilamos um conjunto de ações, vindo das mais diferentes cidades do mundo, com resultados positivos e com um único interesse: a paz”, ressalta Bosco. Para acessá-las, clique aqui.

As ideias listadas por Hissa e Bosco ressaltam também a importância da apropriação do espaço urbano pela sociedade. De acordo com eles, temos de ter mais senso de cidade, pois quanto mais pessoas nas ruas, mais tranquilidade é gerada. Eles ainda consideram que o que acontece atualmente é uma espécie de política do umbigo, em que as pessoas não se importam com as outras e muito menos com a cidade, causando uma anestesia social que não se forma uma condição de se viver em sociedade.

“Todos podemos mudar esse sentimento com educação, urbanismo e um novo dia a dia da nossa cidade”, acreditam, com a esperança que o atual governo estadual receba esse grito de socorro em forma de fanpage, abastecido com curtidas e compartilhamentos, e que ao final do post a paz ganhe o topo do trending topics da vida real. Afinal, #FortalezaQuerPaz.

Com informações das repórteres Roberta Tavares e Hayanne Narlla.

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Violência em Fortaleza: não curto e não compartilho

“São narrativas de pessoas que se veem no meio da violência e não sabem o que fazer, mas que encontram na página um meio de desabafarem os seus medos e suas angústias”

Por Daniel Herculano em Segurança Pública

13 de março de 2013 às 13:15

Há 7 anos

Tenho certeza de que você já leu em sua timeline das redes sociais, a história de algum amigo (ou amigo de um amigo) que foi assaltado numa esquina qualquer da cidade. #QuemNunca contou a sua própria experiência de terror particular vivenciada em Fortaleza, cheias de indignação e corroídas pelo medo? Talvez só quem ainda não tenha passado por isso… Pois é, já faz algum tempo que a internet aderiu ao viés das denúncias, testemunhos de crimes, alertas de assaltos em engarrafamentos ou até mesmo campo aberto para o desabafo para amigos e seguidores.

Criado pelos profissionais de marketing, Elias Hissa e Bosco Couto, a página do Facebook, ‘Fortaleza Sem Medo’ já conta com mais de 4 mil curtidores/participantes e é uma iniciativa que se autodenomina apartidária, que habita o terreno do ativismo digital como um grito de paz, a base de curtidas e compartilhamentos.

“A violência está em todo lugar”

Diariamente são republicadas matérias policiais pinçadas da imprensa e, principalmente, relatos (autorizados) de pessoas que são vítimas ou testemunham atos violentos, vindo de todos os lugares de Fortaleza. “São narrativas de pessoas que se veem no meio da violência e não sabem o que fazer, mas que encontram na página um meio de desabafarem os seus medos e suas angústias” explica Hissa.

As pessoas têm procurado compartilhar situações de violência nas diversas redes sociais (ARTE: Divulgação)

As pessoas têm procurado compartilhar situações de violência nas diversas redes sociais (ARTE: Divulgação)

César Barreira, fundador do Laboratório de Estudos da Violência (LEV) da Universidade Federal do Ceará (UFC), alerta que os dados mostram que não existe mais um local em que os fortalezenses se sintam seguros. “A violência está em todo lugar, em todos os bairros da capital”, e adiciona que “se na periferia ocorrem mais homicídios, nas áreas mais nobres de Fortaleza acontecem mais assaltos, sequestros e outras ocorrências”.

Bosco garante que criou a página antes mesmo do próprio filho e esposa serem vítimas da violência em Fortaleza, num assalto a mão armada, que culminou em prejuízo material e abalo psicológico. “As pessoas só gritam quando elas são atingidas. Até o pior acontecer, nada existe”, desabafa e complementa que a estratégia de expor as histórias aterrorizantes, quase sempre carregadas de muita revolta, faz com que as pessoas não precisem necessariamente passar por um ato de violência para se compadecer da dor alheia.

Online X Offline

O sociólogo do LEV, Ricardo Moura, vê o ativismo digital como uma ação capaz de despertar questões que sensibilizam a sociedade. “O ativismo digital é importante para alertar a população sobre o que está acontecendo na cidade, até porque o perfil ‘Fortaleza Sem Medo’ é uma compilação da violência. No entanto, o movimento não pode ficar somente na denúncia e na divulgação dos fatos, isso é apenas o primeiro passo. É preciso pensar em ações, que saiam do virtual, para pressionar os políticos. Essa indignação não deve ficar só em um comentário, mas sim, ir para o mundo offline”.

Ciente da capacidade de alcance do mundo online, a iniciativa ‘Fortaleza Sem Medo’ tem a intenção formar uma massa crítica capaz de dar os três passos necessários para a mudança: a conscientização, o engajamento e depois a ação. “Todo movimento tem de ter um despertar e isso, infelizmente, só ocorre com uma crise, com um choque” diz Bosco, que projeta para breve uma ação de rua que convocará os curtidores/participantes da página para um ato de paz por acreditar na sua importância como alerta às autoridades.

O não B.O.

Tanto Hissa quanto Bosco acreditam que há um número muito grande de pessoas que preferem evitar o Boletim de Ocorrência (B.O.), por vários motivos: seja por medo da denúncia e eventualmente ter de identificar o criminoso, ou por precisar perder horas e até o dia para registrá-lo ou até por achar que não vai dar em nada mesmo.

A universitária Ketyllen Almeida, de certa forma, concorda com os dois. “Nunca acontece nada! Você perde um tempo enorme para registrar uma coisa que não trará vantagem nenhuma pra você, pois nunca vai ter o que é seu de volta, os bandidos que te assaltaram continuarão livres”. Ela crê que a polícia só usa os B.O.s por puro senso de estatística, e arremata que “segurança se faz nas ruas, já que um policial dentro da delegacia nunca levantou da cadeira pra ir atrás de bandido”.

Já o delegado titular do Departamento de Policia Especializada do Estado do Ceará, Dr. Jairo Pequeno, alerta para a importância de se registrar um B.O., exatamente para o cidadão de bem se resguardar, “principalmente em relação a documentos e cheques roubados” exemplifica. O delegado crê que aquelas pessoas que não registram a ocorrência são “desinformados” e lamenta essa condição.

Do mesmo lado está o professor Vicente Olsen, ao afirmar que quando se registra um B.O., a ocorrência se transforma em dado, e, por mais que ela não venha a ser resolvida de imediato, se transforma no principal meio de informação do Estado e dos órgãos de segurança pública. “De posse dos dados concretos, o Estado e os órgãos de segurança podem tomar medidas mais precisas para o combate à violência”, finaliza Olsen.

Ideias para uma Fortaleza de paz

César Barreira vê o estado com capacidade e condições de mudar a atual situação. “Não acredito apenas em equipamentos, nem somente aumento de efetivo policial”, diz, lembrando que outras cidades violentas possuem exemplos práticos para tal mudança.

Na visão do pesquisador, a resolução perpassaria pela articulação da polícia do estado: a começar pela guarda municipal, passando pelo Ronda do Quarteirão e depois às policias especiais. Depois de articulada, a ação se daria além do âmbito da segurança com base no policiamento, mas em um conjunto de ações. Estariam envolvidas as áreas do trabalho social, a saúde, a educação e a inclusão da cultura no dia a dia da população, gerando assim políticas mais específicas para a juventude e o combate às drogas, além de utilizar escolas públicas em tempo integral.

A dupla do ‘Fortaleza Sem Medo’ também acredita que investir apenas por investir não é a solução e pontua que “o problema da violência é de sempre e não surgiu de oitos anos para cá, mas é importante observar o aumento do número de crimes nos últimos anos”. Em sinergia com o comentário, o sociólogo Ricardo Moura afirma que “o alto índice de homicídios que a capital registra mostra a necessidade de pensar em um programa específico de combate a esses crimes”.

Moura diz que existem programas bem sucedidos em outros países que podem ser usados como inspiração para minimizar o problema da violência na capital “Há muita gente capacitada nas secretarias, que podem pensar em soluções. Apesar de saber que cada experiência é única, ainda assim Fortaleza pode usar o exemplo de outras cidades”.

Na página do ‘Fortaleza Sem Medo’ há 45 ideias para uma cidade mais segura. “Nós compilamos um conjunto de ações, vindo das mais diferentes cidades do mundo, com resultados positivos e com um único interesse: a paz”, ressalta Bosco. Para acessá-las, clique aqui.

As ideias listadas por Hissa e Bosco ressaltam também a importância da apropriação do espaço urbano pela sociedade. De acordo com eles, temos de ter mais senso de cidade, pois quanto mais pessoas nas ruas, mais tranquilidade é gerada. Eles ainda consideram que o que acontece atualmente é uma espécie de política do umbigo, em que as pessoas não se importam com as outras e muito menos com a cidade, causando uma anestesia social que não se forma uma condição de se viver em sociedade.

“Todos podemos mudar esse sentimento com educação, urbanismo e um novo dia a dia da nossa cidade”, acreditam, com a esperança que o atual governo estadual receba esse grito de socorro em forma de fanpage, abastecido com curtidas e compartilhamentos, e que ao final do post a paz ganhe o topo do trending topics da vida real. Afinal, #FortalezaQuerPaz.

Com informações das repórteres Roberta Tavares e Hayanne Narlla.